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Domingo, sem falta, lá em casa

Tenho sido um soldado no combate ao Covid-19. Não dou chance ao bicharoco minúsculo e repugnante que nos consome em limpezas, neuras e reflexões

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab

Tenho sido um soldado no combate ao Covid-19. Não dou chance ao bicharoco minúsculo e repugnante que nos consome em limpezas, neuras e reflexões. Saio de casa para trabalhar na EPTV, para compras no mercadinho, que fica a quinhentos metros de onde moro, e para comer as receitas deliciosas da minha cunhada, Isa, casada com meu irmão Marcelo, já que somos quase vizinhos de muro. No último sábado, ela preparou um pão de espinafre e temperos frescos que me tirou do sério. No mais, não saio para nada. 

Mas, no último domingo, ali pela horinha do crepúsculo, que é a que eu mais gosto depois das auroras deste Outono tão único na vida de todos nós, falhei na vigilância. E falhei em grande estilo, falhei au grand complet, de braçada. 

Falhei porque recebi a foto da mesa com receitas árabes preparadas pelo meu irmão Maurício, mais os filhos Gabriela e Maurício (ele menos que ela, mas ambos cresceram cercados da fusão gastronômica ítalo-árabe, em uma casa em que a comida bem feita é uma regra sublime).
De todos nós lá em casa, que gostamos de reunir gente e cozinhar com alegria, Maurício é o melhor, o anfitrião mais dedicado. É intuitivo. É caprichoso. Generoso e calmo, duas grandes e necessárias características para quem anda perto dos calores de uma cozinha e prefere ver os outros comendo a fazer a sua própria refeição. Bem, ele consegue fazer as duas coisas... Mas se tivesse que escolher entre as duas, certeza que ele ficaria com a primeira. 

E o que mostrava a foto? Tudo aquilo que amo em se tratando do tipo de culinária que comi (que todos nós, os sete filhos, comemos) mesmo antes de nascer, ainda na barriga da minha mãe. Era uma imagem para as redes sociais. Ao contrário de mim, eles são muito ativos no mundo virtual e gostam. A rigor, não era um convite, mas fiz de conta que era. Liguei para a Gabriela e perguntei se eu podia passar por lá, com meus litros de álcool gel e papel toalha, toc, toc, toc. Nem terminei a frase e o convite foi feito. E lá fui eu. 

Ali, entre aromas, texturas e sabores tão familiares, tão nossos e tão universais, que chegaram há mais de um século com os primeiros imigrantes sírios e libaneses, e que foram adotados com vontade e força pelos brasileiros, eu só pensava nos domingos felizes que passamos com nossos pais, com a mesa farta e saborosa, quase sempre com parentes e amigos, e toda uma tradição que sempre cultivamos à nossa maneira. Eram domingos tão nossos, tão cheios de vida, tão pai, tão mãe. 

E enquanto Gabi falava de seus primeiros passos nos prazeres de cozinhar ao lado do pai (bendita herança, tão valiosa), e Maurício, o filho, contava sobre a viagem que todos fizeram no início do ano para Beirute, eu os via como réplicas dos avós, tanto os Mondelli (Rosa e Mario, tão queridos), como os Kassab (Leila e Álvaro, nossos pais). Vi em ambos a felicidade e o prazer de receber, que o pai e a mãe deles, Valéria, souberam ensinar e transmitir tão bem. 

Ao entrar no carro para voltar para casa, também voltei para outro domingo, em maio de 2001, 13 de maio de maio de 2001, Dia das Mães. Tudo combinado, iríamos todos, filhos, netos, noras e genro, almoçar com nossa mãe no restaurante DElisa, em Campinas. No sábado, dia 12, ela já se mostrara bastante indisposta. Mas foi mesmo no domingo, quando cheguei para levá-la ao restaurante, que percebemos a gravidade da situação. Não sabíamos, mas não teríamos outro domingo com ela. 

Incrédulos e iludidos por uma melhora do quadro geral no meio da semana, não pensávamos no pior. Só queríamos vê-la bem e com saúde. Aos 71 anos, continuava a ser, até a véspera do primeiro mal estar, o dínamo de sempre, a mulher que fez da casa e dos filhos um mundo do qual se orgulhava. A mulher que era a tia mais querida, a amiga de todas as horas, a dona de um sorriso que espalhava energia. Tive amigos que diziam a ela, na maior sem-cerimônia, que gostariam que ela os adotasse formalmente. Ela ria e, para meu desespero (como assim? Ela já tinha sete filhos!!!), dizia "adoto!, é claro que adoto!!). E o fã-clube nunca parou de crescer. 

Horas antes de sua morte, na sexta-feira seguinte, eu estava dentro da igreja matriz de São Sebastião, em Valinhos, quando Marcelo telefonou e pediu que eu fosse para o hospital, que estavam todos lá. Percebi que podia ser o pior, mas não imaginava que era uma questão de horas. 

Com a confirmação, saí do hospital e fui voando para a casa que ela transformara em seu castelo de amizades, sabores, confiança, perdão, abrigo, dignidade, respeito e, sobretudo, dedicação à família. Entrei no quarto, abri o guarda-roupa e me afundei entre os cabides com suas roupas, chorando como nunca chorei, buscando, quem sabe, um momento mágico que talvez a trouxesse de volta. 

Não a vi, mas a encontrei em uma de suas marcas registradas: suas roupas "de sair" tinham o cheiro inconfundível do perfume Je Reviens, do atelier francês Worth, um aroma clássico entre algumas mulheres da família. Je Reviens significa "eu volto", mas também pode significar, a depender da frase, "eu me recordo". Já que não é possível trazê-la de volta, tudo o que eu queria e quero até hoje é não me esquecer. 

Não quero me esquecer dos domingos lá em casa. De nós dois em Buenos Aires (a cidade que sempre quis conhecer). Das mãos e pés exaustos de tanto trabalhar para ajudar no sustento dos filhos. Das festas em família, quando nós dois dançávamos de tudo e éramos a alegria da pista. Das aulas de solidariedade e do sentimento de amizade. Da braveza em dias menos bons, das broncas e castigos em dias um pouco piores. Do momento em que a deixei no aeroporto para uma longa viagem pela Europa e ela, feliz como nunca, sendo transformada em mascote do grupo. 

Não quero me esquecer da sua curiosidade por tudo. Da saudade crônica que ela tinha de São José da Bela Vista, de Franca e de Guaxupé, das amizades, dos parentes. Da dedicação aos netos e netas, dando pedacinhos de pão sírio e acompanhando, cuidadosa e carinhosa, a mastigação dos pequenos. O mesmo pão sírio que ela, por vezes, amassava e assava antes de sairmos para a escola ou para o trabalho, enchendo a casa do cheiro fabuloso daqueles pedaços quentes de felicidade que faziam a coalhada seca amolecer, a manteiga derreter e que tornavam nossos dias em dias melhores. 

Jamais quero me esquecer dos domingos lá em casa. Num mundo bloqueado, de fronteiras fechadas, espaços aéreos cancelados e certas "lives" que deveriam ser proibidas pela saúde pública, os domingos lá em casa são a minha aula diária de um outro mundo, agora tão distante. Não necessariamente melhor, mas jamais pior. 

No Dia das Mães de 2020, tudo o que eu queria era ter um domingo lá em casa, com todos nós. E ser recebido por ela e por suas mãos carinhosas e firmes, que segurariam meu rosto antes de me dar um beijo. Depois, viria a melhor comida do mundo. No ar, ficaria o leve toque de Je Reviens. Sabemos que ela não voltará, mas nós jamais a esqueceremos.

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