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Dárcy Vera na fila do SUS. Justiça ou praga de madrinha?

Só os acontecimentos da última semana revelam que o destino e a Justiça têm sido implacáveis com a ex-prefeita: uma condenação de 18 anos de prisão, uma grave infecção de urina e a rejeição de atendimento médico pelo convênio

| ACidadeON/Ribeirao

Dárcy Vera está presa desde maio de 2017 (Foto: Renato Lopes / Especial - 02.out.2016)

 
Os dias não têm sido nada generosos com a ex-prefeita Dárcy Vera. Uns hão de dizer que a mulher condenada na semana passada a 18 anos e nove meses de prisão por pagamento ilegal de honorários advocatícios e associação criminosa só está colhendo a tempestade que plantou. Outros poderão achar que ela é vítima de alguma praga de madrinha ou até mesmo macumba de guru não ou mal remunerado.  

Claro, não é à toa que Dárcy está processada pela Justiça e já recebeu, ainda que não seja decisão definitiva, pena tão pesada.   

Retrospectiva 

Nascida na pequena cidade de Indiaporã, na região de São José do Rio Preto, cresceu predestinada a mudar o curso da história da família de origem pobre. Nunca foi de choramingar pelos cantos.  

Ávida por uma vida melhor, agarrou com unhas e dentes cada oportunidade que bateu-lhe à porta e pelejou com todas as forças para realizar planos e sonhos.  

Ainda quase criança, foi trabalhar na colheita de algodão para ajudar em casa. Para conseguir estudar, se mudou ainda adolescente para Rio Preto e foi trabalhar como doméstica na casa do dono de uma rede de loja de calçados em Rio Preto, onde fez o ensino médio.  

Falante e comunicativa, não demorou para o patrão descobrir o talento da menina. Decidiu então contratá-la como vendedora em uma de suas lojas.  

- Naquela época, eu era a funcionária que mais vendia na loja-, me disse Dárcy certa vez durante uma de nossas várias conversas.  

Pelo patrão, Dárcy ficaria ali, com sua conversa fácil, fisgando clientes e lhe rendendo lucro. Mas a então adolescente queria mais da vida. Mudou-se para Ribeirão Peto para realizar o sonho de cursar jornalismo.  

Aqui, vendeu panelas de porta em porta para pagar o curso na Unaerp, onde estudou ao lado de futuros grandes jornalistas, como a renomada Claudia Collucci, repórter premiada da Folha de S. Paulo.  

Tornou-se produtora de TV e locutora de rádio, onde tomou gosto pela política e desejo de batalhar pelos direitos do povo. Ingressou de fato na carreira política em 1992, quando, disputou sua primeira eleição e ficou como suplente na Câmara Municipal. Em 1995 acabou assumindo uma cadeira no Legislativo após a cassação de Fernando Chiarelli.  
 

Dárcy Vera já foi condenada a 5 anos de prisão por desvio de verba da Stock Car

Carismática e com oratória convincente, conquistou, com a ajuda do rádio, a confiança do ribeirão-pretano que a elegeria por mais três mandatos como vereadora, um como deputada estadual pleito em que bateria o recorde como a mulher mais votada do País.  

Em 2008 chegou ao ápice de sua carreira política, sendo eleita no primeiro turno, com 154.793 votos, a primeira prefeita mulher de Ribeirão Preto.  

Nada modesta, gabava-se de ser pioneira deste (grande) feito. Com mão de ferro e ares de Penélope Charmosa, com sua preferência pelos trajes cor-de-rosa, atraiu holofotes, ganhou destaque em jornais e revistas nacionais, e virou ídolo das donas de casa nos bairros e comunidades de Ribeirão Preto.  

Dárcy sabia ganhar o povo. Como o veterano Paulo Maluf, chamava as pessoas pelo nome e não tinha preguiça de dar-lhes um minuto de sua atenção, o que as faziam sentir-se importantes.  

Na mesma proporção em que era doce e gentil com os eleitores, era enérgica e rigorosa com seus comandados. Contrariada, no entanto, reagia aos berros. Quando insatisfeita com alguma reportagem noticiada pela imprensa, não tinha o mínimo de constrangimento de ligar para o chefe da redação para tirar satisfação e querer impor sua interpretação e visão dos fatos.  

