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Cotidiano

Fernando Kassab: Trinta dias depois

Foi em 4 de agosto que instalei o meu primeiro aplicativo para agilizar minha comunicação

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab

Foi em 4 de agosto que instalei o meu primeiro aplicativo para agilizar minha comunicação. Como se eu já não falasse e me relacionasse o suficiente com meio mundo, graças àquilo que faço: entrevistar pessoas, escrever na internet, falar na tv e em rádio. Contei aqui sobre a minha resistência, guarnecida de anos e anos de piadas, ranger de dentes, praga de madrinha e, o mais constante, a pergunta "em que mundo você vive?!", disparados pelos parentes, amigos, inimigos e afins. 

Nunca me senti excluído. Alguns, mais resignados do que bondosos, olhavam para mim com ar de pena, de dó, e incluíam uma mensagem positiva, mas com quatro negativas: "Sorte sua! Não sei como você consegue...É fundamental! Você vai contra o normal!", sendo que, no último caso, quase sempre, se tratava de gente bastante anormal que dava conselhos e/ou avisos e/ou praga. Vou ficar com a última opção.
Não que seja uma praga, daquelas de fazer dentes amolecerem, desaparecer o umbigo, chutar um paralelepípedo sem querer, comer em certos restaurantes e ainda pagar por isso e, por último, mas não menos importante, aguentar Tia Osvalda falar sobre sua viagem ao Quênia, em 1972. 

Para não complicar muito, fiz um balanço sobre um agosto quase inteiro e um pedacinho de setembro. No futuro, beeeeem no futuro, torço para que um dos meus descendentes resolva ler e fazer uma análise mais apurada. Sei lá, um filme, uma novela, uma música, uma redação no primário (que, acho, agora se chama básico). No calor da hora, vocês sabem, sempre podemos forçar um verbo, levar ao "paredón" sem justa causa e errar no palpite. A posteridade dirá; se ficar muda vou entender. 

Nem que seja num rodapé de página. Que eles, meus parentes queridos (é bom garantir adesão fácil ao projeto) e inteligentes (não custa um plus), me vejam não como o exótico da montanha, mas como o iluminado do bairro Botafogo. Se ficar no pisca-pisca já está bom. 


A análise, fria e desapegada: 

- Quem mais pedia para eu instalar o WhatsApp é quem menos fala, escreve ou se comunica. Um mistério inca, praticamente. 

- Em compensação, quem dava de ombros para a minha ignorância e desapego, não sai da linha (é linha que se diz?). Querem saber minha opinião ou ouvir meus conselhos. A coisa é ampla: de espinhela caída ao melhor caminho para Cambuquira. Dou sempre os mesmos conselhos, quase sempre ruins. Mas eles acreditam. 

- O grupo da família é a minha alegria. Embora as noites de futebol (qualquer futebol) sejam bem difíceis: média de 80 comentários. Às vezes eu dou um palpite. Sou ignorado por todos. 

- A quantidade de vídeos que todos mandam é inversamente proporcional ao valor e importância que eles de fato têm. Não dá nem para esquentar: depois dos elefantes assassinados, vêm as borboletas do lago, os anjos com mensagens em movimento (acho que o nome é gif. Também acho que não vou fazer um nunca), a receita do "melhor bolo de chocolate da História", assim mesmo com "H", e os memes da Gretchen (acho que sei o que é um meme. Também acho que não vou fazer um nunca). 

- Outro mistério, só que da cultura maia: quem mais fala em um encontro sem a praga, perdão, sem o celular, é quem mais manda emojis (que eu também sei o que é, mas nem pensar!!). Eles praticamente não mandam mensagem. Um coração pulsando já resolve a questão. Pessoalmente, contam a história do baú desconhecido do quarto milênio, com slides e duas horas de duração. Nem bebem água. 

- Crianças falando é o melhor do zap (intimíssimo!). Não que goste de áudios e sempre evitei até mesmo o telefonema de longa duração. Mas elas ficam hilárias quando sabem que serão ouvidas. Já os que gostam de contar uma fábula, o nascimento de uma espinha no nariz e a "experiência" de um restaurante, podiam trocar o áudio pelo texto. Ninguém vai ler, mas já é um começo. 

- Informado sobre a minha entrada triunfal no zap, o varredor da limpeza pública que cuida da minha rua, antes horrorizado diante da minha distância da tecnologia, passou para o lado de lá: "cansei, seu Kassab: é muita briga". Naquela noite, nem dormi: estaria em marcha um movimento contrário? Logo agora?! 

- A falta de pontuação é algo assombroso. Fico sempre esperando pelo fim. Já comecei com o maracujá. 

- A falta de senso pode e deve ser tratada. 

- A falta de noção não tem tratamento. Nem adianta internar. 

- Como o zap me deixou feliz e esperto como um pinto no lixo, faço a pergunta: como é que eu faço para livrar dele????? 

- rsrsrsrsrsrsrsrsrs que, agora sei, não é de Rio Grande do Sul. 

- kkkkkkkkkkkkkkk acho que é uma gargalhada. Está em análise.

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