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Bolsonaro ficou tão fraco que nem é capaz de bravatas

Desafiado por Mandetta não teve força para demiti-lo; Precisou do aval dos militares e demorou duas semanas para escolher o novo ministro, Nelson Teich

| ACidadeON/Ribeirao

 

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Quem vai mandar?

Bolsonaro ficou tão fraco que nem é capaz de bravatas: agora só comete batotas. O batoteiro trapaceia e tergiversa. É o medroso inconsciente.  

Desafiado por Mandetta nas últimas semanas, não teve força para demiti-lo. Precisou do aval dos militares e demorou duas semanas para escolher o novo ministro, Nelson Teich. A demora em encontrar um nome e a recusa de vários consultados demonstra seu isolamento. Nesse tempo, dissimulou: o que parecia bravata nas afirmações de "quem manda sou eu", não passou de batota nem chega a blefe, pois ele não tem firmeza no "pagar pra ver": é mofino até no jogo do truco e não teve peito para nomear um obscurantista declarado, como ele. Ficou no meio termo: Teich já começou titubeando.  

Seja qual for o final da pandemia, o que sobrará do governo Bolsonaro? Socorrer-se nas redes sociais, deixando Carlos, o filho 02, agredir adversários? Ou recolher-se à sua pequenez para sobreviver, encostando-se nos generais que já dominam a paisagem?  

Uma coisa é certa: perdeu o resto de protagonismo. Pode continuar gritando ou gaguejando no teleprompter, mas será uma marionete cujos cordéis prendem-se a várias mãos. Quais?
 

A voz de Deus


O doutor Pacóvio Pascácio, ilustre membro da família panglossiana, tem valiosas sugestões para reforçar o prestígio de Bolsonaro. Segundo o doutor Pascácio, nunca um presidente falou tão bem aos apoucados de inteligência. E isto merece elogios, pois todos sabem que o reino dos céus é dos pobres de espírito.  

Afirma o nosso doutoríssimo: "se Jesus fosse consultar os ecologistas quando mandou jogar as redes e pescaram aquela imensidão de peixes, certamente eles oporiam razões de proteção ao meio ambiente e a preservação das espécies e muita gente morreria de fome. Se ele fosse perguntar aos cientistas se era possível multiplicar os pães sem plantar trigo, colher e moer as sementes, também receberia um sorriso de mofa. No entanto, ele não só matou a fome da multidão como lhe ofereceu vinho". 

Então, diz o doutor Pascácio, "sabendo que a voz do povo é a voz de Deus, obedecer ao povo é glorificar ao Senhor". Assim, concluiu, faça-se o que o povo pede. A primeira sugestão do doutor Pascácio para adular a massa ignara (sem ofensa) seria Bolsonaro "liberar a pesca na piracema. Deixem os pescadores encherem os rios de varas e redes e mate-se a fome do mundo. Deus proverá aos peixes meios de sobrevivência que a razão humana não alcança".
Ouçam o povo. Se Deus está conosco quem estará contra nós?

Apropriação indébita

Na coluna de 1º de abril, escrevi que o componente que falta à ação política de Bolsonaro é o antissemitismo: "Não há político com perfil tão antissemita como Jair Bolsonaro. Ele é grosseiro, preconceituoso, xenófobo e religiosamente dúbio. Tudo o que leva quase automaticamente ao ódio ao judeu. Mas seu antissemitismo está dormente (...)".
Porém, o seu governo está povoado de judeus no primeiro escalão. Agora, Nelson Teich substitui Mandetta. Como se explica a "contradição" desse pobre colunista? Simples: contraditório é o antissemitismo nuclear de todo cidadão que manifesta, por atos e palavras, preconceitos raciais e identificação com regimes de tortura, mas ostentam uma postura de aparente religiosidade. Os judeus deveriam saber disso e se cuidarem o holocausto só foi possível porque existiam milhões de bolsonaros à cata de um "culpado".
Como se explica o namoro de Bolsonaro com Israel? Pelo mesmo motivo que leva os pastores pentecostais a se apropriarem de uma religião que eles não entendem, cujo humor e ironia estão além da ignorância histórica manifesta na mentalidade que, se dizendo cristã, usa de forma atravessada o Velho Testamento, citando mais a torto do que a direito e fugindo dos preceitos de Jesus como o diabo da cruz.
Resumindo: o pentecostalismo brasileiro é um "ersatz" do meio-oeste norte-americano. É um falso judaísmo mal adaptado à miséria sociocultural brasileira. É o caminho fácil para o oportunismo religioso escapar da hierarquia da Igreja Católica e enriquecer grupos arrivistas.
Surpreendente é que os judeus não percebam que a apropriação pentecostal é uma espécie de ofensa à inteligência judaica.

Peia

Depois de muito pensar
faço daqui um apelo:
deixem o burro zurrar,
mas o vigiem com zelo.
Dou-lhes uma boa razão:
quando o burro escoiceia
perde toda a noção
e pode-se pôr-lhe a peia.

Um ou outro

Nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos ou burros. (Schopenhauer, 1778-1860)

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