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Recordista nos 400 m com barreiras desde 1992 se diz fã de Alison dos Santos

"Kevin Young... e ainda detentor do recorde mundial, pelo menos até o fim de semana!". É assim que o dono da melhor marca da história na prova dos 400 m com barreiras há 29 anos se despede em mensagem enviada à Folha.

| Folhapress

   

Recordista nos 400 m com barreiras desde 1992 se diz fã de Alison dos Santos. (Foto: Wagner Carmo/CBAt)

DANIEL E. DE CASTRO SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Kevin Young... e ainda detentor do recorde mundial, pelo menos até o fim de semana!". É assim que o dono da melhor marca da história na prova dos 400 m com barreiras há 29 anos se despede em mensagem enviada à Folha.
A assinatura do americano revela duas coisas: o orgulho que ele tem do recorde estabelecido nos Jogos Olímpicos de Barcelona-1992 e a convicção de que nunca esteve tão perto de perdê-lo.  

Em 6 de agosto de 1992, Kevin Young cruzou a linha de chegada na Catalunha com o braço erguido, após derrubar a última barreira, finalizando a corrida em 46s78.   


Ele reconhece que poderia ter alcançado aproximadamente 46s50, mas seu tempo bastou não só para levar a medalha de ouro como também para quebrar a marca de Edwin Moses (47s02). Lenda da prova, o também americano foi campeão olímpico em 1976, 1984 e medalhista de bronze em 1988. Perdeu a chance de um terceiro ouro em 1980 por causa do boicote dos EUA aos Jogos de Moscou.  

Young, 54, já pensou que seu recorde seria batido pelos compatriotas Angelo Taylor (ouro em Sydney-2000 e Pequim-2008) ou Kerron Clement (ouro na Rio-2016), mas isso não aconteceu. Nos últimos anos, porém, três atletas quebraram a barreira dos 47 segundos, elevando a concorrência na prova para um patamar altíssimo.  

"Acredito que seja [reflexo de] uma combinação de coisas. Os atletas estão mais focados e com menos distrações com finanças, as pistas são mais rápidas pela tecnologia, assim como os equipamentos e calçados são mais leves", afirma.  

Em agosto de 2020, no retorno das competições internacionais de atletismo em meio à pandemia de Covid-19, o norueguês Karsten Warholm ficou a nove centésimos do recorde ao correr uma etapa da Liga Diamante em 46s87. O catariano Abderrahman Samba e o americano Rai Benjamin marcaram 46s98 em 2018 e 2019, respectivamente. 

Warholm, 25, Samba, 25, e Benjamin, 23, são os três principais nomes da prova em que o jovem brasileiro Alison dos Santos, 20, o Piu, também surge a passos largos.   


"Karsten ou Rai, ou ambos, correrão mais rápido do que o recorde existente. Acho que Rai poderá quebrar a barreira de 46 segundos, por sua vantagem como velocista", diz Young.
O recordista também tem acompanhado e apreciado o desempenho de Piu. Em abril, ele viu o brasileiro fazer sua então melhor marca da carreira (48s15) no tradicional evento Drake Realys, em Des Moines (Iowa), nos EUA -ela foi superada neste mês, com os 47s68 em outra competição no país.  

"Sou amigo do [Kenny] Selmon [que ficou em segundo lugar], mas sabia que ele havia encontrado seu adversário depois da sétima barreira. Adoro vê-lo [Alison] correr. Diga a ele que sou fã dele", pediu o americano.
Piu tem 2 metros de altura, 7 centímetros a mais do que Young. Como a prova dos 400 m com barreiras exige habilidades de velocidade, resistência e salto, ser alto é importante, mas ser tão alto também pode causar dificuldades na corrida. A altura da maioria dos outros grandes nomes da prova não chega a 1,90 m.  

O brasileiro percorre a distância entre algumas das dez barreiras dispostas na pista com 12 passadas, menos do que o padrão de 13 dos concorrentes, e observa com atenção justamente o que o recordista fez no passado. "O Kevin Young tem a corrida semelhante à minha. Era um atleta bem alto, forte e que conseguia ser muito rápido no chão. A gente estuda alguns atletas que tem um perfil parecido com o meu para saber como trabalhar", conta.  

"Com a altura que tem, ele nunca deve ter medo de desafiar sua habilidade. É apenas uma questão de tempo para correr em 47,5 segundos. Eu adoraria compartilhar uma conversa de treinamento com ele", afirma Young.   


O americano, atualmente mestrando em ética e integridade do esporte na universidade KU Leuven (Bélgica), se mostra um apaixonado pela prova que o colocou nos livros de história dos Jogos Olímpicos. Dos 44 recordes mundiais em eventos masculinos listados no site da World Athletics (federação internacional), apenas 4 são mais antigos que o dele.  

"Gosto muito de ver as provas de barreiras. Elas me lembram de como eu estava com fome de perseguir os recordes. É um grande sentimento para mim saber que fui capaz de definir a marca depois de Edwin, agora outros estão buscando melhorar a minha. Eu não poderia pedir mais nada", diz.  

É por isso que enquanto Piu, Warholm, Samba e Benjamin tentarão fazer história nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a Kevin Young resta esperar que os novos capítulos da prova sejam escritos. Até este fim de semana, ele é o recordista mundial.