Quem acompanhou a trajetória de Dárcy e a viu no apogeu de seu primeiro mandato, chegada à ex-presidente Dilma Rousseff, jamais imaginaria que a pobre menina de Indiaporã viesse a protagonizar, conforme denúncia do Ministério Público, o maior escândalo de corrupção no poder público já visto na história da cidade. Escândalo este que até hoje ganha novos capítulos.  

A derrocada que faria a rainha Dárcy Vera ser escorraçada do Palácio Rio Branco pela Justiça, sem direito a pôr os pés em qualquer prédio público, começou quase que por acaso, durante a investigação de uma suspeita de fraude em licitação na aquisição de catracas escolares.  

Ao puxar o fio do novelo. O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) desvendou um esquema criminoso de compra de apoio político. Em troca de voto para seus projetos, Dárcy ofereceria a vereadores cargos na administração por meio da Atmosphera, uma empresa prestadora de serviços terceirizados.  

Pouco mais além, os promotores descobririam também acidentalmente que Dárcy e seu braço-direito, Marco Antônio dos Santos, recebiam propina para liberar mediante fraude o pagamento de R$ 45 milhões de honorários advocatícios à ex-advogada do Sindicato dos Servidores Zuely Librandi.  

Sem a sorte de alguns empresários e políticos de Brasília que só conheceram o cárcere após o julgamento de seus crimes, Dárcy foi presa preventivamente, no dia 2 de dezembro de 2016, na Operação Mamãe Noel, segunda fase da Sevandija.  

Mas, 12 dias depois seria solta por um habeas corpus, em caráter liminar, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que levou em consideração o estado de saúde frágil da então prefeita que, ao ser presa, foi afastada do cargo e proibida de pisar em prédio público, além de ter tido todos os bens móveis e imóveis e contas bancárias bloqueados pela Justiça.  

Para decepção dos que apostavam que toda a condenação de Dárcy se resumiria a aqueles 12 dias atrás das grades, cinco meses depois, no dia 17 de maio de 2017, a ex-prefeita voltaria a ser presa por decisão da mesma corte que a soltou em dezembro de 2016. Dessa vez, por 4 votos a 1, o STJ decidiu que ela deveria responder ao processo presa.  

No desejo de retomar a liberdade, mesmo apelando para a saúde frágil e até com a alegação de que corria risco de morte se permanecesse sem assistência adequada uma vez que a oferecida no presídio não tem extinguido sua infecção urinária, colecionou mais de uma dezena de derrotas nos tribunais.  

Até que, na semana passada, recebeu seu primeiro veredicto da Operação Sevandija: 18 anos e 9 meses de prisão. Para a defesa, pena injusta. Para o MP, pena branda pela série de crimes cometidos. Os dois vão recorrer da sentença.  
 

Presa: Ex-prefeita de Ribeirão Preto está presa desde maio de 2017 (foto: Weber Sian / A Cidade - 19.mai.2017)

O peso da condenação teve reflexo imediato na saúde de Dárcy, que precisou ser levada às pressas para uma clínica particular de Taubaté em razão de uma grave infecção.

Por ironia do destino ou quiçá a força dos maus agouros dos ribeirão-pretanos indignados, o hospital particular rejeitou o convênio da ex-prefeita e ela foi parar na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Taubaté para ser atendida na rede pública.

Lá, para satisfação e deleite da torcida contrária, experimentou o que é precisar de uma internação pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e ter de esperar horas e dias por uma vaga em hospital público e não conseguir.

Na manhã de ontem, antes mesmo de dar entrada no Hospital Regional de Taubaté, recebeu alta médica e retornou à Penitenciária Feminina de Tremembé, cidade vizinha a Taubaté, onde está presa. De acordo com a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), "a paciente teve boa resposta ao tratamento oferecido durante sua permanência na unidade".

O que mais se se lê nas redes sociais e se ouve na roda de conversa é que Dárcy só está colhendo o que plantou. É inegável que, desde que foi presa, em 2 de dezembro de 2016, Dárcy está comendo o pão que o Diabo amassou e cuspiu em cima.

Só os acontecimentos da última semana revelam que o destino e a Justiça têm sido implacáveis com a ex-prefeita: uma condenação de 18 anos de prisão, uma grave infecção de urina (quem já teve sabe a dor insuportável que essa doença causa) e a rejeição de atendimento médico pelo convênio juntos.

Mas a questão é: teria a sagaz, corajosa, batalhadora Dárcy Vera ido com muita sede ao pote e deixado que a ambição destruísse num lampejo tudo o que construiu durante uma vida?