Ciclovias continuam promessas em Ribeirão Preto

Dos 30 quilômetros de ciclovias prometidos há três anos por meio do PAC, nada foi entregue até agora

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    • Lucas Catanho
O motorista Valmiro Martins de Souza só não utiliza mais a bicicleta porque se sente inseguro nas ruas (Foto: F.L. Piton / A Cidade)

 

Prevista na revisão do Plano Diretor, a promessa de interligar o transporte coletivo urbano e o uso da bicicleta não se concretizou. O anúncio foi feito há três anos, mas, desde então, nenhum quilômetro de ciclovia foi entregue entre os 30 km de extensão prometidos pelas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Mobilidade.

Até agora, só começou a sair do papel a duplicação dos 4 quilômetros da avenida Antônia Mugnatto Marincek, na região do Ribeirão Verde (zona Leste).

As obras começaram no início desta semana e vão custar R$ 25 milhões. A previsão é que os trabalhos durem dois anos. A duplicação contempla a mesma extensão em ciclovias.

Os 26 km restantes de ciclovias em pontos como avenidas do Café, Brasil, Presidente Kennedy, Costábile Romano e Nove de Julho ainda estão em fase de licitação da empresa que fará o projeto executivo das obras, assim como os 52 quilômetros de corredores estruturais de ônibus.

Enquanto a cidade derrapa na extensão de ciclovias, quem pretende depender somente da bicicleta para se locomover fica desestimulado.

O motorista de caminhão Valmiro Martins de Souza, 39, é adepto da bicicleta e diz que só não se locomove mais por duas rodas por causa da falta de ciclovias. “Sinto falta de campanhas que incentivem o uso de bicicletas e também maior consciência do motorista diante do ciclista”, afirma.

Ele acrescenta que, de segunda a sexta, três dias vai e volta de bicicleta do serviço e os outros dias divide a bicicleta com o ônibus. De onde mora, no Parque Ribeirão, até o emprego, na região do Aeroporto, são 20 quilômetros. “Divido com o ônibus principalmente por causa do perigo nas ruas”.

Quando faz a divisão, Valmiro sai de bicicleta do Parque Ribeirão, deixa no bicicletário do terminal da avenida Jerônimo Gonçalves e faz o restante do trajeto – a metade, 10 quilômetros – de ônibus.

Além do desrespeito e da falta de ciclovias, mais um fato desestimula Valmiro. Há 20 dias, a bicicleta dele foi furtada no terminal da Jerônimo Gonçalves. O ladrão arrebentou o cadeado e tirou a bike do bicicletário. “Era uma bicicleta boa, meu prejuízo foi de R$ 400. Agora eu comprei uma por R$ 50, de segunda mão”.

Estações terão bicicletários

A prefeitura de Ribeirão Preto afirmou que todas as estações de ônibus de bairros a serem construídas terão bicicletários. Segundo a administração municipal, a estação de Bonfim Paulista deverá ser entregue na segunda quinzena de julho. “A do bairro São José também está prevista para julho”, informou, por meio de uma nota de imprensa.

A prefeitura afirmou que as estações dos bairros José Sampaio, Ribeirão Verde e Vila Abranches estão previstas para serem entregues no segundo semestre deste ano. Há previsão de início das estações da rua Américo Brasiliense, mas a prefeitura não informou a data.

A prefeitura informou ainda que hoje estão disponíveis bicicletários gratuitos nos terminais do RibeirãoShopping e da Jerônimo e anunciou um bicicletário no Calçadão, mas não precisou prazos.

Plano Diretor

Em 2013, o coordenador do Plano Diretor, José Lanchoti, informou ao A Cidade que seria criado um sistema para possibilitar o uso das bicicletas como meio de transporte eficiente. Até agora, no entanto, a revisão do plano não saiu do papel.

