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A cada tombo de Bolsonaro fala-se mais forte sobre impeachment

O impeachment depende do vice, Hamilton Mourão. Não porque ele é general de quatro estrelas, mas porque é quem pode forçar os indecisos a se posicionarem

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
País das fachadas

A cada tombo político de Bolsonaro fala-se mais fortemente sobre o impeachment. Segundo os analistas tudo depende do Centrão: se os deputados do baixo clero se associarem ao presidente, ele fica. Se não, cai. Ledo engano. 

O impeachment depende do vice, Hamilton Mourão. Não porque ele é general de quatro estrelas, mas porque é quem pode forçar os "indecisos" a se posicionarem. Se Mourão decidir, fará exatamente como Bolsonaro está fazendo para permanecer na presidência: negociando cargos e verbas com o Centrão. A lição é recente: foi o que Temer fez para derrubar Dilma. Acontece que Dilma era do PT e tinha a Lava Jato contra. Mas Mourão, se não tem Sérgio Moro, conta com a própria fragilidade política da base bolsonarista e, mais ainda, a imprevisibilidade do presidente, que se manifesta tanto em atos mais ou menos irracionais, como na proteção aos filhos e atitudes claramente amalucadas na sua conduta na epidemia do coronavírus. Mas será que Mourão tem sede de poder e é um potencial conspirador, como dizem os filhos de Bolsonaro? Mais parece que ele é o bombeiro que os militares introduziram no Planalto. 

Além do mais, como toda a "classe política" e os generais entendem, não é a hora. Não porque eles acham que o momento é de se concentrar na epidemia, mas porque esperam que vencido o coronavírus poderão explorar a crise econômica, que não será brincadeira.
O impeachment no Brasil é um golpismo legalmente disfarçado, usado por todas as correntes políticas. Em tempos normais o PSDB e o PT, com os partidos mais ou menos afins ideologicamente, seriam os coordenadores do impeachment. Na prática atual é a direita populista que disputa a permanência ou não de Bolsonaro. Não se trata de maioria ou minoria, de convicções ou de indícios de corrupção, mas de interesses em que tanto os tucanos quanto os petistas não conseguem interferir. 

Dessa vez, se o pato da Fiesp sair flanando pela avenida Paulista pode levar umas pedradas. No país da conciliação, onde tudo termina em pizza mesmo quando se excluem alguns parceiros da mesa, tudo se arranja. E os militares temem o povo nas ruas. Eles não percebem que não há "povo". Só gente que grita nas redes sociais e, no máximo, atira pedras e quebra algumas fachadas de vidro. Aliás, no Brasil quase tudo é fachada. Até a facha presidencial. 


Dona Bela do Planalto


O que leva alguém à incontinência mental como a apresentada pelo presidente do Brasil? A "impetuosidade" para falar besteira a partir do nada é uma característica do "caso" Bolsonaro. Quarta-feira ele afirmou nas redes sociais que a OMS (Organização Mundial da Saúde) aconselha as crianças de 4 a 6 anos a se masturbarem. Por isso, concluiu, ele não deveria seguir suas recomendações no combate ao coronavírus. Alguém mais lúcido (o que é difícil na sua turma) ou menos "corajoso" deve ter aconselhado a apagar o post, que sumiu em poucos minutos. Antes, o irmão do ministro da Educação, Arthur Weintraub, assessor especial da presidência (é um governo familiar) compartilhou o texto. Bolsonaro leu sem entender ou alguém "soprou-lhe" um trecho do livreto publicado em 2010 pelo Centro Federal de Educação em Saúde, da Alemanha, dirigido aos pais, informando sobre a sexualidade infantil. 

A OMS nem de longe incentivou a masturbação infantil (aliás, nem é preciso, mas é bom não lembrar para não escandalizar os crédulos em mula sem cabeça). O texto alemão, recomendado pela OMS para a orientação dos pais, informa que aos 2 ou 3 anos as crianças são curiosas com seus corpos e percebem as diferenças entre elas e os adultos. Nessa fase desenvolvem sua identidade de gênero (expressão satânica para os simplórios moralistas). Em nenhum momento fala-se de masturbação. 

O bestialógico de Bolsonaro não é apenas bizarro: em vez de nos ocuparmos essencialmente com a epidemia que mata milhares de brasileiros perdemos tempo com seus desvios malucos. Mas Bolsonaro, como a Dona Bela da Escolinha do Professor Raimundo, "só pensa naquilo. 


O perigo ronda Ribeirão

Cidades que relaxaram a quarentena apresentaram aumento exponencial de contaminação pelo coronavírus e a consequente ameaça de colapso no sistema de saúde. O caso mais conhecido é de Blumenau. Ribeirão Preto, cuja população relaxou quase ao ponto da irresponsabilidade, prepara-se para liberar geral. A coisa pode complicar: somos 700 mil habitantes a maioria nos bairros periféricos, sobrevivendo em condições sanitárias perigosas. Sem contar as favelas e "ocupações". Pode ocorrer uma calamidade.
O coveiro

E daí? Não sou coveiro,
disse o nosso presidente
alegre e alvissareiro
e sorriu, indiferente.

Na imensa vala comum
aberta pela escavadeira
sempre cabe mais um:
coisa mais corriqueira.

A morte com sua foice
destaca o ódio insano
do idiota que dá coice
e nem parece humano.

Um dia tudo se esquece,
mas fica a grande ferida
de quem agora padece
nessa pátria corrompida.

Será que aprenderemos
desse momento tão vil
que a política que temos
é a maldição do Brasil?
 

O mandão

Se quiser botar uma prostituta no meu gabinete, eu boto. Se quiser botar a minha mãe, eu boto. É problema meu. (Jair Bolsonaro, quando era deputado e o STF não se preocupava com ele) 
 
 
*a opinião do colunista nem sempre reflete o posicionamento do ACidade ON

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