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À caça dos fantasmas do Centro Cultural Palace

A Cidade acompanhou uma expedição em busca dos fantasmas que, acredita-se, habitam o antigo hotel de Ribeirão Preto

| ACidade ON

José Manuel Lourenço / A Cidade
Integrantes da expedição em busca dos fantasmas no prédio do Centro Cultural Palace (Foto: José Manuel Lourenço / A Cidade)

 

Na semana passada, uma expedição de sete pessoas ‘invadiu’ o Centro Cultural Palace com um objetivo muito peculiar: confirmar os boatos sobre a existência de fantasmas no local. Sabe o que aconteceu? Eles acharam. Vários.

Não foi só isso. Todas as manifestações encontradas estão ligadas à história do CCP, um antigo hotel de 90 anos localizado na região central de Ribeirão Preto, onde ocorreram, pelo menos, um suicídio, um assassinato, além de um esquartejamento não confirmado.

Isso, sem falar da famosa passagem secreta do último andar, portal para aventuras sexuais entre representantes da elite cafeeira ribeirão-pretana e prostitutas nacionais e estrangeiras.

Quem garante que os espíritos habitam o corpo desse prédio, localizado na esquina das ruas Álvares Cabral com Duque de Caxias, é o casal Rosa Maria Jaques, 66, e João Tocchetto de Oliveira, 54. “Nós ainda temos de analisar os vídeos, mas, com certeza, podemos confirmar o contato não apenas com diversos espíritos como com alguns parentes”, afirmou Tocchetto.

Gaúchos de Porto Alegre, ele e a mulher são as estrelas da investigação paranormal no Brasil. Grande arte da fama vem de um canal no You Tube que, desde a sua criação, em 2008, abriga cerca de 700 vídeos de investigações em locais assombrados e já teve mais de três milhões de visualizações. Rosa e João são os Caça Fantasmas Brasil. 

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Manifestações

A investigação no Palace ocorreu na noite de 20 e madrugada de 21 de abril e o A Cidade acompanhou. Não havia luzes ligadas. O casal carregava uma parafernália de gadgets eletrônicos, como medidores eletromagnéticos (um deles chamado ghost meter), câmeras de visão noturna, termômetros digitais e microfones especiais.

“Os fantasmas geram fortes campos eletromagnéticos nos momentos de suas aparições e, na maioria das vezes, são notadas variações importantes na temperatura ambiente quando estes ocorrem”, conta Tocchetto.

Em vários momentos, quando Rosa dizia ter contato com espíritos, os aparelhos utilizados por eles emitiram sons semelhantes a apitos. Também mostraram movimentações erráticas das agulhas dos medidores. Outros aparelhos, com leds verdes, amarelos e vermelhos, acendiam de acordo com a intensidade da manifestação espiritual: o vermelho, segundo Rosa, era a cor de maior força. No Palace, isso aconteceu uma vez. As outras mais de dez, ficaram entre o verde e o amarelo.

Mais do que um desgosto

Um dos casos descritos por Rosa Jaques é impressionante: a morte por autoimolação de uma funcionária do hotel, que tinha cerca de 20 anos. Ela teria posto fogo no próprio corpo, após descobrir que o hóspede por quem estava apaixonada era casado. A história é de conhecimento público e a causa da morte que se alegava até então era o desgosto amoroso. A informação que Rosa alega ter recebido da moça é que o suicídio pode ter sido causado também pela vergonha por estar grávida. “A dor e a vergonha dela são imensas, é de uma intensidade muito grande”, disse Rosa.

Contatos na ‘casa dos espíritos’

Apesar da quantidade assustadora de equipamentos, o fio condutor das investigações é a paranormalidade de Rosa, desenvolvida desde os 6 anos. Ela diz ver e falar com os espíritos. No Palace ela alega ter feito contato com um dos primeiros inquilinos, antigos hóspedes, funcionários e familiares deles.

Após cinco horas de aventuras pelas salas, corredores e escadas do antigo hotel, os participantes contaram as suas experiências. “Não somos apenas nós mesmos. Somos nós e todos aqueles com os quais convivemos. A gente percebe que cada um deixa alguma coisa”, disse o arquiteto e urbanista Cláudio Bauso, que trabalha na coordenação do Palace.

Para Ricardo Costa Brandão, a experiência foi válida. “Sou espírita, já tinha sentido várias coisas no Palace, mas naquele dia senti mais.”, contou.

A professora Ana Lúcia Ferreira gostou do que viu e sentiu. “Foi uma vivência única, inesquecível, onde a sensação de medo foi superada pelo respeito obtido em todo transcorrer da investigação”, disse.

Prever futuro é bom negócio

Caçar fantasmas pelos locais mais assombrados do Brasil dá dinheiro, mas uma parte substancial da renda do casal Rosa e João vem de consultorias feitas para empresas. É isso mesmo, empresas. “São clientes que querem saber como vai ser o futuro dos seus negócios, o que vai acontecer com o mercado em alguns meses, o que os concorrentes podem estar planejando, coisas assim”, disse João Tocchetto. Ele não informa o número de clientes ou o valor médio recebido. “Nós temos contratos de sigilo absoluto. Além disso, existe preconceito enorme contra esse tipo de prática”, conta.

Eu não vi...
...Mas quero acreditar

“Um dos personagens mais conhecidos da antiga série de TV, Arquivo X (1993/2002), era um pôster na parede da sala do investigador Fox Mulder (David Duchovny), com a frase “I Want to Believe” (Eu Quero Acreditar). A imagem tem um disco voador ao fundo, mas a frase – para mim, pelo menos – sempre teve um significado mais amplo, que envolve a necessidade de crença em fenômenos que escapam à nossa compreensão. Não estamos sozinhos. Depois de horas vagando pelo escuro, no interior de um prédio marcado por sofrimento, traição e morte, foi difícil evitar uma dupla frustração: não ter visto, ouvido ou sentido alguma coisa e, depois, não ter a capacidade de captar sinais do Além.
Eu quero acreditar. O problema é que, depois de quase três décadas de jornalismo, a mistura de racionalismo e pessimismo que passa a fazer parte do nosso DNA, deixa muito pouco espaço para a crença no sobrenatural.

Não vi nada, mas colegas de expedição alegam ter visto. Antes deles, muitos outros já me tinham dito que o Palace era um local de fantasmas. Para dizer a verdade, não custava nada eles terem me dado um sinalzinho.”

José Manuel Lourenço, jornalista


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