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Conheça cientistas de Ribeirão Preto que fizeram carreira no exterior

'De Ribeirão, para o Mundo', Juliano e Vanessa são de famílias humildes, estudaram em escolas públicas e hoje fazem ciência no Reino Unido e EUA

| ACidadeON/Ribeirao -

 

Os cientista ribeirão-pretanos Vanessa Nunes de Paiva e Juliano Morimoto - Foto: Reprodução/redes sociais

Ribeirão Preto completa 166 anos neste domingo, 19 de junho. Para marcar a data, o acidade on preparou reportagens especiais. Neste conteúdo, mostramos cientistas de Ribeirão Preto que são destaques.

Os cientistas ribeirão-pretanos Juliano Morimoto e Vanessa Nunes de Paiva têm histórias parecidas. Ambos são de famílias humildes do Jardim Independência e Presidente Dutra, bairros da região Norte de Ribeirão Preto,  estudaram em escolas públicas e hoje dedicam suas vidas à ciência, mas longe de casa. Juliano na Escócia, no Reino Unidos e Vanessa, em Miami, nos Estados Unidos. 

Formado em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Morimoto, conquistou seu primeiro doutorado em 2016, aos 25 anos, pela universidade de Oxford, no Reino Unido, se tornando à época, o brasileiro mais jovem a conquistar o título. Depois disso fez ainda pós-doutorado na Austrália e atualmente trabalha como pesquisador e professor em entomologia, ciência que se dedica a estudar insetos, na Universidade de Aberdeen, na Escócia. O jovem ainda mantém vinculo institucional com a UFPR, como professor externo no programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação.  

"Minha trajetória como cientista começou formalmente quando fui para a universidade, aos 17 anos. Mas informalmente começou na escola, fiz o fundamental no Anísio Teixeira e o médio no Dom Luís do Amaral Mousinho. No Mousinho, tive um professor, o Rafael, de Matemática, que realmente foi um mentor muito importante para minha carreira, mas também como pessoa. Nesta época, eu não imaginava que hoje eu estaria aqui falando outra língua, não só falando, morando e dando aula em um país diferente do meu. Me sinto orgulhoso e sou grato por todos aqueles que me apoiaram, com certeza eu não estaria aqui, se não tivesse o apoio da família, amigos e mentores", lembra.

Foco, dedicação e muito estudo


A biomédica Vanessa Munes de Paiva também despertou o lado de cientista na época do colégio, nas escolas estaduais Guimarães Júnior e Jenny de Toledo Piza Schroeder, mas foi se encantar verdadeiramente pela área, em seu primeiro estágio na Universidade de São Paulo (USP), quando teve o primeiro contato com laboratório.

Formada em Biomedicina pelo Centro Universitário Barão de Mauá, Vanessa fez mestrado na área de imunologia na Universidade de São Paulo (USP), na capital. A carreira internacional começou em 2008, quando foi selecionada em um programa de bolsas de estudos para fazer seu doutorado na Alemanha, na Universidade de Bonn, onde participou de um projeto voltado para estudos de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. 

"Foi muita luta para chegar aonde eu cheguei. As escolas públicas não te preparam para um vestibular, para entrar em uma boa universidade. Eu tive que ir contra o tempo, tive que me esforçar muito, passava horas estudando, nos finais de semana e não me arrependendo de toda dedicação e tempo que eu investi. Quando a gente tem um sonho, um objetivo, independente dos obstáculos, se a gente se esforça, se dedica, eu acho que é possível acontecer. Tenho orgulho da minha história, por saber de onde eu vim, do tanto que eu lutei e conquistei. Na verdade, acho que eu conquistei muito de tudo que tinha planejado", conta Paiva. 

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Depois de quatro anos na Alemanha, Vanessa chegou a voltar para o Brasil e fez pós-doutorado no Rio de Janeiro, mas percebeu que havia poucas chances de  crescer na área médico-cientifico, seu principal objetivo.

A falta de perspectivas a fez procurar novos caminhos e a desembarcar em 2016, em Miami, nos Estados Unidos para realizar seu segundo pós-doutorado, em neurociência aplicada em doenças neurodegenerativas. Atualmente, ela trabalha como médica-cientista, na Hologic, empresa que faz diagnósticos e tratamento contra o câncer de mama. Feliz na indústria, Vanessa almeja crescer ainda mais na companhia e, por enquanto, não pensa em voltar ao Brasil.

