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Em menos de dois anos, número de favelas quase dobra em Ribeirão Preto

Em contrapartida, prefeitura conseguiu retirar somente 1.316 moradores dessas comunidades desde o início de 2017

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Zenaide comprou um terreno em Brodowski para sair da favela da rua Americana, no Jardim Aeroporto (Foto: Weber Sian / A Cidade)


O número de favelas em Ribeirão Preto quase dobrou em menos de dois anos - saltou de 50 em abril de 2016 para 96 comunidades hoje. O número de moradores nesses locais subiu de 25 mil para 43 mil moradores. Em contrapartida, a prefeitura conseguiu retirar somente 1.316 moradores das favelas desde o início de 2017.  

O secretário municipal de Planejamento, Edsom Ortega Marques, admite que a falta de orçamento emperrou a retirada das famílias, mas anunciou uma série de ações para atacar o problema, como a regularização fundiária, a ampliação dos programas de habitação de interesse social e a flexibilização da lei para incentivar esse tipo de moradia, além da coibição de novas invasões.  

"Nunca houve um programa de regularização fundiária em Ribeirão, tivemos que começar do zero", declarou Ortega.  

A vendedora Zenaide de Lourdes Fernandes, 67, reforça a estatística do crescimento das favelas em Ribeirão. Ela saiu de dois cômodos da casa da filha, no Jardim Aeroporto (zona Norte), e se mudou há um ano para a favela da rua Americana, no mesmo bairro.  

Sua família, porém, já começou a se empenhar para conseguir concretizar o sonho de construir a casa própria. Pela moradia de alvenaria no bairro Aeroporto, a família dela pagou R$ 6 mil.  

"Disseram que os barracos aqui vão ficar em pé até janeiro do ano que vem, depois vão derrubar tudo. Então temos que correr", declarou, preocupada.  

Há cinco meses, após muito esforço, a família de Zenaide conseguiu comprar um terreno para construir uma casa em Brodowski. De acordo com ela, a propriedade será paga em 15 anos e agora a economia tem sido intensa para conseguirem erguer, até dezembro, uma casa no local.  

"Não vejo a hora de ter água, luz, tudo arrumadinho lá. Estamos lutando para até o Natal estarmos na casa nova, daí não terá mais essa incerteza e acabará a nossa preocupação", projeta Zenaide.  

Enquanto dava entrevista, a vendedora esperava o balde de água encher com o líquido captado de forma irregular da avenida Recife. "Faz oito dias que deu problema e não tem mais água na torneira aqui, então a gente tem que pegar os baldes e esquentar a água para tomar banho", explica.  

Cristiano e Jaqueline já investiram cerca de R$ 20 mil em construção (Foto: Weber Sian / A Cidade)

Casal investe R$ 20 mil e está de mudança  

O casal Cristiano de Souza, 28, e Jaqueline de Freitas, 24, está de mudança para uma favela na Vila Albertina (zona Norte). A família deverá ampliar ainda mais o número de moradores em favelas de Ribeirão. 

Já investiu cerca de R$ 20 mil e só falta concluir o muro para ambos e a filha, de 5 anos, se mudarem para a casa de tijolos. "Se Deus quiser a gente já muda no mês que vem", declarou Cristiano.  

Tanto investimento, porém, gera insegurança, já que a família está indo morar em um terreno de propriedade federal onde moram mais de 2 mil pessoas a favela foi formada há dois anos. A maior parte das moradias é de alvenaria e a minoria é composta por barracos de madeira. "Dá medo na gente, mas temos que meter a cara. Não temos condição de comprar uma casa, então estamos colocando a mão na massa", declarou Jaqueline.  

A família mora de aluguel há quatro anos no Jardim Jandaia, mas não está conseguindo mais pagar o aluguel de R$ 600 por mês. "A gente se mudando para cá vai sobrar dinheiro para comprar comida e futuramente também quero comprar um carro", projetou Jaqueline.  

A renda mensal da família chega a R$ 1,1 mil, proveniente do trabalho de Cristiano como eletricista e do programa Bolsa Família, mas somente o aluguel já consome mais da metade do orçamento.  

Para viabilizar a construção, o casal pediu auxílio financeiro a familiares e também contou com a ajuda de uma loja de materiais de construção. A casa começou a ser construída há um ano.  

Fabiana crê que o dia mais feliz da vida será quando conseguiu sair da favela e se mudar para a casa própria (Foto: Weber Sian / A Cidade)

Fabiana está na fila da casa própria há oito anos  

Moradora da favela do Simioni, a doméstica Fabiana dos Santos, 41, declarou que está há oito anos na fila da casa própria da Cohab (Companhia Habitacional de Ribeirão Preto), desde quando veio de Campinas para cá acompanhar a mãe e o padrasto, que chegaram meses antes.  

"Fiquei com eles um mês morando de aluguel no bairro Maria Casagrande, mas estava muito caro, eu estava desempregada na época, e viemos para a favela do Simioni", relembra.  

Fabiana se separou há três anos e comprou um barraco de madeira na mesma favela, pelo qual pagou R$ 3,5 mil. Ela, porém, não pensa ainda em transformar a moradia em alvenaria o motivo é o medo de ser despejada da noite para o dia.  

"Eu já fui mais de dez vezes na Cohab para renovar a inscrição, e vou de novo na próxima quarta-feira, meu dia de folga. O dia mais feliz da minha vida vai ser quando eu sair daqui. A gente quer uma vida digna e acredita que vai ganhar a casa, mas acho um sonho um pouco impossível porque tem muita gente", declarou.  

Entre os problemas de se morar na favela, Fabiana destaca primeiramente o preconceito dos outros. "As pessoas têm visão de que todas as pessoas que moram na favela são bandidas ou traficantes, e não é assim", diz.  

Outra questão apontada pela doméstica é a lamaceira, o esgoto a céu aberto e o lixo jogado por todo lado, situação que causa doenças e atrai bichos para dentro de casa. "Eu, meu filho e minha mãe já fomos picados por escorpião", relembra. 

Fila da casa própria cresce 14 vezes  

Conforme A Cidade publicou em fevereiro, a fila da casa própria em Ribeirão Preto cresceu 14 vezes no período de dez anos: saltou de 4.404 para 63.207 famílias inscritas entre 2007 e 2017. Os dados foram fornecidos pela Cohab por meio da Lei de Acesso à Informação, a pedido da reportagem. Somente em 2017, 13.805 famílias fizeram inscrição.  

Evolução do número de favelas em Ribeirão 

1994 - 15 
Janeiro de 2015 - 45 
Abril de 2016 - 50 
Março de 2017 - 70 
Março de 2018 - 96  

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