Médico da Fundação Penteado fala sobre dependência química

Augusto Bergamin responde a cinco perguntas sobre o tratamento dos usuários

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    • Lucas Catanho
Milena Aurea / A Cidade
Augusto Bergamin, médico da Fundação Penteado (foto: Milena Aurea / A Cidade)

 

Médico da Fundação Penteado - hospital particular que atende dependentes químicos na Lagoinha (zona Leste) -, Augusto Bergamin relaciona o alto número de afastamentos no trabalho pelo uso de drogas ao grau de complexidade do problema que é a dependência química. “É um contexto muito difícil de trabalhar porque existe uma multiplicidade de fatores”, destaca. O profissional defende uma preparação da família do dependente para saber encarar a situação. “Muitas famílias têm que ser cuidadas para conseguir cuidar”, declarou. Por fim, o médico defende a formação de agentes de saúde e educação para que adotem, nos tratamentos, padrões de referência de eficácia, sempre baseados em dados científicos. 

1-O que explica o alto número de afastamentos pelo uso de drogas?
Um dos principais motivos é o grau de gravidade do problema, altamente complexo e que envolve uma série de questões, o que denomina-se hoje de ecletismo informado. O olhar não é mais sob uma questão moral, não é só uma doença, existe envolvida uma genética pessoal que permite que as condições do ambiente desencadeiem o transtorno, em menor ou maior intensidade, dependendo da essência do sujeito.

2-Qual o papel da família neste contexto?
A família tem uma importância extrema, mas muitas vezes precisa ser cuidada para ter condições de mudar de posição diante do problema. A maioria dos pais, irmãos, avós, tios não tem consciência de que estão contribuindo para que o uso tanto se instale como se mantenha. É preciso esclarecimento para a família, daí vem a importância do Amor Exigente, das psicoterapias, do cuidado para que, primeiro, seja possível uma condição interna para olhar o problema e, segundo, perceber o que as famílias estão fazendo para contribuir para manutenção do quadro. Muitas vezes as famílias precisam ser cuidadas para ter condições de cuidar.

3-As empresas podem atuar na prevenção?
Sim, na medida em que podem organizar encontros, palestras, aulas, cursos, produzir encartes, folders, panfletos, enfim, há uma infinidade de formas para que o sujeito atente para a existência do problema, se aproxime do problema – muitas vezes acha que isso não afeta o seu setor e já tem um usuário nocivo ou quase dependente trabalhando do lado dele. Ou acha que faz um uso social e na verdade está partindo para uso nocivo e dependência sem perceber.

4-O que pode ser feito para reduzir o alto número de afastamentos por uso de drogas?
Muita coisa pode ser feita e existe muita gente trabalhando, buscando conseguir maior índice de sucesso terapêutico. Os agentes de saúde e de educação podem e devem usar de todos os recursos, tentando maior eficácia e eficiência. E isso se faz com formação. É necessária formação dos agentes para a gente ter como referência os parâmetros científicos em relação a tratamentos e técnicas mais eficazes. Medicamentos têm que ser usados dentro das diretrizes das sociedades de especialidade.

5-De que forma os governos podem ajudar?
Os governos podem ajudar a organizar e apoiar encontros para formação e troca de informações entre os agentes, é algo fundamental. Mas, muitas vezes, não se vê isso, se vê gente trabalhando, tocando serviço. E tocar serviço muitas vezes é como trabalhar às cegas. É necessário parar para olhar o que funciona, trocar informações, reuniões clínicas, enfim, todo mundo deve estar mobilizado.

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