"Ciência é uma carreira linda, necessita de muita dedicação e tem que fazer por amor, porque necessita de muita dedicação. Na ciência, um projeto pode levar 6, 10, 15 anos. Isso aconteceu comigo, eu estava fazendo parte de um projeto que já estava acontecendo fazia 15 anos, então é uma carreira longa, precisa de muito foco e dedicação', admite. 

Fazer ciência no Brasil 

O desafio de ser cientista no Brasil, vai muito além da falta de investimentos dos Governos - o que tem sido um fator importante nos últimos anos - mas também há uma 'cultura de desvalorização' de pessoas que seguem a carreira de cientista, opinam os dois ribeirão-pretanos.

"Fazer ciência no Brasil é uma luta diária, não só ciência, mas tudo no Brasil é uma luta. Eu acredito que o Brasil infelizmente, aprendeu a desvalorizar o conhecimento. Fazer ciência, ser cientista no Brasil, hoje você se torna alvo de críticas, alvo até de ameaças. Aí você adiciona a falta de apoio dos orgãos públicos no Brasil, que deveriam apoiar a ciência para melhorar a qualidade vida da população, então tudo isso acaba criando um ambiente de desvalorização. Eu realmente admiro meus colegas no Brasil, meus amigos cientistas", comenta Morimoto. 

"O dinheiro que investem em ciência no Brasil é muito pouco comparado com outros países. Quando estamos em um laboratório de ciência, a gente depende de muitos reagentes importados, e isso é muito burocrático, às vezes demora meses para chegar o reagente e, assim, você fica preso para desenvolver seu projeto. Aqui nos Estados Unidos, você pede em um dia, chega no outro. É claro, tem ótimas universidades no Brasil, algumas têm mais recursos que outras, mas infelizmente essa área [ciência] está muito limitada", complementa. 

Saudade de Ribeirão

No aniversário de Ribeirão Preto, comemorado neste domingo (19), ambos estarão longe de casa. Embora tenham escolhido seguir suas carreiras no exterior, reconhecem que é sempre bom saber, que há um lugar de acolhida, aconchego, quando visitam ao Brasil. 

"Sinto muita falta saudade de Ribeirão, na verdade, eu vou a Ribeirão toda vez que estou no Brasil, é a minha base. A família da minha mãe inteira está em Ribeirão, tenho primos, amigos de infância, falo porta com o r puxado (risos). Pretendo estar aí no final deste ano e começo do ano que vem", adianta Morimoto. 

"Sinto muita falta do calor do brasileiro, o calor humano, são pessoas muito amigáveis, simpáticas, felizes. É claro, sinto falta da minha família também, quando decidi sair do país, foi uma decisão difícil, pois você sabe que não estará ao lado, para compartilhar com eles os melhores momentos da sua vida, talvez não consiga passar as férias com eles. Pra mim, isso é o mais difícil até hoje, estar longe da família", conclui Vanessa. 

Como reter esses talentos

O professor Gustavo Goldman da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, também fez suas especializações fora do Brasil e acredita que é muito difícil, principalmente no atual cenário, reter os cientistas brasileiros que são atraídos por excelentes oportunidades fora do país. 

"O caminho para o Brasil começar a reter esses talentos é uma mudança de filosofia, principalmente de pagamento de pessoal. Você não pode ficar pagando pessoas com bolsa de estudos o tempo todo, você tem que criar políticas de pagamento de pessoal, nem todo mundo consegue fazer concurso, não tem vaga para todo mundo ser professor, então você tem que pensar em carreiras intermediárias e manutenção de pesquisadores associados a laboratórios e tudo mais - então para isso tem que ser salários", explica. 

Segundo ele, do Brasil, de dimensões continentais, São Paulo é um dos poucos estados, ou senão, o único, que ainda mantém uma estrutura adequada de financiamento à ciência e tecnologia por meio, por exemplo, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

"Se você está em São Paulo, é menos difícil do que em outros lugares. O atual Governo [federal] tem uma vocação realmente destruidora, conseguiu em poucos anos, destruir tudo de bom que foi feito nos últimos trinta anos no Brasil, então realmente é muito difícil fazer ciência no Brasil. A gente tenta faz o melhor, o que a gente pode. Poderia ser muito melhor, se houvesse apoio maior do Governo Federal", finaliza Goldman.    

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