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Cotidiano

Luiz Puntel: Calcanhar de Aquiles

"Professor, é viável usar o calcanhar de Aquiles como repertório no Enem se cair um tema de redação sobre a pandemia?"

| ACidadeON/Ribeirao

Luiz Puntel (Foto: Arquivo Pessoal)

"Professor, é viável usar o calcanhar de Aquiles como repertório no Enem se cair um tema de redação sobre a pandemia?" - Dias desses, em aula on-line e ao vivo, um aluno me perguntou, de chofre. 

Explicando rapidão, o que o aluno estava em dúvida era sobre um detalhe da prova de redação do Enem. Os candidatos precisam trazer um "conhecimento de outra área" para embasar sua argumentação. Com isso, os alunos sabem que devem citar um filósofo, um livro, uma série televisiva, algo que demonstre que ele está antenado no mundo à volta. 

Por um lado, se a estratégia é louvável, por outra cria, nos alunos que não têm intimidade com o escrever e fazer relações, o que se chama de "falsa erudição". Do nada, lá no meio do texto aparece uma frase do tipo: "Quanto à violência contra a mulher, é preciso concordar com o que diz Sartre de o inferno ser os outros." Oi? 

Fica claro que o candidato ouviu, algum dia, falar de Sartre e da frase de um de seus personagens. Só que está descontextualizada, sem sentido. O examinador tomará a frase como "falsa erudição", ou seja, vai entender que o candidato quis mostrar uma erudição que ele não tem. 

Daí a dúvida do aluno sobre o calcanhar de Aquiles. Para testar o que ele sabia do herói mitológico grego, perguntei que calcanhar era aquele e quem era o tal do Aquiles. Era uma pergunta-termômetro, termo que acabo de inventar, para saber qual o grau das informações que ele tinha sobre Aquiles. E até brinquei: calçaria ele 36 ou 40? Todos entenderam a brincadeira, ele também, e logo em seguida perguntei como ele começaria a redação. 

O jovem, que é bão bão bão de texto, fez uma introdução ali, na batatolina, no gogó, na hora, de improviso que até me arrepio ao retransmitir o que ele disse, tal a firmeza dele em falar de improviso sobre a questão: 

"Aquiles, guerreiro grego que lutou na guerra de Troia, tinha seu corpo inviolável por ter sido mergulhado, ainda bebê, em um rio milagroso. No entanto, ele tinha um ponto vulnerável: seu calcanhar. Assim como Aquiles, a questão da pandemia (...)" 

Em seguida, o aluno explicou que a vulnerabilidade do calcanhar era porque o sábio que mergulhara Aquiles bebê nas águas o segurara pelo calcanhar, evitando que a água molhasse aquele ponto, deixando-o desprotegido, vulnerável. 

Perguntado sobre a relação com a pandemia, o aluno foi feliz em demonstrar criticidade, enumerando as mazelas dos calcanhares da pandemia, ou seja, o que fez com que nos tornássemos vice-campeões de óbitos: negacionismo, visão ideológica, informações equivocadas, passeios sem máscara, decisões da suprema corte, troca de ministros, abertura da economia versus colapso da saúde, hospitais lotados, fake news, culpa dos chineses, misticismo em oposição à ciência, discussão inócua sobre distanciamento vertical e distanciamento horizontal, falta de equipamentos, corrupção governamental, entre tantos outros "calcanhares", ou seja, vulnerabilidades. 

Façam suas escolhas, leitores, escolhendo uma das mazelas para embarcarmos nos desencontros pandêmicos de não fechar as portas de Troia e aceitar um cavalo que nos chegou como um presente de grego! 
 
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Puntel, indo assistir Troia, em que Aquiles é estrelado por Brad Pitty, que calça sapato número 40.


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