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Cotidiano

Foi dada a largada para o festival bianual da hipocrisia nacional

Será que nossos candidatos pegarão rabeira em discursos de ódio negacionistas promovidos pelo candidato a reeleição nos Estados Unidos, Donald Trump

| ACidadeON/Ribeirao

Rodrigo Stabeli, Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCARe consultor da OPAS/OMS

Caro leitor de "hellbeirão", cuja previsão do tempo é de clima de deserto, 40 graus e umidade relativa do ar inferior a 20%. O clima também começa a esquentar com a aproximação das disputas municipais. Em Ribeirão Preto houve recorde de candidatos para prefeitos e vereadores. Agora fica a dúvida, será que bateremos recordes de hipocrisia? Aquela velha maneira de falar em saúde, educação e ruas pavimentadas prevalecerá no discurso de todos, isso posso te garantir, porque aqui a hipocrisia já é liberada e histórica.  

Se realmente tivéssemos investido em educação, por exemplo, os discursos que pipocam a cada dia não seriam aceitos, com conteúdos pregando a homofobia, a xenofobia e, sobretudo e mais preocupante, o negacionismo, modinha implantada no festival da hipocrisia bianual passado. Será que nossos candidatos pegarão rabeira em discursos de ódio negacionistas promovidos pelo candidato a reeleição nos Estados Unidos, Donald Trump, e que já foi "rabeirado" pelo atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? Aqui a eleição deu certo, a moda pegou... Quem não acreditou no "Salva Pátria Amada Brasil"? Mas o que impera é a velha política do Centrão. E hoje não estou recuperado de minha paciência para te explicar o que é Centrão. É só dar um Google na frase "Bolsonaro se rende ao Centrão", para descobrir o troca-troca de cargos para praticar o famoso "toma-lá-dá-cá", que ele próprio, o presidente, praticou por mais de 25 anos enquanto baixo clero do Congresso Nacional.  

Mas a intenção aqui hoje é falar da velha política corrupta e nefasta que já é tradição em nosso país. Será que teremos candidatos que defendam, por exemplo, uma reforma política? Uma reforma que inclua votos distritais, redução de mandatos, fim de reeleições, transparência de metas propostas na campanha em tempo real, redução de salários e benefícios? Claro, as eleições são municipais, mas é hora dessa defesa sim, porque o discurso que ouvimos até agora já é prévia da hipocrisia bianual das eleições presidenciais de 2022 em um Brasil polarizado. Aliás, a campanha presidencial rodando com a máquina pública nunca parou. Outra nova modinha que, além de tudo, é feita com negativas. Nega-se o desmatamento, nega-se as queimadas, nega-se a pandemia, nega-se incêndios criminosos, nega-se a ciência, e por aí vai com muitos batendo palmas. 

O problema é que o negacionismo tem consequências nefastas, como o desmonte das estruturas existentes e que, silenciosamente, já salvaram a minha e a sua vida, e você talvez nem tenha percebido. Quer um exemplo? Você sabia que o SUS, Sistema Único de Saúde, brasileiro completou 32 anos? Foi no último dia 19 de setembro e muitos acham que não funciona. Então vamos lá com alguns dados estatísticos: estima-se que quase 2/3 das mortes que poderiam ter acontecido com a pandemia do COVID-19 foram evitadas pela existência do SUS. Ele também é responsável pelas campanhas de vacinação, transplantes, saúde indígena, saúde do ribeirinho, do favelado, do louco e por ai vai.  

Falando em vacina, 77% das vacinas que a população brasileira precisa, são produzidas no Brasil, por abnegados cientistas. Essa é a ciência brasileira que salva vidas, mesmo que falida, mas falida permanecerá, já que é modinha não investir em ciência. Hoje, o Programa Nacional de Imunização cobre pobres e ricos, sem distinção de raça, cor ou sexo, para os 200 milhões de brasileiros, gratuitamente. São mais de 300 milhões de doses ofertadas anualmente. O resultado disso? Erradicação da poliomielite em 1994, da difteria, da rubéola e do sarampo até 2016. O negacionismo nacional da hipocrisia da república, dizendo que vacina é coisa do diabo, ou de chineses comunistas, promoveu a queda da imunidade de rebanho (essa que você vive sonhando para COVID-19) da difteria, febre amarela e do sarampo, os quais voltaram com tudo, assolando o nosso país. Negar a saúde pública é matar o cidadão e deveria ser crime internacional. Aliás, a negação da vacina chinesa é outra hipocrisia ou mais uma jogada política? Tenho certeza de que aquele que nega a vacina para fazer modinha política, vai sair correndo para ser vacinado na hora em que a dita cuja aparecer. 

Mas podemos ter esperança no Brasil, e quem pode mudar isso é você que vota. Quer escapar da modinha da polarização? Comece a ler como rotina, assim como o uso da máscara para sair de casa. Leitura não dói (nem a máscara!); esses atos te "desidiotizam".
A hipocrisia é presente quando você critica algo, como a vacina, e promove o aparecimento de doenças outrora erradicadas; quando promete e não cumpre, ou pior, quando usa seu voto por interesse próprio. Mensalão, mensalinho, petrolão, rachadinha e cargos para o Centrão. Viva a pornopolítica das ditas "esquerda" e "direita" brasileira. 

Você já não está cheio disso? Estude as propostas de seus candidatos e, principalmente, veja se são executáveis. Reflita para entender que o mundo é diverso, ninguém precisa ser igual ou pensar como você. E que sim, você pode conviver com as diferenças de opiniões. Precisamos lutar pela desigualdade social, educacional e de gênero. Não dá para dizer que o discurso de ódio não aumentou o feminicídio e as famosas queimadas no Brasil. E não me venha com discursos hipócritas porque você é inteligente o suficiente para saber que a desigualdade social, educacional e blá blá blá refletem também no dinheirinho que pinga no seu bolso. 

Ps: Trump pegou COVID-19 mesmo dizendo que estava tomando cloroquina para prevenção e, o mais estranho, é que o seu tratamento não incluiu a tão promissora droga. "Desidiotize-se", ainda dá tempo! Não seja responsável mais uma vez por ajudar a celebrar o festival bianual da hipocrisia nacional...


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