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Não nos calaremos!

Cala boca! Esta polida expressão foi dirigida por Bolsonaro a jornalistas dois dias após repórteres terem sido agredidos enquanto trabalhavam

| ACidadeON/Ribeirao

Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
  
Não nos calaremos!  

Cala boca! Esta polida expressão foi dirigida por Bolsonaro a jornalistas dois dias após repórteres terem sido agredidos enquanto trabalhavam na cobertura de uma pequena manifestação em frente ao Palácio do Planalto que pedia, entre outras coisas e sob o olhar contemplativo do nosso chefe do Executivo, o fechamento do Congresso e do STF e intervenção militar. O presidente demonstrou mais uma vez sua visão restrita de mundo, desconhecimento da importância e funcionamento da imprensa numa democracia e despreparo para ocupar o cargo mais importante da Nação. 

O cenário vai se tornando mais transparente e as instituições precisam agir com rigor para responder a ameaças tão frequentes ao regime democrático. Comecemos com as manifestações. Quem são estas pessoas que vociferam e pedem a reedição do AI-5 e um golpe militar? Gostaria de ler um texto de algum líder destes pretensos patriotas, escondidos atrás de fantasias verde-amarelas, para entender o que propõem. Talvez um artigo em que desenvolvessem uma teoria articulada e baseada em fatos e que não apenas xingassem e acusassem os comunistas de estarem por trás de um plano mirabolante de dominar o mundo. Qual noção possuem de processo histórico, separação de poderes, avanço civilizatório, Revolução Francesa, nazismo e fascismo, História brasileira e mundial? 

Ok, deixa eu compreender: a gente institui um AI-5 versão 2020, implode o Legislativo e cerra as portas do STF. Aí o Bolsonaro assume com plenos poderes, acaba com a Globo e a Folha, prende um milhão de esquerdistas e todos os problemas do Brasil são resolvidos. Simples assim! Seremos uma Nação próspera, feliz, sem pobreza e cultuando diariamente os valores da pátria e de Deus. É nisso que acreditam? Não possuem um mínimo de bom senso para perceber o papel ridículo e patético que desempenham? O mais impressionante é ver Bolsonaro de olhos quase marejados acenando e cumprimentando os manifestantes identificando-os como a maioria do "povo brasileiro". 

Fico aqui pensando se, numa hipótese maluca, simpatizantes do estupro e da pedofilia, vestidos com roupas com as cores da bandeira nacional, se manifestassem em frente ao Palácio do Planalto exigindo o fechamento do Congresso e do STF e o direito de exercerem livremente suas vontades, já que a condenação de seus atos poderia ser atribuído a um dogma apregoado pelo Foro de São Paulo. O presidente diria que estes patriotas estavam apenas exercendo seu direito de livre opinião? 

Também me esforço para decifrar Olavo de Carvalho. Alguém com tamanha bagagem intelectual e leitor compulsivo, autor de livros que trazem um pensamento digno de interpretação, como pode ter se tornado uma pessoa tão repulsiva e sinistra? Transformou-se numa figura sombria que se deleita com a ofensa, a humilhação e consegue gerar seguidores quase religiosos e que perdem a capacidade de questionar, o que os tornaria traidores execráveis da causa. Ai que falta de pensadores de direita que consigam atrair pessoas deste espectro ideológico, mas dentro do terreno da sensatez e que possam ofuscar os extremistas cada vez mais com as manguinhas de fora! 

Bolsonaro é o líder deste pequeno mas ruidoso exército de desmiolados, iletrados, psicologicamente atormentados e despreparados para qualquer diálogo. É a vontade deles ou nada! E cada vez vai ficando mais claro, pelas ações, declarações e comportamento do presidente, quem ele é, o que deseja e do que é capaz. Não vou explorar as atitudes de rompimento com Mandetta e Moro e o desligamento destes ministros em plena pandemia, quando mais precisávamos de uma liderança agregadora para comandar o país em momento tão delicado. Vamos investigar um Bolsonaro mais subterrâneo e o que passa em sua cabeça e mente quando deita para dormir na cama no Palácio da Alvorada mantendo um revólver carregado na gaveta próxima. 

A ficha me caiu durante a semana quando nosso primeiro mandatário recebeu no Planalto o velho Major Curió. Para quem não sabe, o militar atuou na repressão à Guerrilha do Araguaia, de 1972 a 1974, promovida pelo PC do B, e foi bastante eficiente em sua missão, claro, usando a ferramenta da tortura nos interrogatórios. Hoje, enquanto os Estados do Pará e do Amazonas somam dezenas de mortos por dia em razão da Covid-19, ao invés de se encontrar com um governador ou agentes de saúde que enfrentam a pandemia naquela região, Bolsonaro prefere bater papo com o algoz dos comunistas à época da ditadura. 

Não foram poucas as vezes em que o presidente alardeou que seu ídolo é Brilhante Ustra e seu livro de cabeceira "A verdade sufocada", no qual o ex-comandante do DOI-CODI de São Paulo de 1970 a 1974 dá sua versão tendenciosa e repleta de omissões do combate à subversão. Para que o leitor tenha uma ideia, neste aparato da repressão morreram aproximadamente 50 pessoas sob tortura e outras cerca de 2 mil foram interrogadas entre ameaças, bofetões e choques elétricos. Não era incomum Ustra deixar seu gabinete, descer para a masmorra, acompanhar parte do interrogatório desumano do terrorista ou suspeito e retornar tranquilamente para suas atividades de comando da instituição. E isso ocorreu quase que diariamente durante quase quatro anos. Ele é, juntamente com Olavo de Carvalho, a grande referência de coragem, inteligência e atitude do presidente. 

Curioso que havia no início dos anos 70 em São Paulo um empresário de origem dinamarquesa, Henning Boilesen, que colaborava com a repressão arrecadando fundos e oferecendo equipamentos mais modernos de dar choque. Em troca, desconfia-se que ele pedia para assistir aos interrogatórios para se regozijar por horas a fio com o sofrimento do torturado. Sadismo puro! Esta maldade teve um preço: os terroristas, em abril de 1971, cercaram e perseguiram o empresário nos Jardins em São Paulo e o executaram com vários tiros. 

Minha desconfiança: Bolsonaro sonha em fazer como seu ídolo Ustra, ou seja, poder assistir a interrogatórios sob tortura de comunistas e adversários. E, como Boilesen, desfrutar destes momentos já que nos tempos áureos da ditadura e do AI-5 o atual presidente, pela então pouca idade, perdeu a "oportunidade" de participar de atividades tão nefastas. Atenção Rodrigo Maia e STF: hora de abraçar a coragem e botar um fim nos abusos contra as instituições e a democracia! Hora de desengavetar o processo de impeachment, enfrentar o Centrão, colocar os extremistas em seu devido lugar e mostrar que, se o Executivo pode muito, não pode tudo! Não nos calaremos! 

*Gustavo Junqueira Jr é jornalista

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