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É possível prevenir o suicídio, alerta especialista

Confira a entrevista com o psiquiatra, professor da Unicamp e diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, Neury Botega

| ACidadeON/Ribeirao

O professor Neury Botega (foto: Divulgação)
 

Psiquiatra, professor da Unicamp e diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, Neury Botega é um dos principais especialistas brasileiros no tema. Em entrevista ao A Cidade, ele diz que a sociedade brasileira passou a abordar mais o suicídio nos últimos anos, mas ainda longe do ideal. Autor de dois livros sobre o tema, lança este mês uma publicação abordando a depressão - fator de importância no comportamento suicida.  


Quais fatores podem tentar explicar o aumento de casos de suicídio no País?
O suicídio é um fenômeno complexo, então a explicação das variações numéricas, bem como a compreensão de casos isolados, não tem uma resposta simples. Geralmente não há um fator, e sim combinação de fatores. Como fatores que afetam a juventude, por exemplo, temos a constituição mais frágil de família: o jovem passa muito tempo sozinho enquanto os pais trabalham, gasta muito tempo em redes sociais. Além disso, a sociedade está mais imediatista, competitiva, menos solidária, em que parece que todo mundo tem que correr muito para chegar logo lá. A depressão também incide cada vez mais precocemente, aliada à drogadição, crise econômica, falta de perspectiva no futuro. Temos, ainda, uma geração com menos ancoragem existencial. Não há mais uma utopia, grandes objetivos para serem alcançados socialmente.

Como agir?
Mais discussão com a família, mais conversa com amigos reais e não apenas com virtuais, escolas mais atentas a mudanças de padrões de comportamento de seus alunos, um serviço de apoio que possa ajudar esses jovens, preparação de profissionais que estão na linha de frente no atendimento às pessoas em situação de risco, como professores, mudanças nos currículos de graduação dos profissionais de saúde... Há muitas frentes de abordagem.

Há uma associação entre depressão e suicídio?
Sim. Os estudos retrospectivos mostram que pelo menos metade dos suicídios tem a depressão envolvida como um dos fatores. Não significa que deve haver um transtorno mental para o suicídio, mas quando há, o risco aumenta, não há duvida.

A prevenção é possível?
Claro, plenamente possível. Vários países já conseguiram diminuir o número de casos, principalmente entre os jovens. A literatura científica tem vários documentos mostrando que a sociedade tem que se organizar para enfrentar o problema com muito empenho.

Como familiares e amigos podem auxiliar na prevenção?
O primeiro passo é a diminuição do estigma. Achar que depressão é coisa de fraco. Qualquer pessoa pode ficar deprimida. Não é feio pedir ajuda, não é feio dizer "não estou bem". É importante pedir ajuda a quem a gente confia, emitir sinais de que não está suportando algo. Devemos observar mudança de padrão de comportamento, não é algo que acontece em alguns dias, algumas horas. Não é um mau-humor, um emburramento. São vários dias em que percebemos que essa pessoa mudou. Se perceber a mudança, tem que se aproximar, conversar, verificar o que está acontecendo. E, com delicadeza, mas coragem, perguntar sobre ideias de suicídio. Geralmente, quem está pensando em suicídio sente muito alívio em poder externar isso para o outro.

Essa conversa franca com a pessoa que tem a ideia do suicídio pode ajudá-la? Como deve ser feita?
É uma conversa em que a gente ouve com atenção e não julga. Não é simplesmente dizer: "isso vai passar, não é nada, pensa nos seus filhos". Após ouvir atentamente, devemos procurar uma maneira pragmática de ajudar essa pessoa, não é nunca dar três tapinhas nas costas e dizer: "você promete que vai procurar ajuda"? Precisamos ir de mãos dadas junto com ela procurar ajuda. Porque, às vezes, ela está sem energia para isso.

Moralismo nessas horas só atrapalha?
Absolutamente. Nem moralismo nem rapidamente fazer preleções religiosas. O mais importante é ouvir e respeitar o que essa pessoa está trazendo como o maior sofrimento dela no momento.
 

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