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Cotidiano

Governo insiste em dar respostas simples para um problema complexo

Você já recebeu sua pulseirinha laranja para festejar 125 mil mortos pela gripezinha?

| ACidadeON/Ribeirao

Rodrigo Stabeli, pesquisador titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCAR e consultor da OPAS/OMS
Hoje serei breve em minhas palavras para refletir um termo técnico em epidemiologia chamado de desgaste. Talvez eu esteja desgastado como você no enfrentamento dessa pandemia. Faço parte de um time recrutado pelo Centro de Vigilância, Preparação e Resposta a Emergências e Desastres da Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e estou olhando a pandemia de perto pelo Brasil. E, na linha de frente, não vemos somente a Covid-19. Encontramos toda a pobreza e miséria escondida nos sertões nordestinos; pessoas jogadas nas calçadas em frente a única agência da Caixa Econômica Federal de municípios que possuem, essencialmente, comunidades sertanejas à espera do tão sonhado mísero auxílio emergencial do governo que nunca chega; vemos a indiferença e falta de empatia que a pandemia despertou em muitas pessoas.  

O desgaste psicológico que sofremos também é responsável por nos tornarmos mais duros, mais irritados e mais polarizados, em um país que esconde o próprio rabo quando nega a gravidade do que estamos vivemos. O governo insiste em dar respostas simples para um problema complexo e com isso somos pegos naturalmente tentando acreditar que a nossa rotina está normal. Veja, a maioria dos sintomas que a Covid-19 apresenta são considerados leves para grande parte da população, é verdade. Isso faz com que você não se preocupe como antes e saia andando por aí, sem proteção, sem manter o distanciamento físico e tal. Afinal, tem gente que prega isso para você o tempo todo.  

Porém, esses sintomas leves para você, podem ser mortais para as pessoas que eventualmente contraírem o vírus de você. Agora, se isso não o impacta de alguma forma, desculpe-me, mas você está precisando de terapia. Chico Buarque classificou essa síndrome como a síndrome "dos idiotas do Leblon". Acho um termo pesado, porém instrutivo, pois ilustra bem o que quero dizer sobre o desgaste epidemiológico. 

Quando temos uma população desgastada pelo tempo da pandemia, desgastada pela economia que vai de mal a pior, desgastada pela falta de auxílios aos pequenos e microempresários que nunca chegam, o efeito direto é de se acostumar com os sintomas, ou até mesmo perder o medo da gravidade do problema. Isso faz com que quem tenha sintomas leves, não procure mais o atendimento de saúde. E, assim, os números de casos notificados caem. Mas, aqueles que resistem em casa até quase a beira da morte, procurarão o serviço de saúde direto para a internação. Esse fenômeno é observado em Ribeirão e região e por isso, o número de leitos de nossa região nunca variou. Sempre esteve em alta. Como o dólar.  

Mas se número de infectados cai, a política se beneficia dizendo que a epidemia "está em queda", o comercio abre, até antecipado, e parece que todo mundo ganha. Mas quando olhamos para os números relativos da pandemia, desde que ela chegou em nossa região, percebemos que ele só sobe. Sobe o número de infectados, sobe o número o número de internações em leitos de UTI, leitos de enfermaria e, o mais importante, o número de óbitos. E é aí que mora a informação. Cemitério não mente e, mais uma vez, uma família perdeu um ente querido. 

Ao se acostumar com os efeitos da pandemia, nós só percebemos o problema quando ele chega até nós. Seja pela internação de um parente, a morte de um amigo querido, ou a regressão para a fase laranja em Ribeirão Preto. 

Agora vai aparecer o rompante dos desesperados, o grito daqueles que irão dizer que o poder público não está cuidando de nossa região. Mas será que você está fazendo a sua parte? Ou está dando crédito às oportunistas falas antivacinas do líder da nação? Falas desse mesmo que, em momento oportuno de populismo, investiu bilhões de dólares na própria, vacinação... e ainda bem! É fato que o poder público, quando sinaliza "tá aberto o shopping de domingo a domingo" está dizendo a você que está tudo bem, que você pode frequentar esses estabelecimentos, pode sair da sua casa, mesmo que esse mesmo poder público passe a mensagem que devemos sair apenas para o necessário. Esquizofrenia não? Uma reflexão importante é: Fazer apenas o necessário por tanto tempo é interessante para a economia? Você tem comprado e frequentado os ambientes como fazia em setembro passado, por exemplo? Então, mesmo que você esteja me chamando de "esquerdalha", você deve ter percebido que a ciência mostrou os países que fizeram medidas restritivas corretas já estão retomando as atividades econômicas, retomando de verdade. E nós, brasileiros, continuamos correndo atrás de nosso próprio rabo. Ou dando um tiro no próprio pé. O que é bem pior né? 

Com tudo isso, será que iremos nos acostumar com mais de 10 mil mortes semanais no país? Essa semana que passou começamos a observar novamente um aumento do número de óbitos em nossa região. Será que não está na hora de você se mobilizar, dar um basta e pedir para que seja feita a coisa certa? Temos que abrir o comércio sim, mas abri-lo para uma população saudável e sem medo de sair às ruas. Vamos com calma, vamos devagar. Enquanto o desespero bater pelo desgaste que já sofremos, iremos sempre pegar nossa pulseira laranja ou vermelha para celebrarmos as mortes pela Covid-19 e pela economia na nossa região. Você nem é obrigado a concordar comigo, obviamente! Mas não seja burro, vacine-se e acredite na ciência. Porque senão, nessa rave da Covid-19, todos teremos nossa pulseirinha vermelha...



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