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Cotidiano

Será que vale a pena correr o risco?

O medo de voar de avião me atormenta, mas, mesmo assim, nunca deixei de ir a lugar algum

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)
 

O medo de voar de avião me atormenta, mas, mesmo assim, nunca deixei de ir a lugar algum. Somente neste ano, mesmo com a interrupção provocada pela Pandemia, já fiz quatro viagens. No dia do voo ou até antes, minha cabeça é invadida por pensamentos catastróficos e, apesar de saber que são absolutamente improváveis de acontecer, não consigo deixar de pensar neles. É muito incômodo!
Voar, no meu caso, gera um conflito entre temer uma morte trágica - assim, pá-pum - e o desejo de chegar em algum destino do meu interesse. Isso contém uma realidade: a quase todo momento nos deparamos com dilemas, bifurcações da vida que podem nos levar a lugares muito bons ou muito ruins ou às duas coisas ao mesmo tempo. Diante da encruzilhada, temos de optar por determinado caminho, podendo nos orgulhar, nos satisfazer, ou nos arrepender. O conflito entre o temor e a vontade é tão comum que o considero um clássico.
Importante dizer que quando existe um dilema, ao escolhermos seguir numa certa direção, estamos, necessariamente, renunciando a alguma outra coisa importante. Sem falar que a responsabilidade pelas escolhas é exclusivamente nossa. Correr riscos, renunciar, decidir e agir fazem parte da eterna batalha ética e moral entre o querer, o poder e o dever. 

No final de semana passado, viajei para Delfinópolis, Minas Gerais. Um lugar incrível na Serra da Canastra que vale a pena conhecer. Imersão na natureza e aventura são programas típicos da região. Correr riscos e sentir medo são ingredientes de qualquer aventura, certo?
Numa das trilhas que levava a uma cachoeira, dentro de um complexo chamado Paraíso, tinha um trecho de maior dificuldade, onde era preciso atravessar uma parede de pedras se segurando numa corda. O obstáculo parecia ser intransponível, mas a cachoeira estava a menos de cinquenta metros dessa parte do percurso e eu já tinha caminhado por mais de uma hora, morro acima, num calor de quase quarenta graus. Imaginar a água geladinha e a beleza que me esperavam era uma grande razão para o enfrentamento. Para alcançar o esperado paraíso, eu precisaria arriscar um possível dano à minha integridade física. Mesmo sentindo medo, escolhi enfrentar o desafio e desfrutar o que veio depois. Acho que vocês podem imaginar o tamanho da minha satisfação pela conquista. Valeu a pena! 

De volta à vida urbana, num dia desses, fui almoçar na casa de amigos muito próximos e queridos. Ao ler essa frase alguns podem ter pensado: mas e o distanciamento? Acabou a pandemia? Não é proibido aglomerar? Posso explicar. Essa família toda já teve Covid e, por isso, encontrá-los já é razoavelmente seguro. A reunião foi, inclusive, motivada pela vontade de celebrarmos sua recuperação, após terem passado maus bocados por causa dessa doença horrorosa. Eu estava tão feliz, mas tão feliz que resolvi postar uma foto nossa no Instagram com a legenda: conviver é preciso, viver não é preciso. Parafraseei Fernando Pessoa, tentando transmitir a mensagem de que a vida é feita de necessidades e imprecisões. 

Senti uma satisfação imediata por ter publicado algo que achei bacana, mas depois de algumas curtidas e comentários, me arrependi. Não valeu a pena! A alegria de compartilhar um momento especial foi subitamente substituída pelo medo de ser criticada e julgada por estar fazendo algo que, hoje em dia, é tido como inadequado. 

Mas e aí? Como é possível saber se vale a pena viajar de avião, atravessar uma parede de pedra se segurando numa corda ou correr o risco de ser cancelada na internet e ter sua reputação abalada? Independentemente da situação, a resposta é sempre a mesma: depende do valor que você dá para a experiência, do quanto ela é importante para você e de sua disponibilidade em assumir as consequências, incluindo a opinião dos outros. 

Em grande parte das vezes, podemos fazer uma análise racional de riscos e benefícios, de prós e contras, mas existem algumas situações em que o efeito de determinada atitude é inesperado ou foge do nosso controle. 

Exemplo disso aconteceu com um paciente em maio de 2012. Estávamos trabalhando para que ele vencesse uma severa fobia de avião (vejam só que ironia) e, para isso, apliquei um procedimento padrão das terapias comportamentais chamado "dessensibilização sistemática".
Fizemos uma lista que continha uma sequência de passos que ele foi enfrentando gradualmente: assistir a filmes sobre voos, se imaginar entrando num avião, visitar o aeroporto, entre outras atividades. E, quando ele se sentiu seguro para encarar uma viagem, escolheu a data, o destino e emitiu o bilhete. Chegou o grande dia e ele entrou na aeronave munido de técnicas de respiração para controle da ansiedade, além de motivação e muita determinação. Só que, alguns minutos após a decolagem, o avião teve que retornar à pista, pois um urubu atingiu a turbina e provocou um incêndio. Ninguém se feriu, graças a Deus e ao piloto, mas todo o trabalho terapêutico voou pelos ares. O paciente fez mais uma sessão para me contar o ocorrido e para dizer que tinha desistido de vez de tentar superar esse medo, já que os investimentos financeiro e emocional na terapia não tinham valido a pena. Entendo plenamente e me lembro dessa história em todas as minhas decolagens. 

A expressão "valer a pena" é muito frequente em nosso vocabulário. Só neste texto ela apareceu milhões de vezes. Descreve um "crime" que compensa ser cometido, cuja pena vale pagar, além de sugerir que todo desfrute tem um preço. Correr riscos é inerente à vida e muitas vezes é o que pagamos para alcançarmos algo muito desejado. O poeta Fernando Pessoa dizia que "tudo vale a pena se a alma não é pequena". O filósofo Mario Sergio Cortella indagaria: será?


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