Você sabia que é possível identificar alguém pelos dentes? Eles são as substâncias mais duras e resistentes do corpo humano, o que é um dos motivos pelos quais a arcada dentária é, muitas vezes, a única parte restante do corpo de uma pessoa falecida em um caso criminal.
Pensando em aprimorar o cenário dos estudos sobre identificação a partir dos dentes, o pesquisador Giovani Fogalli, da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba), da Unicamp de Piracicaba, desenvolveu em seu doutorado um software voltado a esse processo.
O sistema chamado de “Toothprint” aprimora a captura e o processamento digital das imagens dos dentes, armazenando-as em um banco de dados e possibilitando a comparação entre elas e a consequente identificação do sujeito envolvido.
Como surgiu a iniciativa
Segundo Fogalli, o processo de identificação se dá através das bandas de Hunter-Schreger (HSB, na sigla em inglês), microestruturas presentes na camada mais externa de nossos dentes (o esmalte), que formam linhas comparáveis às de uma impressão digital.
A existência das bandas no esmalte dos dentes explica-se como um recurso evolutivo dos animais para aumentar a resistência dessas estruturas. As HSB nascem a partir da deposição, em diferentes camadas, dos cristalitos que compõem o esmalte, gerando um efeito óptico que pode ser captado por meio da incidência de luz lateral.
Como o esmalte do dente é extremamente resistente à passagem do tempo e a condições adversas, como altas temperaturas e processos de decomposição, as bandas podem ser úteis em análises forenses envolvendo o reconhecimento de corpos de vítimas de grandes desastres ou em casos de decomposição avançada.
“A análise das bandas fornece um resultado rápido e confiável e não demanda um dentista especialista que analise toda uma arcada dentária”, aponta Fogalli.
Porém, por conta de limitações tecnológicas, principalmente em relação à obtenção das imagens, parte dos estudos das bandas HBS foram suspensos nos últimos anos. Assim, a ideia de criar o “Toothprint” surgiu com o objetivo de mudar esse cenário.
Como o software que identifica pessoas pelos dentes funciona?
Antes de inserir uma foto no banco, o sistema identifica as HSB e recorta a área de interesse. A imagem recebe um filtro e passa de colorida a preto e branco, evidenciando as linhas das bandas. Esse processo permite a identificação de aspectos morfológicos das linhas, que são convertidos em dados numéricos e, posteriormente, armazenados.
“Visualmente, nós temos uma certa capacidade de olhar duas imagens [de HSB] e buscar por similaridades. Porém, quando automatizamos esse processo, a fim de que ele seja mais confiável, precisamos criar algoritmos específicos”, afirmou o pesquisador.
Fogalli realizou um estágio de pesquisa no Zuse Institut Berlin, na Alemanha, para desenvolver parte do software, que incorpora recursos de inteligência artificial encarregados de localizar as bandas nos dentes. Segundo o pesquisador, as HSB visíveis ocupam cerca de dois terços do esmalte dos dentes e, por isso, sua detecção deve ser feita de forma cuidadosa. “Dentro de todo o processo, a área do dente que será usada para análise é mapeada por IA [inteligência artificial]”.
Após o seu desenvolvimento, o software foi validado por meio de testes feitos com 115 dentes naturais, em diversas condições – íntegros, fraturados, com cáries, restaurados etc. As imagens compuseram um banco de dados experimental e, para testá-lo, os pesquisadores compararam novas imagens com as existentes no banco. A taxa de erro registrada foi de apenas 6%, o que é promissor para identificação de uma pessoa, considerando o número de dentes em cada indivíduo.
Quais os próximos passos do projeto?
O sistema Toothprint continua a ser aperfeiçoado pelo pesquisador. Fogalli quer incluir nas análises outras características dos dentes, como trincas do esmalte e o formato dessas estruturas.
O pesquisador possui ainda outros projetos, como o de ampliar o uso do software para, em vez de simplesmente analisar as fotos, fazer o escaneamento dos dentes em tempo real, mapeando áreas maiores do esmalte. Visa-se assim ampliar o uso do software de forma que o recurso se torne simples e acessível e que mais pessoas queiram ter o registro de suas HSB.
“Quem sabe, um dia, as pessoas venham a guardar em suas casas as imagens de suas bandas para uma eventual comprovação de identidade?”, indagou.
*Com informações do Jornal da Unicamp
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