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Justiça Federal sequestra R$ 100 milhões em bens de megatraficante de Ribeirão Preto

Entre os bens que Mário Sérgio Machado Nunes, 'ex-sócio' de Pablo Escobar, perdeu está o Hotel Ideali, localizado no Jardim Nova Aliança, na zona Sul da cidade

| ACidadeON/Ribeirao


Mário Sérgio foi preso em setembro de 2015 num condomínio de luxo no Guarujá usando identidade falsa no nome de Rogério Carvalho Braga (Divulgação: Polícia Civil)
O TRF 1 (Tribunal Regional Federal da Primeira Região) confirmou o sequestro de R$ 100 milhões em bens e valores do megatraficante Mário Sérgio Machado Nunes, que viveu por quatro décadas em Ribeirão Preto como um discreto contabilista e bem-sucedido empresário. Entre os bens perdidos estão apartamentos e um hotel na zona Sul de Ribeirão Preto, além de fazendas, casas e empresas espalhados pelos estados de Mato Grosso e Goiás.  

Em Ribeirão Preto, o traficante perdeu apartamentos, no Jardim Botânico,  área nobre da cidade - e o Hotel Ideali, instalado no Jardim Nova Aliança, que estaria em nome de uma filha.  

A mesma decisão elevou a pena dele de 7 anos e 4 meses de prisão para 12 anos de reclusão mais o pagamento de R$ 1,4 milhão referente a 1.493 dias-multa pelo crime de associação para o tráfico transnacional. No acórdão, o desembargador federal Marcelo Albernaz estabeleceu o valor de 2 salários mínimos para cada dia-multa. Por outro lado, o magistrado o absolveu da condenação de 9 anos de prisão pelo crime de tráfico transnacional.  

De acordo com o acórdão do desembargador, publicado no último dia 5 de julho, o patrimônio da família Nunes é incompatível com a renda declarada por Mário Sérgio.. "Resta incontroverso (sic) a origem espúria dos recursos herdados (sic) ao patrimônio, sem qualquer respaldo financeiro a justificar a progressiva acumulação, assim como a utilização de dispersão e escrituração de bens em nomes de terceiros ("laranjas"), a fim de ocultar bens e torna-los a salvo da ação policial e judicial", registra o acórdão.   
 
No documento, o desembargador reproduz a reportagem "Um ex-sócio de Pablo Escobar em Ribeirão Preto", publicada pelo jornal A Cidade, que contou a trajetória do traficante baseada nas revelações do livro "Cocaína - A Rota Caipira".

Em entrevista exclusiva ao A Cidade, em maio do ano passado, a filho negou que os recursos investidos no empreendimento fosse de origem ilícita. O empreendimento foi bloqueado pela Justiça desde maio de 2014, dois meses depois de inaugurado e de estar em pleno funcionamento, como resultado de três anos de investigação da Operação Águas Profundas, comandada pelo delegado federal Bruno Gama, da Polícia Federal de Goiás.     

Pelo histórico cinematográfico de Mário Sérgio, a pena imposta pela Justiça foi leve. Investigações da DEA e da Polícia Federal apuraram que para multiplicar o despejo da cocaína na Europa e na Ásia, o traficante chegou a pagar US$ 20 milhões pela construção de um  submarino que nunca lhe foi entregue. Mas era sobretudo, um capo esperto. Nunca punha a mão na droga e só falava sobre o assunto em celular por meio de códigos sofisticados. 

Mesmo condenado pela Justiça Federal do Maranhão, procurado pela Interpol pela fuga no Cabo Verde e com prisão preventiva decretada pela Justiça Federal de Goiás, Mário Sérgio só seria preso em setembro de 2015 na saída de um condomínio de luxo no Guarujá, onde vivia escondia sob o nome falso de Rogério Carvalho Braga. Só caiu porque foi descoberto por um desafeto que o entregou de bandeja para policiais civis do Denarc da Capital.   

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Mário Sério Nunes Machado era procurado pela Interpol (Foto: Divulgação Polícia Civil) 
 
Entenda o caso  

Mas quem é o megatraficante Mário Sérgio, que, aos 30 anos, assumiu o posto do ex-patrão no crime e que rapidamente alçou voo próprio ao ponto de ser um dos poucos homens no mundo a negociar a compra de cocaína diretamente do colombiano Pablo Escobar, no início dos anos 1990? Ninguém imaginava que, enquanto figurava na lista de investigados da DEA, departamento de narcóticos norte-americano, Mário Sérgio vivia em Ribeirão Preto, longe de qualquer suspeita, sob o manto de um fiel contabilista e empresário bem-sucedido.  

