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Cotidiano

Conseguiremos um dia ser de fato mais liberais?

O maior inimigo do Brasil é o Estado brasileiro; Há anos tenho esta convicção e me sinto cada vez mais impotente

| ACidadeON/Ribeirao

Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

O maior inimigo do Brasil é o Estado brasileiro. Um monstro com longos tentáculos, paquidérmico, corrupto, moroso, resistente a mudanças, injusto, ineficiente, perdulário, espaçoso e por aí vai. Há anos tenho esta convicção e me sinto cada vez mais impotente para poder ajudar a transformar tal realidade. Mas de vez em quando aparece uma luz no fim do túnel mostrando que esperança sempre há, como ocorreu na semana passada enquanto perambulava sem maiores pretensões pelo Instagram até que parei no perfil de Henrique Bredda. 

Para quem não o conhece, ele é gestor do Alaska, um dos fundos de investimento de maior rentabilidade do mercado financeiro brasileiro, e possui mais de 340 mil seguidores em seu perfil (@hbredda). Já estive pessoalmente com ele por duas vezes em Ribeirão Preto em eventos. Fala com clareza e defende o mercado e seus benefícios com argumentos difíceis de serem rebatidos. No Instagram, conduz discussões relevantes incluindo temas relacionados à Educação, nas quais questiona ensinamentos dogmáticos passados por professores a alunos insinuando, entre outras interpretações esquerdistas, que o capitalismo é perverso e o lucro um pecado, desencorajando assim o empreendedorismo e a iniciativa privada desde a infância. 

Na última quarta-feira ele realizou uma live com Salim Mattar, fundador da Localiza e, até o mês passado, secretário de Privatizações do Governo Bolsonaro. Entusiasta do liberalismo econômico, Mattar fracassou em seu intuito de tirar das mãos do Estado empresas que deveriam estar operando e produzindo muito melhor no mercado. Foi engolido pelas corporações e por toda sorte de interesses, menos os republicanos. Bolsonaro, que de liberal não tem nada, pouco fez para mudar a cara do Estado brasileiro e hoje em dia se encanta mesmo é com o populismo travestido de distribuição de renda em troca de índices de popularidade. 

Ao fundador da Localiza, mesmo com a energia de quem começou trabalhar aos nove anos e aos 13 já conduzia o negócio da família em Oliveira (MG), não restou alternativa senão pedir pra sair. Ao menos nos bastidores, já que cumpre quarentena, deve ter ido cuidar dos detalhes finais da fusão de sua empresa com a Unidas, um conglomerado que terá uma frota de quase meio milhão de veículos de aluguel e de frotas no Brasil e em mais seis países, se aprovado pelo CADE. Isto porque a nova empresa, com valor estimado em R$ 48 bilhões, teria em território nacional cerca de 25% do mercado de aluguel de carros e 60% de share em gestão de frotas. 

Na conversa com Bredda, acompanhada em média por mais de duas mil pessoas no Instagram, o ex-secretário de Privatizações, além de educadamente defender Bolsonaro e criticar a imprensa, lembrou as leituras que o fizeram abraçar a causa liberal: "A riqueza das Nações", de Adam Smith, publicada na década de 1770, e "O Caminho da Servidão", de Friedrich Hayek, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 1974, uma das obras de referência na defesa do liberalismo económico. Foi de Mattar também a iniciativa de traduzir para o português a "Revolta de Atlas", de Ayn Rand, outra referência da doutrina. Mas a boa notícia é que ele, cada vez mais bilionário e com tempo livre, sem intenção de retornar para a gestão profissionalizada da Localiza, está criando o Instituto de Defesa dos Pagadores de Impostos. A entidade deve trabalhar com outras organizações com o mesmo objetivo de disseminar e fomentar o ideário liberal e propor políticas públicas que consigam quebrar a força retrógada e atrasada do Estado pantagruélico. 

A incapacidade de Mattar de modificar o Estado por dentro, isto é, trabalhando em sua estrutura, levou os dois debatedores da live a comentar que o desmanche do gigante pegajoso só se dará por meio da pressão da sociedade. E ambos concordam que existe hoje no Brasil um momento favorável, principalmente na juventude, para fazer este movimento ganhar vulto. Há mais de uma centena de organizações e entidades liberais espalhadas por faculdades em todo o país, bem como intensa troca de informações pelas mídias sociais. Todos querem trabalhar e empreender num cenário com regras mais claras, menos injustiças e privilégios, e mais competição e meritocracia.  
O Brasil possui, segundo Mattar, 30 milhões de empregos formais sendo 12 milhões deles oferecidos pelo Estado. Esta proporção denuncia como estamos atrasados. Enquanto na Inglaterra e nos Estados Unidos os servidores públicos custam cerca de 10% do PIB, aqui esse percentual salta para 13,7%. Não há economia que resista a estes números e o resultado não poderia ser outro: baixo crescimento, desigualdade, corrupção, atraso e violência. Não acho que a aplicação da receita liberal pura seja a solução de nossos problemas, ainda mais com os 500 anos de tradição patrimonialista. Mas boa parte de seus conceitos poderia sim transformar o Estado num ente mais racional, justo, eficiente e capaz de cumprir suas atribuições necessárias, abrindo assim espaço para que empreendedores e iniciativa privada gerassem a riqueza suficiente para girar nossa roda com mais harmonia. 

*Gustavo Junqueira é jornalista

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