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Cotidiano

Julio Chiavenato: Quem decide pelo cidadão comum?

Quem resolve o que lhe convém são os habitantes dos bairros da classe média alta, com filhos em escolas particulares e plano de saúde

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Quem decide pelo "cidadão comum?"

Deixemos de fora os milhares de cidadãos da periferia de Ribeirão Preto, porque eles estão abandonados e jogados à própria sorte (ou azar). Fiquemos com o morador de classe média baixa, dos antigos bairros proletários (Vila Tibério, Campos Elíseos, Vila Virgínia, por exemplo), onde a maioria dos proprietários herdou as casas dos avós e pais: politicamente, quem decide o que lhe é melhor? 

Pelo menos ele se livrou das favelas de cimento produzidas pela política habitacional brasileira. Mas quem resolve o que lhe convém são os habitantes dos bairros da classe média alta, com renda o dobro ou o quadruplo da sua, filhos em escolas particulares e plano de saúde. Eles raramente se candidatam, são escolhidos e comissionados nos quadros técnicos e administrativos, sem que o cidadão "comum" saiba porquê. Por seu lado, os cidadãos "comuns" que entram na política, quando eleitos deixam a comunidade de origem e vestem a carapuça do poder; prometem o bem e fazem o mal. 

Claro, os tecnocratas discordam, pois são beneficiários do sistema que o cidadão "comum" sustenta com seu trabalho mal pago e impostos escorchantes (não só o IPTU, que até o locatário paga, mas os embutidos no preço dos alimentos e dos remédios). Os tecnocratas estão nas comissões de planejamento ou coisa do gênero e decidem como deve ser a administração. Nas vésperas de eleições eles oferecem "programas de governo", tentando mascarar a injustiça social e atiçam a ingênua ou tola esperança de gente descuidada. São os aliados confiáveis das classes dominantes, com quem convivem pelas beiradas encontram-se nos locais de trabalho, às vezes compartilham um "happy hour", recebem algum afago, mas nunca são convidados para a casa grande. São os serviçais graduados do sistema. 

Essa gente, espécie de amortecedor entre as classes sociais, emoldura diplomas e prêmios e jamais dirá por que o trabalhador vive de um jeito, eles do jeito deles e os patrões por cima. No entanto, o "homem do povo" ouve esse pessoal até com uma pontinha de inveja, ao perceber que um golpe de sorte pode "elevar" o pobre barnabé ou o filho de operários à "camada superior". 

Eles sabem que o salário do trabalhador não é convertido em valores reais e isso desvaloriza o trabalho. Mas não lhe explicarão como a diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário recebido é a base da exploração do sistema capitalista. E por isso, a maioria pertence às "classes baixas" e uma minoria às "classes altas". No meio ficam eles, a classe média esclarecida que há quinhentos anos está delegada a decidir o que é bom para o povo "comum". Porque eles "sabem" e o povo "não sabe", pois o saber é sonegado aos pobres. Com um mínimo de informação seletiva eles aparentam saber e quase todos acreditam na farsa. 

Eles "sabem", não porque são sábios, mas porque foram treinados para a obediência às regras e trabalham para convencer-nos de que o mundo é assim mesmo. O pior da história é que não adianta denunciar: a manada votará convencida que exerce um dever democrático. 


Em tempos eleitorais, haja terra

O velho refrão diz: "Em tempo de guerra há mentira como terra". E em tempo de elei-ção? O Aurélio informa que eleição é a "escolha, por meio de sufrágios ou votos, de pessoa para ocupar um cargo ou desempenhar certas funções". Portanto, eleição não deve ser maculada por mentiras, pois não estamos em guerra. Não há eleição sem eleitor. Para o dicionário eleitor é "aquele que elege, que tem direito de eleger". No Brasil esse direito se adquire deixando as digirais no cartório em troca do título eleitoral. Só que o Aurélio fala em "eleitor de cabresto", "que vota sem independência, por interesse e/ou medo". 

Mas, felizmente, finaram-se os eleitores de cabresto. O que sobeja é candidato, "aquele que pleiteia um cargo eletivo". Se juntarmos as bolas, temos a eleição com o protagonismo do eleitor que escolhe o candidato que pleiteia um "cargo eletivo". É tão simples que todos acham que deve ser isso mesmo e deram nome ao fenômeno: democracia. 

Porém, para ter eleição é preciso do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que, para existir, precisa do Estado. E o Estado obriga o eleitor a pagar impostos para cobrir os altos salários dos juízes, desembargadores e ministros e financiar as eleições, cujos candidatos disputam o direito de defender o povo, sustentando que sem eleições, portanto, sem candidatos, tribunais e sobretudo o Estado, não podemos votar - se não votarmos, pifa a democracia. Por isso votamos nessa cambada que está aí. 

Cumprido o nosso dever democrático, voltamos ao dicionário para saber o que é democracia. Está lá: "Governo do povo; soberania popular. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade". Por fim, define como fundamental à democracia "as classes populares, povo, proletariado". 

Melhor parar. Se formos definir classes populares, povo, proletariado e os comparamos com a campanha eleitoral descobriremos que por aí vem mais mentira do que em tempos de guerra. Haja terra. 


Povo bom, perdoa

Levou um grande susto
ao ver sua sombra no chão
e só a muito custo
descobriu a razão:
tinha chifre, tinha rabo
era mesmo um rebotalho,
sim, de fato, era o diabo
a sombra do politicalho.

Caiu de joelhos e rezou
implorou a todos os santos,
até em Lucífer pensou
e rastejou pelos cantos;
prometeu a são Braz
muitas velas e até ouro:
se o livrasse de Satanás
lhe daria um tesouro.

Mas o rabo sempre crescia
e os chifres exalavam
tanto enxofre que fedia
e aos eleitores assustavam;
mas no final da história
safou-se bem o safado
e para sua eterna glória
pelo povo foi perdoado.
 

Tanta ingenuidade. Ou não?

"E vem chegando as eleições, aquele curto e belo momento em que nós temos a possibilidade de transformar as cidades que vivemos (sic). De sonhar cidades mais humanas, justas e conectadas com a realidade das pessoas que constroem de ponta a ponta, da margem ao centro." (Mariana Belmont, em blog no UOL)
 
*A opinião do colunista nem sempre reflete a posição do ACidade ON


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