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Mundo dos Bichos

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Após onda de adoções, abandono de animais domésticos dispara 70% na pandemia

A atual situação da pandemia no Brasil culminou na diminuição de novas adoções de animais domésticos e seguiu um caminho inverso, o do abandono.

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ROBERTO OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Não se sabe ao certo quanto tempo a mãe passou amarrada com seus cinco filhotes dentro de uma caixa de papelão numa madrugada chuvosa. Fato é que um deles teve um ferimento grave na região genital. O laudo veterinário constatou que o filhote não terá condições de se reproduzir na fase adulta. Terá de conviver com uma sonda para poder urinar.

Esse é apenas um exemplo perverso da situação de abandono de animais domésticos Brasil afora. Diante do quadro de acirramento da crise desencadeada pela Covid-19, o descaso com os bichos não para de aumentar em um momento de interesses e demandas humanas tão em alta.

"Nunca vi uma situação desoladora como agora", conta Daura Carvalho Pereira, 49 anos, 18 deles na defesa animal. "Não passa um dia sem aparecer animal abandonado."

O número de cães e gatos, entre outros bichos, resgatados no Brasil aumentou cerca de 70% no ano passado, segundo um levantamento da Ampara Animal, uma associação de mulheres que ajuda abrigos e protetores independentes, feito em ao menos 530 deles por todo o país. 


A cadela e os cinco filhotes mencionados no começo deste texto estão sob proteção de Daura e de sua família, no abrigo Toca dos Peludos, na zona rural de Mairiporã (SP).

No espaço, cuja trajetória de acolher animais desamparados atingiu neste mês o seu ápice, vivem hoje 328 cães, 25 gatos, 19 cabras e 50 galinhas. Há ainda cinco jumentos, dois cavalos e duas tartarugas. Todos eles são tratados pelo nome, com exceção dos galináceos, devido à aparência semelhante, o que dificulta individualizá-los na hora do trato.

Para manter toda essa estrutura de acolhimento, são necessários R$ 45 mil por mês. Só de ração, os animais consomem 3,5 toneladas em 30 dias. A crise teve um impacto devastador sobre as doações, que recuaram quase 80%, nos cálculos de Daura.

Ela lembra que, durante o auge da pandemia, entre abril e julho, ao presenciar uma verdadeira explosão de adoção, teve um rompante de esperança. "As pessoas estavam carentes. Queriam um bichinho de companhia. Era o momento em que muita gente estava indo trabalhar em casa."

Aos poucos, esse cenário foi se alterando. O desemprego, o fim do auxílio emergencial, a necessidade de muita gente ter de sair para trabalhar e outros que se mudaram para a casa dos pais não só cessaram as novas adoções como pavimentaram um caminho inverso, o do abandono.

Daura se recorda de um cão SRD (sem raça definida) de apenas três meses, largado, no fim de janeiro, às margens da rodovia Fernão Dias. Desnutrido, o filhote tinha queimaduras que iam de um pouco abaixo da cabeça até a altura das pernas dianteiras. As marcas sugerem que alguém tenha jogado água fervente nele. Foi salvo e recupera-se.

"Também é muito comum ver essas 'caminhonetonas' pararem no acostamento, o motorista soltar o animal -que estava alegre, pensando que era um passeio-, virar as costas e abandonar o bicho", diz ela.

Todos os mamíferos levados à Toca dos Peludos são castrados, vacinados e vermifugados. Há ainda o compromisso de tentar disponibilizar parte desses animais para doação.

"Vira-lata, adulto, de porte médio, pelagem curta e preta, esses ninguém quer adotar", explica Daura, com a experiência de quem ainda participa de feiras de adoção.

Esse é o perfil dos excluídos, que sobrecarregam ainda mais os abrigos, na avaliação de Rosangela Gebara, gerente de projetos da Ampara. "Esses cães, infelizmente, esperam há anos, sem a chance de ter o carinho e o amor de uma família só por causa de suas características físicas", afirma.

Filha de Daura, a também cuidadora Natália Pelegrin, 26, conta que as pessoas costumam se encantar com os filhotes. "Quando crescem e não ficam tão bonitinhos como esperavam, eles abandonam."

Se não fosse pelo preconceito, mãe e filha acreditam que apenas dez cães do abrigo não teriam chances de adoção. Alguns deles têm idade avançada, outros sofrem de doenças crônicas, que exigem acompanhamento constante. Há também animais paraplégicos e cegos que moram na Toca dos Peludos.

Ligada à prefeitura, a Cosap (Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico) informa que investe na promoção da guarda responsável por meio de programas educativos com o intuito de reduzir a população de animais nas ruas da cidade. O projeto Escola Amiga dos Animais, por exemplo, tem como objetivo conscientizar crianças.

A prefeitura disponibiliza ainda castração gratuita de cães e gatos tutelados por moradores tanto em clínicas contratadas quando em mutirões, agora suspensos por causa da pandemia, além de "castramóveis", que atuam em áreas de vulnerabilidade social.

Moradora de casa alugada na zona norte da capital paulista, a vendedora Maria Reginelda Roque de Sousa, 54, há 16 anos se dedica a cuidar de animais desamparados, vítimas de maus-tratos. Neste momento, ela acolhe 46 deles.

"Uma amiga me ajuda com ração. Vendo uma coisa aqui, outra ali, mas sou independente, não sou uma ONG", diz ela. "Aqui está faltando tudo: ração, remédio, pratinho para alimentação, coleiras."

Nesses tempos dedicados aos bichos, ela jamais havia presenciado uma situação como a de hoje. "Não tenho mais espaço nem condições para receber os animais. Preciso que as pessoas adotem para que eu possa acolher outros."

Maria diz ser criticada e incompreendida por vizinhos pelo fato de abrigar os animais. "Estou esgotada." Ela planeja mudar-se com aqueles que não conseguem ser adotados para Juazeiro do Norte, terra dos pais, no Ceará. Lá, espera criar o seu próprio abrigo numa área rural. "São Paulo é grande demais. Assim como é grande em demasia o descaso com os bichos." Talvez, quem sabe, eles encontrem amor e espaço no interior do Brasil. É o que espera Maria. "Posso desistir da humanidade. Deles, jamais!"