Por pelo menos quatro décadas, a cidade paulista foi o porto seguro do homem que, desde 1996 era procurado por ter fugido de uma prisão em Cabo Verde, na África. Ele conseguiu escapar da prisão na ilha africana 30 dias depois de ser preso em flagrante num descarregamento frustrado de 70 quilos de cocaína e corromper funcionários do governo africano .   

A história do capo do tráfico é uma das dissecadas no livro "Cocaína a rota caipira", do jornalista Allan de Abreu, lançado em maio de 2017 pela Editora Record.   

Com riqueza de detalhes pinçados de uma pilha de inquéritos e processos judiciais e num texto literário dinâmico, digno de roteiro de um bom filme de ação, Abreu retrata a eletrizante epopeia do traficante que conseguiu o inédito feito de atuar no tráfico internacional por pelo menos três décadas longe da balança da Justiça brasileira.   

O homem que tem sido esquadrinhado pela DEA desde 1990, por sua forte atuação no mercado multinacional de drogas, até ser preso com documento falso num condomínio de luxo no Guarujá em 17 de setembro de 2015, não respondia a nenhum processo criminal no Estado, mesmo tendo utilizado o Porto de Santos e o Aeroporto de Internacional de Guarulhos para escoar, por anos a fio, toneladas e toneladas de cocaína para a Ásia, África e Europa. 

Sua primeira condenação criminal no País foi há 4 anos, no Maranhão. Mário Sérgio, segundo o delegado Alberto Pereira Matheus, do Denarc da Capital, entrou no crime no início dos anos 80 por intermédio de seu compadre e ex-patrão, Gilberto Yanes Cruz, um empresário e fazendeiro de Londrina, que se enveredou para o caminho do tráfico internacional.  

Em 1985, Mário Sérgio, segundo o livro "Cocaín", aparece pela primeira vez numa investigação da PF com a DEA que desvendou um megaesquema de tráfico que distribuía uma tonelada de cocaína por mês no Brasil comandado por Yanes e chefões do cartel de Medellín, na Colômbia.  

Em fevereiro de 85, uma semana antes de a Operação Eccentric ser deflagrada, Yanes morreu num acidente aéreo no Paraguai, quando trazia 600 quilos de cocaína para o Brasil.  

O próspero empresário de Ribeirão assumiria de vez o posto de patrão no arriscado, mas altamente lucrativo mercado internacional da cocaína.    

Mário Sério Nunes Machado foi preso com documento falso em nome nome de Rogério Carvalho Braga em setembro de 2015 (Foto: Divulgação Poícia Civil)
Negócio ilícito rendia US$ 5 milhões por semana 

 A atuação da quadrilha liderada por Mário Sérgio era tão intensa que seu faturamento bruto girava em torno de US$ 5 milhões por semana.   

Dinheiro que, segundo a DEA, estaria espalhado em contas de laranjas de várias partes do mundo como Dubai, Angola e Venezuela.  

O mercado da cocaína lhe rendeu um patrimônio avaliado em US$ 70 milhões, segundo estimativa da Polícia Federal. Para não acumular riqueza em seu nome e despertar a atenção da polícia, dissolveu todo o patrimônio em nome de parentes. 

 Só em 1998, entraria de vez no radar da PF, com a deflagração da Operação Tornado que resultou na apreensão de 141 quilos de cocaína em Biriticupu, numa fazenda do traficante Leonardo Dias Mendonça, no Maranhão. Na época, cinco pessoas foram presas e denunciaram que droga fora adquirida por Mário Sérgio pelo valor de US$ 230 mil.  

À época, a PF até tentou prendê-lo, mas ele conseguiu um habeas corpus que barrou sua prisão preventiva, mas não escapou do processo criminal.  

Só em 2014, após três anos de investigação da Operação Águas Profundas, a PF conseguiria, pela primeira vez, bloquear R$ 100 milhões em bens do empresário. A Justiça Federal decretou sua prisão e determinou a inclusão de seu nome no rol dos procurados da Interpol.  

O delegado federal Bruno Gama, da PF de Goiânia, responsável pela operação, atribuiu a dificuldade de incriminar Mário Sérgio ao fato de ele operar apenas por intermédio de terceiros. "É um homem que só agia e dava ordens por intermédio de um forte secretariado."  


A ascenção e queda de Mário Sérgio
 
10/07/1956 - Nasce Mário Sérgio Machado Nunes, em Olinda (PE)  

DÉCADA DE 70 - Muda-se para Ribeirão Preto  

INÍCIO DA DÉCADA DE 80 - Começa a trabalhar como contador para o fazendeiro Gilberto Yanes Cruz, homem que logo se tornaria seu compadre e um dos distribuidores de cocaína do cartel de Medellín, na Colômbia.  

