BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Além da já esperada aglomeração em plena pandemia de Covid-19, a eleição para a Mesa Diretora da Câmara teve bate-boca entre os grupos aliados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e ao deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que encerra nesta segunda-feira (1º) seu mandato de presidente da Câmara, além de acusações de tapetão dos dois lados.
A votação, que não havia terminado até a conclusão desta edição, foi presencial a pedido dos aliados de Arthur Lira (PP-AL), nome de Bolsonaro, lotou corredores da Câmara, em um volume de pessoas que tornou inócuos quaisquer cuidados para conter a disseminação do novo coronavírus.
Lira e seus aliados também concederam inúmeras entrevistas ao longo do dia, provocando aglomerações de deputados, jornalistas e assessores.
No Senado, em que Rodrigo Pacheco (DEM-MG) foi eleito presidente, o rito para a votação foi o mesmo dos outros anos, com os senadores sendo chamados um a um, por ordem da data de fundação do estado e a idade dos senadores –primeiro os mais velhos.
No entanto, parte das urnas foi colocada fora do plenário, para evitar aglomeração. Uma delas, por exemplo, foi colocada na chapelaria –a entrada subterrânea do Congresso– para que parlamentares do grupo de risco não precisem entrar no prédio.
O presidente em final de mandato Davi Alcolumbre (DEM-AP) afirmou que 16 senadores votariam nesse local, no formato drive-thru. Os parlamentares chegavam em seus veículos, preenchiam e depositavam a cédula, saindo em seguida, sem entrar no plenário.
A eleição também não teve três votos de parlamentares. Dois senadores justificaram a ausência por conta de problemas de saúde: Jaques Wagner (PT-BA) e Jarbas Vasconcelos (MDB-PE).
Além disso, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) está licenciado de seu mandato, após ser flagrado com dinheiro em sua cueca.
Baqueada pelas baixas sofridas nos últimos dias, em especial a do DEM, partido de Maia, a campanha de Baleia Rossi (MDB-SP), candidato do atual presidente da Câmara, passou a maior parte do dia sem se manifestar. Mais que isso: o presidente do MDB não deu as caras na Casa até o início da noite.
O grupo do candidato de Maia quase sofreu mais desidratações. As bancadas do PSDB e do Solidariedade chegaram a fazer listas para aderir ao bloco de Lira, mas dirigentes desses partidos, a pedido de Maia, fizeram uma ofensiva final e conseguiram mantê-los no bloco de Baleia.
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disparou telefonemas para deputados da bancada e lembrou que a candidatura presidencial do partido em 2022 pode ser prejudicada caso a legenda apoiasse o nome de Bolsonaro.
O discurso também foi adotado pelo presidente nacional do Solidariedade, Paulinho da Força, que havia prometido o apoio da sigla a Maia.
Além disso, a campanha de Baleia protagonizou uma confusão no registro de blocos. A Mesa Diretora e a Secretaria-Geral da Mesa haviam acertado que a formalização da adesão dos partidos a cada grupo deveria ocorrer até meio-dia.
O tamanho do bloco partidário é relevante porque define a ordem de prioridade de cada partido na escolha de cargos na Mesa Diretora e nas comissões. O PT, aliado de Maia, afirmou ter enfrentado dificuldade para registrar a adesão, que ocorreu só às 12h06.
Individualmente, todas as outras legendas da base de Baleia já haviam protocolado seus pedidos de adesão ao bloco. Mas, por causa do atraso do PT, o grupo de Baleia só pediu a homologação do bloco às 13h35.
Maia, em reunião no colégio de líderes, decidiu aceitar o pedido do PT, provocando um bate-boca com Lira e seus aliados. Marcos Pereira (Republicanos-SP), vice-presidente da Câmara neste último mandato de Maia, deixou o encontro colérico.
“O que o presidente Rodrigo [Maia] está fazendo é um achaque à democracia brasileira. Ele acabou de ser total e completamente parcial na decisão, tanto que ele diz ‘nosso bloco, nós vamos escolher'”, afirmou.
A ideia de judicializar a decisão e levar ao STF (Supremo Tribunal Federal) foi cogitada pelo grupo, mas abandonada menos de uma hora depois.
“O deputado Marcos Pereira, em um ato de muita dignidade, representa o sentimento de todos nós para que não compliquemos uma eleição que está ganha, que não pode ser tumultuada na truculência nem na violência”, disse Lira.
Já o deputado José Guimarães (PT-CE) afirmou que o partido tentou cadastrar a adesão no sistema, sem sucesso. “Nós tentamos até 11h59. O secretário da Mesa recebeu a mensagem”, disse. “Eles querem ganhar no tapetão”, afirmou. Depois disso, os congressistas decidiram as vagas na Mesa Diretora.
Pela definição dos blocos, o PL ficaria com a primeira-vice-presidência, com o deputado Marcelo Ramos (PL-AM). A segunda-vice-presidência ficaria com André de Paula (PSD-PE).
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Eleição na pandemia teve lentidão no Senado e aglomeração na Câmara
