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A live nossa de cada dia

Faço chamadas de vídeo com minha mãe e minha sogra, ambas viúvas, isoladas e completamente sozinhas em suas casas; Vejo, pela tela do celular, meus irmãos, amigos e parentes

| ACidadeON/Ribeirao

 
 
Fabiana Guerrelhas é terapeuta analítico-comportamental (Foto: Arquivo Pessoal)

Se tem uma coisa bem bacana dessa quarentena, são as "lives" - encontros ou reuniões virtuais em tempo real. No começo, achava estranho e até chato, mas agora estou aproveitando muito, principalmente as "lives" musicais e sociais. Sou super, ultra, mega sociável, tenho um milhão de amigos e venho me encontrando "ao vivo" com quase todos os meus grupos. Isso tem minimizado a saudade e a crise de abstinência. Faço chamadas de vídeo com minha mãe e minha sogra, ambas viúvas, isoladas e completamente sozinhas em suas casas. Vejo, pela tela do celular, meus irmãos, amigos e parentes que moram em outra cidade. Encontro gente que está bem pertinho, mas que se mantém em casa, assim como minha família e eu. E prestigio as "lives" de pessoas queridas. Minha filha mais nova fez aniversário, outro dia, e ganhou uma festa surpresa pelo computador. Olha que legal! 
Uma prima teve a brilhante ideia de reunir boa parte da família, em um desses domingos de distanciamento, para prepararmos juntos um prato famoso de uma tia idosa. Essa tia foi nos ensinando o passo a passo de um delicioso tomate "confit". O preparo é demorado e enquanto cada um cozinhava em sua casa, batíamos papo, ríamos, lembrávamos de momentos gostosos e nos comprometemos a nos encontrar de verdade, assim que possível. Foi delicioso! O encontro e o "Tomate da tia Tela". 

Sexta-feira é dia de "Happy Hour", a hora feliz, "HH". Momento de sair para beber e petiscar. Geralmente é no fim de tarde, depois do último compromisso do dia, instituindo o começo do final de semana. Mas, na verdade, pode acontecer em qualquer outro dia. Moradores de grandes cidades costumam se encontrar em bares próximos a seu trabalho com o pretexto de esperar a "hora do rush" passar. Como paulistana e botequeira, tenho esse hábito incorporado em mim, mesmo morando no interior há quase 20 anos e não enfrentar mais problemas relacionados ao trânsito. E por falar em trânsito, ele não é mais o responsável por atrasos. Estes agora se justificam por problemas tecnológicos, domésticos e de conexão. Outro dia, atrasei-me para entrar numa "live", pois calculei mal o tempo que iria gastar lavando o banheiro. Coisas da pandemia! 

Meu último "HH" foi, digamos, clássico. "Sextou", e alguns amigos da  faculdade e eu nos reunimos pelo "zoom", bebemos e petiscamos, depois de terminarmos nossos compromissos. Comi pastel, prato que facilmente teria consumido se estivéssemos em um bar. Confesso que senti, e ainda sinto, falta daquele Chopp geladíssimo servido na tulipa de cristal como, por exemplo, o do Pinguim. Só de pensar me dá água na boca! Mas me contentei com a cervejinha aqui de casa. Nas outras telas também tinha cerveja, vinho, queijos, frios, torradinhas.   Verdadeiros botecos! O grupo é composto por cinco psicólogas e seus maridos. Atualmente, sou a única que mora fora de São Paulo, o que faz com que "happy hour" com eles seja um evento bem raro. Mas mesmo assim, frequentemente nos visitamos, já que consideramos sermos uma família, criando filhos juntos e mantendo contato praticamente diário pelo whatsapp. Fazemos muita festa, viajamos, curtimos a vida e também compartilhamos as coisas sérias da vida e momentos críticos como a morte dos pais, problema financeiro, separação, doença grave. Nessa "live" estávamos distantes, mas muito próximos. Estabelecemos uma conexão acolhedora entre Ibiúna, Caraguatatuba, São Francisco Xavier, São Paulo e Ribeirão Preto. Represa, praia, montanha, cidades em que já nos encontramos ao vivo, inúmeras vezes. 

Conversa de psicólogo, geralmente, produz "papo cabeça", e na atual conjuntura, não poderia ter sido diferente. Entre um trago e outro e, após três horas falando sem parar, indagamo-nos sobre como será o mundo daqui em diante e o que vamos mudar nas nossas vidas. Concluímos que vivemos numa bolha e que por conta de nossas escolhas profissionais, somos muito privilegiados por conseguirmos continuar trabalhando remotamente e por podermos atravessar a quarentena de um jeito muito confortável. Mas, e o resto?  

E o impacto econômico para aqueles que perderam o emprego ou faliram? O que podemos fazer para ajudarmos quem precisa? Debatemos sobre a velha/nova polarização que divide o país, estando um grupo a favor ou aceitando o isolamento, e o outro absolutamente contra,
protestando para que a vida econômica volte imediatamente. O que podemos fazer para que sejam criadas pontes entre esses dois grupos, ao invés de aumentarmos o muro? Como podemos ter alteridade e sermos empáticos com aqueles que estão desesperados e, por isso mesmo, preferem arriscar o colapso do sistema de saúde sem que haja respiradores ou leitos de UTI suficientes para todos os doentes graves? Três do grupo trabalham em hospitais e estão imersos nessa triste realidade. Estão amedrontados por estarem muito próximos à zona de perigo, podendo adoecer ou serem veículos de contágio e, por essa razão, estão sendo alvos de discriminação. 

