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Cotidiano

Seis meses na quarentena: sejamos fortes como bambu

Vermelho para o laranja, do laranja para o amarelo, de volta ao laranja. Não sei você, mas tenho esperado ansiosamente ver o mapa do Brasil completamente verde

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Estive, recentemente, passeando pela Serra da Mantiqueira em um lugar lindo, terra de Monteiro Lobato. Frequento a região desde que me conheço por gente e, como sempre, fiquei fascinada pelos enormes bambuzais. Para mim, eles compõem o cenário mais intrigante do Sítio do Pica Pau Amarelo e, até hoje, quando me deparo com um, me impressiono com o som e com a forma compostos pelo conjunto de bambus, que podem ser habitat, abrigo, alimento, utensílio e estrutura de construções. E, na companhia de Cucas, Emílias e Sacis, imaginei inúmeras possibilidades de histórias, fantásticas ou reais, que poderiam acontecer lá dentro. 

Meu momento de nostalgia e contemplação foi interrompido quando me lembrei de que estamos na Pandemia e pensando na flexibilidade do bambu, parti para uma reflexão sobre o esquema de flexibilização da quarentena. Pois é, tem horas que os horrores da nossa atual vida real estragam a nossa alegria. 
 

"Do vermelho para o laranja, do laranja para o amarelo, de volta ao laranja. Não sei você, mas tenho esperado ansiosamente ver o mapa do Brasil completamente verde, tão verde quanto um bambuzal". Passados seis meses imersos nessa loucura, já temos um pouco mais de liberdade para retomar parte das nossas atividades, certo? Mais ou menos, pois os critérios para mudarmos de uma fase de rígido isolamento para o convívio flexível não são muito claros. Colocar política, economia, saúde e ciência no mesmo caldeirão não tem produzido um caldo nem claro, nem saboroso e muito menos digesto. 

No final das contas, sem saber exatamente o que fazer e a quem seguir, cada um deduz, meio que sozinho, se fará uma viagem para a praia ou meio do mato, se pode ou se deve convidar um, dez ou cem amigos para reuniões em casa, ir ao shopping e ao restaurante, voltar para o ambiente de trabalho, jogar futebol, passar o sabadão amontoado no bar, beijar na boca, abraçar o amigo, compartilhar o copo. Tudo na base do "cada qual com seu cada qual". 

A palavra flexível, como várias outras da nossa língua, é tão ampla e tão cheia de sentidos, que fez meus pensamentos irem ao infinito e além. No Aurélio, significa: "1. Que se pode dobrar ou curvar. 2. Elástico. 3. Fácil de manejar, maleável. 4. Dócil, submisso". Todas essas definições podem ser vistas de maneira negativa ou positiva. Posso me curvar e ser manipulada docilmente, o que é ruim, ou me dobro como uma contorcionista, me moldando às necessidades de cada momento, o que é bom. Reconhecer a diferença entre ser frouxo e maleável não é nada fácil. 

Ao pensarmos no corpo, flexibilidade indica o poder de alongamento dos tendões. Em qualquer prática esportiva buscamos aumentá-la, mas uma amplitude excessiva ou uma frouxidão ligamentar, podem indicar lesões ou um problema chamado síndrome da hipermobilidade articular. Já na física, ser flexível refere-se ao limite da elasticidade de um material, característica esperada de acordo com a situação. E, na Pandemia, flexibilização é o afrouxamento das restrições relativas ao isolamento. Bom e necessário por um lado, complicado e perigoso por outro. 

Um dos principais componentes da saúde mental é a flexibilidade psicológica. O processo é análogo à fisioterapia. Da mesma maneira que meus ligamentos podem ficar mais flexíveis com o treino, nosso comportamento também pode. Ser mentalmente flexível significa ter um conjunto de habilidades composto por enfrentamento, aceitação, resistência, resolução de problemas, reconhecimento de sentimentos e consciência dos seus valores. Meta para toda uma vida ou, no mínimo, para um profundo processo terapêutico. Alcançar isso é tudo de bom, totalmente desejável, segredo do sucesso, já que a superioridade da flexibilidade em relação à rigidez é um consenso. 

O provérbio chinês "seja como o bambu, incline-se diante do vento, mas nunca se quebre" nos ajuda a visualizar o sentido do termo, além de ser uma ótima metáfora para a nossa existência. Para o bambu chegar ao ponto de conseguir envergar-se sem partir, viveu por muitos anos embaixo da terra, nutrindo-se e desenvolvendo uma forte raiz, que é a base de sustentação de suas elásticas hastes. 

Ser como o bambu significa ser versátil, saber se adaptar, ser forte e ter jogo de cintura diante das ventanias da vida. E que vendaval passar por uma Pandemia, não é mesmo?

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