Aguarde...

Cotidiano

Para os candidatos a prefeito de Ribeirão não existem problemas

Acontece que os problemas são reais e as soluções imaginárias. Mas esse é um detalhe que pouco interessa a quem caça votos

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
A turma da solucionática

Para os candidatos a prefeito de Ribeirão Preto não existem problemas. Só soluções. Acontece que os problemas são reais e as soluções imaginárias. Mas esse é um detalhe que pouco interessa a quem caça votos. Eles seguem o filósofo Dadá Maravilha: "não me venham com a problemática que eu já tenho a solucionática". 

Melhorar o transporte coletivo é fácil: mais ônibus, mais linhas, diminuir o preço da passagem e obrigar a cumprir os horários. A vovozinha não pode esperar meses para uma consulta, por isso, teremos atendimento médico de primeira, na hora, com mais profissionais em todas as áreas. Se o IPTU está caro, a providência é dar descontos especiais. As escolas terão mais professores e os professores serão tratados com respeito (a merenda deve melhorar muito).  

Quem está desiludido, console-se com a mãezona que gosta de gente. Ordem unida e lição de casa não devem faltar: militares e professores são a maioria dos vices. E por aí vai, com a bizarrice dos candidatos a vereador: muitos militares, poucos militantes e sobram pastores para cuidar da nossa alma. Tem de tudo, da esquerda silenciosa à direita estridente, passando pelo centro impassível, que na hora agá, você sabe... O eleitor não pode reclamar, o menu é rico e, por falar nisso, quem paga a conta? 

Tudo será um mar de rosas, mesmo porque o prefeito anuncia que resolveu os problemas, equilibrou as contas, tapou os buracos e só espera ser reeleito para chegarmos ao primeiro mundo. O chato é que a oposição diz que ele fez as contas erradas e enterrou cimento em viadutos, mas se esqueceu que o povão tem dor de barriga e espinhela caída (não vamos falar do covid-19, para não assustar a freguesia). 

Assim caminha a humanidade. Isto se apelida democracia. Aliás, uma democracia sem partidos políticos. Os concorrentes raramente botam sua sigla na propaganda. Têm razão, vai que desgostam alguém. Como se vê, todos muito bem educados. Podemos ficar tranquilos: ganhe quem ganhar, com chuva ou sol a cana continuará a crescer e a engordar os que já tem grana sobrando. 


Amorfo, anódino... normal

As melhores Câmaras em Ribeirão Preto foram as "ideológicas". Até o golpe de 64 os vereadores debatiam os problemas da cidade influenciados pelas suas convicções. As políticas públicas eram defendidas ou atacadas de acordo com os princípios de partidos bem definidos. Mesmo que os partidos de esquerda não se representassem formalmente, seus adeptos se elegiam por outras agremiações e marcavam posição. A direita nunca precisou se disfarçar. Os oportunistas eram a maioria, porém, silenciosa e para azar dos "progressistas" decidia as votações. 

A piores Câmaras foram as "purificadas" pela ditadura e as "neutras" da redemocratização. Nem é preciso lembrar o período dominado por Cícero e depois por Walter Gomes, finalmente desmascarados pela Operação Sevandija. 

Hoje?  

Parafraseando o modismo dominante, hoje todos são "empreendedores políticos". Ninguém tem cor ideológica e nenhum ataca o sistema seja político, econômico, social etc. Para os atuais vereadores o "inferno são os outros". Fazem oposição ou apoiam "pessoalmente". Não é uma legislatura melhor nem pior do que a farra que a Sevandija pôs fim, apenas descolorida e inócua.  

O prefeito não precisa se esforçar. Os vereadores acomodam-se às circunstâncias e qualquer rusguinha é superada nos bastidores. Repetindo o que já se disse mil vezes aqui: é a falta de definição programática dos partidos que possibilita essa descaracterização da política como forma de aprimorar tanto a democracia quanto o progresso social. É fácil perceber: a sociedade é dividida em classes sociais, uns pobres, outros mais ou menos e alguns ricos. Se os políticos não se identificam ideologicamente com uma das classes e "defendem" todas, adivinhem quem será beneficiado... Simples, é uma questão de poder, principalmente econômico. 

Por isso, há mais de cinquenta anos a Câmara não se renova: recicla-se com a chegada de arrivistas que em pouco tempo aderem à geleia geral (exceções: raríssimas). Os eleitores se ajustam, pois os partidos não exercem sua função pedagógica. Sintomaticamente, só há "agitação" na Câmara quando o funcionalismo municipal sente-se incomodado e, raras vezes, se algum segmento bem estruturado da sociedade quer mais um pouco (do quê?). No mais, os especuladores nadam de braçada. 
 

Que meleca!

Este é um fato feliz:
"não tem mais corrupção",
disse, tampando o nariz,
nosso invicto capitão.

Mas pra azar do presidente
seu senador desmunheca
e foi pego, imprevidente,
com dinheiro na cueca.

O filhão com a rachadinha,
o senador com a cueca:
eles enchem a caixinha
e nós pagamos a meleca. 


Sim, senhor!


"Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe!" (Walter Benjamin, 1892-1940)


Mais notícias



Mais notícias do ACidade ON