Comparamos o momento atual com outros da história da humanidade. A crise atual é mesmo, sem precedentes? Sim e não. Dois do grupo têm pais europeus que viveram a Segunda Guerra Mundial. Eles contavam que a pobreza era tanta que, às vezes, a única refeição disponível era comida estragada ou cascas de batata. Raramente comiam um chocolate que, sendo muito calórico, era um ótimo sustento. Estaríamos vivendo a Terceira Guerra? Por ser um evento global, até pode ser. Porém, estamos todos lutando contra o mesmo inimigo, o vírus. Não há um país ou um bloco contra o outro e, desse ponto de vista, somos todos do mesmo exército. Será que é comparável temermos contrair uma doença grave e potencialmente fatal com sermos bombardeados e perdermos o braço, a casa, a família, a vida? Falamos também sobre o período pós-guerra e o poder de recuperação e regeneração do ser humano. 

Certamente, novas ideias surgirão. As Grandes Guerras duraram muitos anos, a Pandemia logo, logo vai passar. Lembramos que o tsunami ocorrido em 2004, no oceano Índico, matou, de uma só vez, mais de 230.000 pessoas de catorze países diferentes e a ajuda humanitária contribuiu para a sua reconstrução.  

Questionamos sobre a veia egoísta e política do Homo Sapiens e o fato de ter muita gente revelando suas "desumanidades" como, por exemplo: fazer "buzinaço" de protesto em frente aos hospitais, ignorar medidas de segurança fazendo festa e promovendo aglomerações e aproveitar a oportunidade para fazer militância política antidemocrática; também o comportamento agressivo de pais, encurralando professores e pressionando as escolas, como se fosse possível manter o mesmo padrão educacional ou a quantidade de conteúdo; ou,
ainda, o absurdo dos absurdos, de cientistas de centros importantes de pesquisa em saúde como a Fiocruz, no Rio de Janeiro, estarem sendo ameaçados de morte por publicarem resultados contrários a determinados interesses políticos. Pensamos que, terminada a Pandemia, muita coisa vai permanecer exatamente do mesmo jeito. Uma das amigas, que trabalha com pesquisa e análise de tendências comportamentais, lembrou-nos da crise hídrica de 2014. Ela citou que, após contornado o problema, todos nós voltamos a consumir água de maneira inconsequente e excessiva.  

Costumo dizer que ser psicólogo é um caminho sem volta. Se você levar o curso a sério, nunca mais vai ver o mundo de forma leiga. Sempre vamos nos referir aos fenômenos humanos sob o enfoque de algum pensador que formulou alguma teoria que nos direciona. Como analista do comportamento, quem me orienta é Burrhus Frederic Skinner, psicólogo americano que viveu entre 1904 e 1990, criador do Behaviorismo Radical ou Comportamentalismo. Como isso aqui não é uma aula, vou me abster de explanar os meandros da doutrina, mas quero contar que muito do que foi estudado, tanto por Skinner quanto por seus sucessores, tem me ajudado a entender o que estamos passando. 

Muito, mas muito resumidamente, o ponto fundamental dessa teoria é o controle, a determinação do comportamento e a conexão intrínseca entre nossas ações e o mundo. Disse Skinner, em uma de suas frases mais célebres, e que está na ponta da língua de qualquer behaviorista, que "o homem age sobre o mundo e, por sua vez, é modificado pelas consequências de sua ação". Significa que tudo o que fazemos e sentimos, e todas as nossas atitudes são conectadas com estímulos do ambiente, ou seja, nosso comportamento é moldado pelas
contingências. Convenhamos, a contingência atual não é lá das mais amenas! Confinados, perdemos o acesso às coisas importantes e prazerosas como companhia, contato físico, direito de ir e vir, dinheiro, etc. Além de estarmos diante de uma situação incontrolável, sem saber direito o que vai acontecer. A soma dessas duas condições é potencialmente geradora de Depressão e Ansiedade. Além disso, estamos diante de uma ameaça real, porém invisível, o que pode gerar dúvida, insegurança e negação. 

A negação, ou seja, a dificuldade em acreditar na gravidade da situação e o consequente relaxamento do distanciamento social podem ser explicados por três mecanismos humanos básicos. Primeiro, somos muito influenciados pelo momento presente e pouco afetados pelas consequências que estão distantes do nosso comportamento. Sabe aquele ditado, "o homem só age quando a água bate na bunda"? Então! O contágio não é imediato, além de ser probabilístico e isso dificulta muito a prevenção. Indago-me, inclusive, como pôde o mundo inteiro ignorar a possibilidade de uma Pandemia, assistindo passivamente o que estava acontecendo, um dia na China, depois na Itália e assim por diante? O segundo ponto é que nos esquivamos de entrar em contato com o medo e isso faz com que a gente pinte e distorça a realidade, fazendo com que ela fique mais bonitinha, e menos perigosa. E a terceira razão é o poder de influência verbal de pessoas nas quais confiamos. Se eu sigo uma autoridade que nega o problema, provavelmente farei o mesmo. 

Como viram, a conversa naquele "happy hour" rendeu. Esse já é o terceiro artigo que escrevo nessa quarentena e eu até tinha vontade de falar de outra coisa, mas não tem jeito, por enquanto não há nenhum assunto mais importante que esse. Vamos, então, levando assim, entre uma "live" e outra, esperando os acontecimentos, tentando manter a razão, a calma e a serenidade, fazendo o que for preciso e possível no momento, vivendo um dia de cada vez.

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