Aguarde...

Colunistas

Como diz Luis Fernando Veríssimo: Poesia numa hora dessas?!

Sim, poesia mais do que nunca. Arte mais do que nunca. Embora o entorno não recomende. Tanto o entorno oficial como o real

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab
  

Vinicius na quarentena  

Como diz Luis Fernando Veríssimo, no título de seu livro obrigatório, "Poesia numa hora dessas?!". Sim, poesia mais do que nunca. Arte mais do que nunca. Embora o entorno não recomende. Tanto o entorno oficial como o real. 

O oficial, porque está quase decretado que arte e cultura são coisas menores, para não falar dos outros adjetivos usados de maneira incrivelmente abusada, de triste memória, e que me recuso a reproduzir aqui. E sem contar aquele discurso copia-e-cola do Caminho Suave alemão dos anos 1930, com os dois pezinhos metidos na intolerância e na falsa ideia de grandeza. 

O real, porque a letalidade do coronavírus atropelou qualquer sonho de arte. Das históricas feirinhas de artes e artesanato espalhadas pelas praças do Brasil e do mundo, sustento de tantos artistas e artesãos, aos museus cinco estrelas e salas multiplex de última geração. Do teatrinho poeira do bairro aos palcos mais badalados da Broadway.

Não sobrou que possa provocar filas, cadeiras coladas, aplausos, beijaços no escurinho do cinema, olhares de admiração, descoberta ou espanto diante da pintura ou da escultura. Olhar pelo computador pode ate ser interessante como bagagem, vá lá. Mas e todo o, como direi, "ar" que se respira em ambientes criados para a exibição de coisas que nos enchem a alma de esperança na humanidade pela via da beleza, da diversidade e do encantamento? Como diria minha sobrinha Ana Luiza, aos dois anos, "cabô!".

Então vamos de poesia. Não qualquer uma, mas a poesia superior de Vinicius de Moraes, que há exatos quarenta anos, em 9 de julho de 1980, foi embora muito cedo, aos 66 anos, e deixou uma obra linda, orgulho da literatura e da música nacionais, e de tudo o mais que se dispôs a fazer. E como ele fez! Vinicius produziu joias para o cinema, para o teatro e televisão, e sua percepção do palco, fosse para musicais ou dramas, é lendária no meio artístico. Querido por todo mundo, exagerado, polêmico, genial e um epicurista em tempo integral, Vinicius amou seus amigos com força e deixou tamanha paixão documentada, em prosa e verso.

Não consigo imaginá-lo em tempos de pandemia. Como nasceu em 1913, deve ter passados bons pedaços da sua primeira infância trancado. Naquele tempo, na segunda década do século 20, a Gripe Espanhola estava do lado de fora da janela do mundo e também atropelou e matou em uma escala assustadora, na casa dos milhões. Mas Vinicius era uma criança e, se viu cenas horrorosas e gente morrendo aos montes, deve ter transformado tudo em poesia, como a sensacional e dramática "Balada do Mangue", que é sobre prostituição e é triste, mas é de uma beleza arrebatadora.

Também é o caso de "Amigos Meus", que reproduzo abaixo. É alegre e é triste. Tem humor e medo em medidas iguais. E tem uma estranha relação com o dias pandêmicos de hoje, até mesmo profética, não fosse o texto escrito em 1964, ano bissexto, como 2020. Então vamos de Vinicius de Moraes, vamos de poesia, vamos de arte e vamos de amigos. O resto não vale muito a pena.
 

Amigos meus

Vinicius de Moraes


"Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.

Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! - porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós - eu próprio, quem sabe? - de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso - quando se comemora o 1964° aniversário de um Judeu que acreditava na Igualdade e na Justiça - de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que - pombas! - não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na grande vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente - e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! - que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram nenhum mal.

Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes, o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de 50 anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Mas sobretudo não morrais, amigos meus!"

Mais do ACidade ON