“A Secretaria de Planejamento esclarece que o assunto está sendo tratado na revisão do Plano Diretor, que desencadeia várias ações de legislações e planos estratégicos, dentre eles uma revisão do plano de mobilidade, onde o assunto está inserido”, informou. A prefeitura não citou prazo para votação da revisão do Plano Diretor.

Bicicletários subutilizados

O A Cidade percorreu nesta sexta-feira (24) os bicicletários dos terminais de ônibus da avenida Jerônimo Gonçalves e o do RibeirãoShopping, no Jardim Califórnia. Notou que os dois espaços são subutilizados.

No primeiro, das 15 vagas destinadas a bicicletas, somente três estavam ocupadas. Mesmo com a câmera de segurança, no local a bicicleta de Valmiro foi furtada há 20 dias. “Tem pouca bicicleta por causa do medo das pessoas de serem furtadas”, dispara Valmiro.

No terminal ao lado do shopping, o A Cidade flagrou somente três bicicletas no bicicletário com 20 vagas ontem pela manhã. Em 20 minutos, nenhum ciclista chegou ou partiu do local.

Número de veículos motorizados explode

Enquanto o uso da bicicleta não é estimulado por causa da falta de infraestrutura, o número de veículos motorizados cresce de maneira alarmante em Ribeirão Preto.

O A Cidade mostrou, no início deste mês, que a frota aumentou 95% nos últimos 12 anos e bateu a marca de 500 mil veículos, que circulam por 2 mil quilômetros de vias urbanas. Proporcionalmente, a alta foi cinco vezes maior que o crescimento da população – 20% no período.

Com proporção de 1 automóvel para cada 1,3 habitante, Ribeirão tem hoje mais carros em comparação à população do que cidades do mesmo porte, como Sorocaba e São José dos Campos. Esses dois municípios têm, respectivamente, 1 automóvel para cada 1,4 e 1,7 habitante.

Carlos Alberto só usa bicicleta para pequenas distâncias pela falta de segurança (Foto: F.L. Piton / A Cidade)

 

‘Prefiro ônibus’, diz aposentado

O aposentado Carlos Alberto Anjos, 69, utiliza a bicicleta para pequenas distâncias, mas prefere o ônibus por conta do perigo oferecido pelas ruas. Mesmo assim, se locomove por duas rodas cinco vezes por semana, nem que seja só um trecho do trajeto.

“Só não tem risco na ciclovia e teríamos que ter mais espaços adequados para andar. Hoje são muito poucos”, defende o aposentado, que ontem trafegava pela ciclovia da Via Norte.

A bicicleta é usada quando ele tem algum compromisso para fazer sozinho e não muito longe. “Moro no Marincek e, quando preciso ir ao Centro, às vezes deixo a bicicleta presa à grade do posto de saúde dos Campos Elíseos e vou de ônibus”, explica.

O ideal, diz, seria utilizar somente a bicicleta. “Quando saio com a família não tem jeito, tem que ir de carro. Mas andando de bicicleta a gente ganha saúde e economiza combustível”, conclui.

Análise > População fica impotente

“A divulgação de grandes obras e serviços públicos de qualidade melhora a imagem do administrador público e, num primeiro momento, proporciona satisfação para os munícipes. Entretanto, quando essas obras e serviços públicos não são executados, a população se sente insatisfeita e impotente frente às promessas políticas não cumpridas. Depois de três anos, as obras de mobilidade praticamente não saíram do papel. Observamos falta de planejamento, falha de projetos e inversão de prioridades na execução de políticas públicas de mobilidade urbana, que preparem a cidade de Ribeirão Preto para o futuro, com menos congestionamentos de veículos particulares, com mais ciclovias e um transporte público de qualidade. Faltando alguns meses para o final do mandato, não há tempo hábil para a prefeitura implantar e executar as obras de mobilidade urbana. Quando muito, conseguirá diminuir o número de buracos e crateras que democraticamente atingem todos os bairros da cidade”.

Marco Aurélio Damião, especialista em administração pública


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