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Cotidiano

Inflação no Brasil: O dragão voltou?

Antes de 'culpar alguém', precisamos entender o motivo de termos a sensação de tudo estar mais caro, mas não aparecer na inflação

| ACidadeON/Ribeirao

Eliseu Hernandez D'Oliveira, assessor de investimento da BlueTrade (Foto: Weber Sian / ACidade ON

Nós brasileiros temos medo até da água fria, pois já fomos escaldados. E não precisa ser gato para entender esse ditado, basta olhar para trás e ver que já vivemos um período de inflação de mais de 100% ao ano e não desejamos voltar para esse ambiente de caos.

O assunto da semana foi o preço do arroz e a inflação de atacado medido pelo IGP (Índice Geral de Preços) da FGV (Fundação Getúlio Vargas). O preço do pacote de 5kg do cereal chegou a R$ 40 e o IGP-DI acumulou 11% no ano de 2020. Porém quando olhamos para o IPCA, que é o índice oficial de inflação, percebemos que este ainda está bem controlado e que não reflete de maneira alguma aquilo que vemos nas nossas compras do dia a dia.

Antes de culpar os supermercados ou acusar o IBGE de estar manipulando as informações, precisamos entender o motivo de termos a sensação de tudo estar mais caro, mas não aparecer na inflação. Para isso precisamos compreender como funciona um índice de inflação e qual a diferença entre IPC-A e IGP-DI (ou IGP-M).

O primeiro ponto é que o nosso padrão de consumo junto com o do mundo todo mudou durante a pandemia (explicado neste artigo, em inglês). Estamos consumindo mais alimento e menos transporte e vestuário. Como o mundo todo está consumindo mais alimento, existe um excesso de demanda fazendo com que os preços subam inclusive no Brasil. Logo a inflação daquilo que estamos de fato comprando é diferente da inflação medida pelo IPCA.

O que nos leva ao segundo ponto. Um índice de preço mede a variação média de uma cesta de bens. No caso do indicador do IBGE são nove grupos e cada grupo com um peso diferente, conforme a tabela abaixo.
 

Perceba que o grupo que teve a maior alta é justamente o de Alimentação (+4,91%) com peso de 20% e os que tiveram a maior baixa foram Transportes (-3,46%) com peso de 19,6% e Vestuário (-3,21%) com peso de 4,4%. Quando fazemos a média ponderada de todos os grupos chegamos na inflação anual de apenas 0,70%. Isso quer dizer que estamos consumindo mais daquilo que mais subiu e menos daquilo que ficou mais barato. Sentimos isso nas prateleiras dos supermercados.

Para finalizar, o IGP é formado por três subíndices. O IPA (Índice de Preços por Atacado), o IPC (Índice de Preço ao Consumidor) e o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção). Cada um desses possui seus respectivos grupos. O IPC é muito parecido com o IPCA e estão muito próximos na variação anual. O INCC está com uma variação de 3,67% no ano. Entretanto o IPA, que tem um peso de 60%, explodiu para 15,7% no ano. Como o IPA registra variações de preços de produtos nas transações entre empresas, essa alta não apareceu ainda no IPCA, a não ser no grupo de alimentação em que é mais fácil o repasse de custo para o preço final.

Não é trivial a discussão se de fato ocorrerá essa transmissão de custo para os outros grupos ou se é algo passageiro e pontual causado pelo isolamento social devido a pandemia do coronavírus. Porém como disse no início, temos medo do dragão que nos assombrou em nossa história recente. É preciso ficar de olho nas políticas adotadas pelo Banco Central e cobrar o controle fiscal dos nossos representantes (executivo, judiciário e legislativo) para que os preços fiquem controlados.

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