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Brasil cogita sair do Mercosul caso Argentina rejeite abertura ampla

A estratégia, revelada por representantes dos países, será uma saída drástica para levar adiante o plano de Paulo Guedes de promover a abertura da economia

| FOLHAPRESS

 

Paulo Guedes quer promover a abertura da economia mesmo sem o Mercosul (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Brasil cogita deixar o Mercosul caso a Argentina não concorde com a redução de alíquotas de importação a serem praticadas pelo bloco dentro de quatro anos. Uruguai e Paraguai já fecharam com o Brasil em 80% dos mais de 10 mil itens negociados.  

A estratégia, revelada por representantes dos países, será uma saída drástica para que o Brasil possa levar adiante o plano do ministro da Economia, Paulo Guedes, de promover a abertura da economia e o aumento da produtividade. A saída do bloco geraria um novo impasse em relação ao acordo de livre-comércio com a União Europeia.  

O governo já faz consultas para saber se o tratado valeria para o Brasil mesmo fora do Mercosul. A reportagem teve acesso à última proposta tarifária discutida entre os países, revelada pelo jornal Valor Econômico. Por ela, a indústria será a mais afetada, com redução média do imposto de importação para o setor de 13,6% para 6,4%. Em cada dez itens, seis teriam descontos superiores a 50%.  

Na média, a TEC (Tarifa Externa Comum, imposto de importação cobrado sobre bens de outros países para entrar nos territórios de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) ficaria em 6,8%, com uma redução de 40%. Veículos de passeio passariam dos atuais 35% para 12%. Na cadeia do aço, a tarifa média cairia de 10,4% para 3,7%. Laminados planos, insumo da produção de veículos, seriam taxados a 4% em vez de 14%. Alguns tipos de plástico teriam corte de 12% para 8%. Na indústria que fornece o insumo (polipropileno), a queda seria de 14% para 4%.  

Se ele for implementado, o setor têxtil nacional, por exemplo, poderá ter tarifas equivalentes às do Canadá. As alíquotas de adubos e fertilizantes estariam niveladas com a dos EUA e até menores que as da União Europeia. Além de questionar a metodologia, a Argentina nem sequer enviou sua proposta para os itens em discussão. Representantes de Brasil, Uruguai e Paraguai dizem acreditar que a Argentina deve travar o acordo caso a chapa de Alberto Fernández e da ex-presidente Cristina Kirchner vença as eleições presidenciais. Eles são protecionistas.  

A redução precisa do aval dos quatro países-membro. Neste caso, Guedes teria de "virar a mesa do bloco", nas palavras de um negociador, e convencer Jair Bolsonaro a abandonar o Mercosul. Essa situação será discutida na próxima reunião do Mercosul, em dezembro, no Rio Grande do Sul. No governo, a abertura comercial enfrenta resistência. O secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, Marcos Troyjo, defende uma transição escalonada das alíquotas.  

Para ele, setores da economia, particularmente a indústria, podem ser engolidos por produtos mais competitivos, principalmente da China. Por outro lado, defende o governo, a abertura facilitaria a entrada de insumos. O tamanho da redução das tarifas e a velocidade dos cortes sugeridos pelo governo desagradam representantes do setor produtivo. Para a CNI (Confederação Nacional da Indústria), um corte de 50% na tarifa reduzirá o PIB (Produto Interno Bruto) de pelo menos 10 dos 23 setores industriais até 2022. O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Carlos Moraes, afirma que o ritmo de abertura sugerido pelo governo é apressado. "Precisamos da abertura e a defendemos, mas de forma gradual. A redução unilateral, apressada e sem essa redução do custo Brasil, pode ser danosa para o país", afirma.

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