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Cotidiano

Fernando Kassab: O anjo e a Singer

Da Nova Caledônia ao Canadá, pessoas e entidades nos fazem acreditar naquilo que os seres humanos têm de melhor e mais bonito

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab

Há exatos seis meses, assim que foi publicada, no Brasil, a notícia da primeira morte em consequência da covid-19, começaram a surgir em todo o país ondas de solidariedade e apoio aos mais necessitados. Também surgiram, em escala mundial, os superfaturamentos dos respiradores, as falsas campanhas de ajuda ao próximo e o escárnio diante das evidências gigantes de que não se tratava de um surto passageiro, três sintomas horrorosos da falta de empatia. No Brasil, com o conhecido desprezo pelos mais humildes e diante do terrível histórico do "deixa-queimar-para-ver-onde-vai-dar", tais sintomas já nasceram na UTI. 

Nossa sorte é que, de formiguinha em formiguinha, fazemos um todo que até pode não descobrir e denunciar todos os malfeitos (via imprensa séria, como sempre), ou dar auxílio e amparo a todos (pessoas comuns e autoridades comprometidas com o bem-estar geral), mas que está presente e atuante diante de dois inimigos: um que todos sabem que existe (o coronavirus), e outro, sempre cínico e aviltante, que vive da exploração e da boa-fé alheia. 

Entre os que fazem bonito, no país e no mundo, surgem exemplos que são de uma inteireza, de uma doação de tempo e empenho e, principalmente, de um senso de urgência amorosa ao próximo que encantam. Da Nova Caledônia ao Canadá, pessoas e entidades nos fazem acreditar naquilo que os seres humanos têm de melhor e mais bonito, diante de um cenário de crise e de falta de recursos. 

Crianças órfãs de Maputo, por exemplo, não conhecem o rosto do anjo que costura roupas para elas. São vestidos para as meninas, calções para os meninos, e outras peças de vestuário feitas com tecidos que, não fosse o projeto (que ela sequer chama de projeto, mas que é, sim, um grande e valoroso projeto) talvez fossem para o lixo, mas que vestem os pequenos de Moçambique que são assistidos por entidades do país africano. 

O anjo também nunca viu as crianças vestindo os seus modelos: a lei protege os menores e não permite que eles sejam fotografados, nem mesmo do pescoço para baixo, o que seria suficiente para ver o resultado das "coleções" que têm peças com estampas geométricas e florais, arrematadas com detalhes que resultam em um trabalho que faria bonito nas vitrines mais estreladas do planeta. 

Maria Luisa Anjo, 85 anos, mora em Portugal e "descobriu" o seu dom para a costura há bem pouco tempo. Estudou até à "quarta classe", como se diz no país, adorava bordar desde pequena, mas foi trabalhar em um laticínio para ajudar a família. Casou-se aos 19, ficou viúva aos 34, criou os dois filhos sozinha, dirigindo um pequeno negócio que vendia de tudo, dentro da própria casa. Fala com saudades da vaca Estrela, que a ajudou no arado da horta que mantinha no quintal, mas que o marido trocou por uma máquina, aposentando o animal e agilizando o serviço. 

Aos 82, tomou duas decisões: começou a escrever um diário e tirou o pó da máquina de costura que pertenceu à sua mãe, uma Singer com um século de vida e funcionando perfeitamente, com a qual começou a fazer pequenos reparos, peças pequenas para a família e os amigos. Detalhe: Maria Luísa Anjo jamais havia usado uma máquina para costurar. De memória, continuou a bordar pequenas peças, para consumo próprio, ou para oferecer de presente. Quando precisava costurar, usava as mãos. 

Ela mantém o diário por perto, embora tenha deixado de escrever por acreditar que sua história já está bem contada, com as fotos de uma vida e as lembranças de quem enfrentou a vida de frente, sem desistir ou fazer atalhos. Foi o filho, que mora e trabalha em Moçambique, que, ao saber que a mãe estava usando a velha máquina, sugeriu que ela fizesse as roupas para as crianças. 

Com voz fina, Maria Luísa fala baixinho e, embora tenha perfeita noção da importância do que faz pelo próximo, sente mais orgulho de ter descoberto a costura em uma idade em que maioria das pessoas não quer fazer muita coisa. Também sente um orgulho enorme por defender como meio de evitar o desperdício, que ela considera "pecado". 

Com a sua centenária máquina funcionando a todo vapor, Maria Luísa, anjo no sobrenome e no andar da carruagem a que chamamos vida, ainda quer ver os rostos das crianças que usam as roupas que ela costura. Mas não tem pressa. Até mesmo porque, aos 85, tem espantosa e surpreendente energia para fazer outras coisas. Sem reclamar, sem fazer pouco, sem pedir favores. Vai que vai. Em frente, para cima e para o alto. Perguntada sobre onde tirou os moldes para começar a costurar, já que jamais frequentou um atelier, foi rápida na resposta: Ora, onde mais? Na internet!".

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