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Cotidiano

Precisamos ouvir e falar abertamente em suicídio

Quem está considerando essa possibilidade tem dificuldade em compartilhar seu desespero

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Como nem tudo na vida são flores, venho hoje falar sobre o suicídio, um tema imprescindível, porém indigesto, temeroso, que muitos evitam e que ninguém gosta muito de entrar em contato. Quem está considerando essa possibilidade tem dificuldade em compartilhar seu desespero, quem convive com alguém que está apresentando o risco não sabe como lidar e uma boa parte dos profissionais da área "psi" desconhece as estratégias de administração do problema. 

A Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina, com o objetivo de conscientizar a todos sobre a necessidade de debates e ações preventivas, criaram a campanha SETEMBRO AMARELO, na qual peguei uma carona no intuito de abrir uma conversa e convidá-los a refletir sobre o assunto. Vamos? 

Primeiro ponto importante: falar sobre suicídio não estimula o suicídio. Entretanto, é preciso abordar o fato de maneira adequada, já que, em alguns momentos, infelizmente, a vida imitou a arte. "Os sofrimentos do jovem Werther", livro clássico de Goethe (1774) e a série da Netflix, "13 reasons why" (2017), mesmo que separados por mais de 250 anos, possuem pontos em comum. Além de seus protagonistas se matarem, as histórias foram seguidas por uma onda de suicídios realizados por jovens que se identificaram com os personagens. Muito embora, nesses casos, o assunto tivesse que ser tratado com mais cuidado, seria muito simplista dizer que obras de ficção são responsáveis por um fenômeno tão complexo, multideterminado e de causa indefinida. 

E como ainda pouco sabemos, tendemos a estabelecer justificativas moralizantes, como fraqueza de caráter, covardia, impulsividade e busca por atenção. Mas o buraco é mais embaixo. São inúmeros os motivos que fazem com que alguém se desequilibre emocionalmente a ponto de não querer mais viver: eventos traumáticos; relações doentias e desajustadas; falta de assistência; ausência de repertório para resolver problemas e alterações neuroquímicas ocasionadas por transtornos psiquiátricos são alguns exemplos. 

Perder alguém por suicídio é uma experiência avassaladora e está contida em uma atmosfera de culpa, remorso, incompreensão e impotência. Não é raro ouvir de familiares e profissionais: Por que ninguém percebeu? Por que não foi possível evitar? Por que deixamos acontecer? São porquês que nunca mais poderão ser respondidos depois que a pessoa se foi. 

Desespero agudo e persistente, impossibilidade de conviver com a culpa por algum erro cometido, desistência, encerrar uma dor insuportável, abreviar um destino e impossibilidade de encontrar soluções são algumas explicações citadas em mensagens de despedida. Mas as justificativas, mesmo quando reveladas, nem sempre esclarecem os motivos, nem são suficientes para consolar quem ficou.
Há muitas instituições como a Psiquiatria, a Sociologia, a Psicologia, o Direito e a Religião preocupadas em estabelecer parâmetros para seu entendimento e controle. E não é para menos, pois segundo a OMS, a cada 40 segundos alguém acaba com a própria vida. Além disso, estamos falando sobre a segunda principal causa de morte entre jovens no mundo todo. 

A área vem sendo bastante estudada, principalmente por causa do aumento do número de ocorrências nos últimos anos. Aqui, no Brasil, destaco os trabalhos do psiquiatra e professor titular da Faculdade de Medicina da UNICAMP, Neury José Botega e seu livro "A crise suicida" (2015), uma ótima leitura com linguagem bastante acessível. Outra abordagem incrível é a do Major Diógenes Munhoz, do corpo de bombeiros. A partir de sua vasta experiência no resgate a tentantes (denominação dada às pessoas que estão tentando cometer um ato suicida), na cidade de São Paulo, ele criou um método de intervenção direta na crise. O procedimento tem salvado muitas vidas e vem sendo veiculado em cursos, cartilhas e palestras por todo o país, além de estar descrito em seu livro "Abordagem técnica a tentativas de suicídio" (2018). 

Tanto o doutor quanto o bombeiro são enfáticos ao afirmarem que o suicídio é um ato voluntário que faz parte de uma crise, ou seja, apesar de parecer uma ação de momento, se configura como o estágio final de um longo processo de extremo sofrimento emocional. Vale lembrar que a Depressão tem sido apontada como uma importante razão para a ocorrência dessa crise. Desse modo, nunca devemos subestimar a presença persistente de sintomas como: tristeza acentuada; perda significativa de interesse e prazer; aumento da irritabilidade; alterações de ânimo, disposição, fome, sono e libido; dificuldade de concentração e, principalmente, falas que indiquem desesperança e pensamentos ou intenção de morte. 

As campanhas preventivas nos ajudam a reconhecer o risco e a investir em fatores de proteção. De todas as ideias apresentadas no SETEMBRO AMARELO, elegi as que julgo mais importantes: 

1. Devemos ficar atentos a frases de alarme como "eu não aguento mais", "eu quero morrer", "eu quero sumir". 

2. Não podemos ignorar mudanças bruscas de comportamento.  

3. Precisamos ficar de olho quando alguém começa a se envolver constantemente em situações de perigo. Cometer atos extremos pode ser uma forma de comunicar que algo não anda bem e uma tentativa, mesmo que meio torta, de pedir socorro.  

4. Temos que dar uma atenção mais que especial aos jovens, já que nem tudo é impetuosidade, "aborrescência" ou "mimimi". Precisamos nos disponibilizar a ouvi-los com paciência, sem sermões enlatados e julgamentos. 

5. É necessário buscar ajuda de profissionais da Psicologia e Psiquiatra e nas instituições de apoio como o CVV (Centro de Valorização da Vida). 

6. E o mais importante de tudo: nunca, nunca, nunca devemos invalidar, desvalorizar, minimizar ou diminuir um sofrimento emocional.  

O suicídio é um problema tanto individual quanto social e sua prevenção é papel de toda a sociedade. Conhecer o problema é uma necessidade. Ouvir, pedir ajuda e fazer os devidos encaminhamentos aos órgãos e profissionais competentes são atitudes corajosas e de extremo valor. Aquilo que desconhecemos ou tememos evitamos encarar, entretanto, há coisas na vida que só pioram com a falta de enfrentamento. Fugir, nesse caso, além de contribuir para mortes tão trágicas, aumenta ainda mais o preconceito, o estigma e alimenta nossos tabus.

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