FEVEREIRO DE 1985  - Gilberto Yanes morre na explosão de uma aeronave, quando transportava 600 quilos de cocaína para o Brasil. Há suspeitas de que a aeronave tenha sido sabotada. Mário Sérgio assume o lugar de Yanes no tráfico e passar a negociar cocaína direto com Pablo Escobar  

DEZEMBRO DE 1996 - Mário Sérgio é preso com 73 quilos de cocaína em Cabo Verde, África. Após 30 dias na prisão, corrompe funcionários do governo cabo-verdiano e foge do presídio pela porta da frente  

JANEIRO DE 1997 - Passa a trabalhar com o megatraficante Leonardo Dias Mendonça apontado como um dos maiores da América Latina  

1998 - É rastreado levando cocaína escondida em turbinas de aviões da Colômbia para os estados norte-americanos do Texas e Ohio.  

14 DE SETEMBRO DE 1999 - Polícia Federal apreende 141 quilos de cocaína numa das fazendas de Leonardo Dias Mendonça em Buriticupu, interior do Maranhão. Cinco pessoas foram presas e uma delas denuncia que a droga é de Mário Sérgio.  

2004 - Mário Sérgio passara a transportar cocaína da Colômbia para o Suriname a serviço de José María Corredor Ibagué, o Boyaco, um dos líderes das Farc, responsável por uma rede de transporte aéreoda cocaína colombiana até a Venezuela, Suriname, norte do Brasil e México.  

2007 - Guarda costeira espanhola flagra um navio com 1,1 tonelada de cocaína. Para a DEA, a droga era de Mário Sérgio.  

2010 - Investe US$ 20 milhões na construção frustrada de um submarino na África, em parceria com o colombiano Henry de Jesús López Londoño,  

2012 - Monta base na Cidade do Panamá, onde faz contato com empresas de transporte marítimo do mundo todo e com cartéis da Colômbia e do México  

2012 - Janeiro de 2012, começa a negociar com engenheiros colombianos a construção de um novo submarino. Dessa vez, avaliado em US$ 3,5 milhões.  

MAIO DE 2014 - Acusado de tráfico internacional e associação para o tráfico, tem prisão preventiva decretada pela Justiça Federal de Goiânia em decorrência da Operação Águas Profundas e R$ 100 milhões em bens bloqueados e desaparece do mapa  

SETEMBRO DE 2015 - É preso no morro na saída de um condomínio de luxo no morro do Sorocotuba, no Guarujá, com o nome falso de Rogério Carvalho Fava  

MAIO DE 2016 - É transferido da Penitenciária de Mirandópolis para Goiás e, depois, removido para o Presídio Federal de Mossoró (RN)

SETEMBRO DE 2016  - Juiz Alderico Rocha Santos, da 5ª Vara da Justiça Federal de Goiás, o condena a 7 anos e 4 meses de reclusão mais pagamento de  1.466 dias-multa pela função de chefe de associação criminosa para o tráfico transnacional de drogas e 9 anos e 11 meses pelo crime de tráfico transnacional de drogas, além de 1.550 dias-muta. Para cada dia multa o magistrado estabeleceu o valor de um salário mínimo. 

JUNHO DE 2018 - TRF 1 eleva a pena de associação para o tráfico de drogas para 12 anos de reclusão, eleva o pagamento para 1.593 dias-muta, além de duplicar o valor unitário da multa, mas o absolve do crime de tráfico de drogas. Na mesma decisão, decretou o sequestro de R$ 100 milhões em bens do traficante.  

 

Defesa afirma que processo é ilegal pois não deu chance à ampla defesa   

No recurso de apelação da condenação, os advogados reivindicaram a nulidade do processo, alegando que as provas oriundas das interceptações telemáticas feitas pela Polícia Federal são ilegais e que, somente recorrendo ao Ministério da Justiça canadense, em razão dos tratados internacionais de cooperação dos quais o Brasil é signatário, e não mediante a criação de um software pela Polícia Federal, poderia haver a decodificação das mensagens de texto enviadas pelo sistema BBM BlackBerry Messenger dos aparelhos BlackBerry BBM -, na medida em que os servidores de suporte desse sistema estão situados no país norte-americanos. 

Os advogados afirmam ainda que, somente a juntada da íntegra de todas as conversas interceptadas estaria de acordo com a ampla defesa, sendo manifestamente ilícitas as existentes nos autos, "resultantes de mais de 30 meses de ininterruptas interceptações." 

Ressaltam que "a simples interpretação pessoal desses "diálogos", com a exposição dos "comentários pessoais", não servem para sustentar a condenação, porque estão desacompanhados da prova material (materialidade) da existência de eventual delito e do seu dolo."