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Menas, por favor!

Repararam que o novo coronavírus tem mudado até o nosso vocabulário?

| ACidadeON/Ribeirao

Luiz Puntel (Foto: Mastrangelo Reino / Arquivo ACidade)

Repararam que o novo coronavírus tem mudado até o nosso vocabulário? Quem, olho no olho, sem pestanejar, me explicaria, antes da pandemia, em linguagem de em-dia-de-semana, em linguagem de pobre, como perguntaria Damásio Siqueiras, o valentão do conto roseano Famigerado, o que é mesmo comobi... comor... comorbial... - ô jisuis, me ajuda!... ah, sim, agora vai: comorbidade? 

Sim, sim, agora sabemos que comorbidade quer dizer que se o veinho que nem eu pegar a mardita, vai mais rápido porque tem insuficiência renal, trombose, rinite, sinusite, artrite e os escambaus! Nem precisamos ir ao Aurélio mais! 

Até o valentão Damásio não precisaria ir ao dotô do conto roseano perguntar o que era comorbidade. Fulano morreu de falta de ar? Damásio perguntaria e ele mesmo responderia em seguida: "Pois devia de ter comorbidade, uma diabetizinha, ou uma dose de coração disparado." 

Querem ver outra palavrinha que eu juro que ninguém sabia antes da mardita? Quem, em são consciência, saberia dizer ali, na batatolina, sem titubear, o que diabos queria dizer "mitigar"? Em Portugal, a palavra é mais do que conhecida; aqui, não. Aliás, "mitigação" foi a segunda fase portuguesa do combate ao covid-19. É o todo mundo em casa, todos os hospitais fazendo teste e a caça aos faltosos, os que insistem em se achar com histórico de atleta. 

Mitigar, agora todos nós sabemos, quer dizer diminuir, estancar, aplacar, bloquear. E, depois, os portugueses que são burros! Lá não teve direito de ir e vir, não. Rapidamente, as autoridades sanitárias, antes que o bichinho chegasse por terras camonianas, botou todo mundo pra dentro. Dessa vez, lá não vai ter "agora, Inês é morta!" 

Agora, uma coisa que me causa engulhos e sinto até falta de ar é quando escuto das "otoridades" governamentais e dos apresentadores televisivos é a concordância do substantivo "milhões". Como o vírus mudou nosso vocabulário, nosso jeito de se comunicar, nosso jeito de falar, mudou também até a numeração. É ligar a TV e lá está alguém falando de "milhões" para cima. E é um tal de anunciar que "duas milhões de máscaras" estão sendo compradas, que "as três milhões de famílias do programa...", que o benefício dos seiscentos reais chegará "às quatorze milhões de famílias, e blá blá blá..." 

Gente, não quero dar uma de professor Pasquale não, e nem tenho competência para isso, mas alguém pode avisar lá que a palavra "milhões" é masculina e que a concordância se faz, portanto, no masculino? Então, otoridades, caprichem no milhão, talkei? São "os três milhões de pessoas do programa", são "os dois milhões de máscaras", entre outras providências mais que urgentes que os senhores precisam tomar. E, como diria o nobre e circunspecto cultor da língua pátria, o emérito e magistratoso Odorico Paraguassu: "parem de cometer comorbidades linguísticas e colocar nosso já sufocado idioma pátrio na UTI da mitigação coronavirótica pandêmica. Menas falhas, por favor!" 

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Puntel, vendo os otoridades vociferarem cloroquínecos milhões e zilhões

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