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Fazendo um pequeno ruído

Com o distanciamento social já em pleno vigor no início de abril chegaram da gráfica três caixas contendo 150 livros.

| ACidadeON/Ribeirao

Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Com o distanciamento social já em pleno vigor no início de abril chegaram da gráfica três caixas contendo 150 livros. "O ruído do inquieto", minha primeira incursão no segmento editorial, tinha até data de lançamento marcada numa grande livraria da cidade. Como tudo mais, foi cancelado, mas não abandonado. Depois de duas semanas encaixotado aguardando notícias de um futuro cada vez mais imprevisível, o próprio "Ruído" começou a fazer barulho exigindo sua imediata disponibilização a eventuais leitores interessados. 

Acatei o estrondoso chamado e, em apenas uma semana, organizei um lançamento virtual via live no Instagram e divulgação à imprensa. Vários veículos difundiram a notícia, inclusive ACidade ON e Rádio CBN, trazendo a novidade, repercutindo o conteúdo da publicação e reforçando seu alcance solidário. Isto porque a venda dos 100 primeiros exemplares estaria destinada ao Cantinho do Céu, instituição filantrópica de Ribeirão Preto especializada no atendimento de pacientes com paralisia cerebral. 

O livro é uma coletânea de 29 textos escritos ao longo das duas últimas décadas agora reunidos em cinco seções temáticas. Destaque para grandes aventuras nas quais me meti, como escalar o Aconcágua, a maior montanha das Américas com 6.960 metros de altitude localizada na Argentina, e o Kilimanjaro, maior montanha da África, com 5.890 metros de altitude situado na Tanzânia. Trago ainda relatos de minhas jornadas à Antártida, de veleiro, em 2019, e ao Nepal, em 2015, quando por pouco escapei com vida de um devastador terremoto que vitimou quase 10 mil pessoas. 

Entre outras peripécias, levo o leitor a participar de duas provas esportivas de grande intensidade física e mental: o Ironman 2003, em Florianópolis, com seus 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida; e a Maratona de Paris de 2008, com seus 42 km por lindas avenidas e monumentos históricos. Mas o livro também traz poesia e textos que misturam História e memória, abarcando assim diferentes temas e estilos para distintos gostos e idades. Como aborda muitos momentos de superação, medo e mesmo distanciamento, relatando experiências de isolamento na alta montanha e nos mares do sul, julguei conveniente lançá-lo agora, em plena pandemia e quarentena, para que os possíveis interessados pudessem refletir sobre esses momentos tão extremos quanto reveladores de nosso comportamento. 

A boa surpresa foi que, em apenas uma semana, superamos a marca de 100 livros vendidos. Além disso, um doador que prefere se manter anônimo comprou o equivalente a outros 100 livros e assim pude incluir uma nova entidade a ser contemplada com os recursos obtidos, a creche Casinha Azul. Nessa próxima semana faremos - uso aqui a primeira pessoa do plural porque foram cerca de 100 compradores - a doação de mais de R$ 6 mil a essas duas entidades, que certamente estão necessitando de maior apoio neste delicado período. 

Conciliar cultura e solidariedade em tempos de coronavírus é um santo remédio. As horas passam mais suaves e o trabalho braçal de se lançar um livro quase sozinho - cabe aqui registrar a ajuda da mulher e do filho confinados - ocupa qualquer vazio existencial. São dezenas e dezenas de dedicatórias, conferências múltiplas de depósitos e transferências bancárias, envelopes preenchidos, livros despachados via motoboy e idas ao correio para postagem e envio, além de inúmeras trocas de mensagens de whatsapp, produção de conteúdo para as mídias sociais e participação em lives. 

Estas últimas estão na moda e representam um eficiente formato de comunicação atualmente. Na realidade, já há um excesso delas, mas tem espaço para todo mundo. Na live de lançamento de "O ruído do inquieto" no Instagram, no dia 16 de abril, tive uma proveitosa conversa com o amigo e atleta Tuco Chaves. Ao longo de meia hora, passaram pelo nosso bate-papo quase 160 pessoas, com uma média de retenção de 50 a 60 interessados no decorrer do diálogo em que contei alguns episódios e passagens do livro. Nada mal para uma estreia, mas nem pensar nos milhões de fãs que acompanham as lives sertanejas... 

Livro lançado e ação social em curso, já estou pensando no próximo. Porque bons projetos nos envolvem em pensamentos mais positivos e nos afastam de zonas de conflito mais evidente. Este presidente que aí está não dá mais - já se foram, no calor da pandemia, Mandetta, Moro e, logo mais, pelo andar da carruagem bolsonarista, será Paulo Guedes. Alguém que só se alimenta de confronto definitivamente não faz bem à nossa saúde. Além do desrespeito ao bom senso e à democracia, é muito barulho para pouco resultado. Prefiro ficar com meu ruído... 

*Gustavo Junqueira Jr / Jornalista


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