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Luiz Puntel: Nós e o experimento de milgram

Tomemos o exemplo dos negacionistas científicos, que afirmam e juram de pés juntos que este tal de coronavírus é uma mentira, balela, história para boi dormir

| ACidadeON/Ribeirao

Professor e escritor Luiz Puntel

Não adianta procurar no Vocabulário Ortográfico. A palavra não é dicionarizada e, portanto, não existe em nossa língua. No entanto, os negacionistas, que negam seja lá o que for, estão por toda parte, aqui, ali, lá, e talvez até mesmo sejamos um deles. 

Tomemos o exemplo dos negacionistas científicos, que afirmam e juram de pés juntos que este tal de coronavírus é uma mentira, balela, história para boi dormir. Negam a realidade, negam a ciência, criam factoides e espalham mais fake news do que a disseminação do próprio vírus. 

Os óbitos somam mais de 50 mil e os negacionistas postam em suas redes: "é, mas a maioria nem tem notificação de que é a tal da covid" ou "muitos dos mortos tinham diabetes, hipertensão, comorbidades outras, menos infecção por um vírus que, na verdade, é uma mentira."
Outros negacionismos há, evidentemente. Um clássico é a negação do Holocausto, que, segundo os negacionistas, é uma deslavada mentira dos judeus. 

É este tipo de postura que - alô, Goebbels! ,- repetida mil vezes, se torna uma verdade, não? E lembro aqui do pesquisador Stanley Milgram e seu experimento em Yale, uma das mais renomadas universidades do mundo. 

Ele queria saber como pessoas ditas normais, como eu e vocês, leitores, de repente, matamos alguém, simplesmente porque cumprimos ordens superiores. Como? Acalmem-se, leitores, não os acuso de serem criminosos. Leiam o parágrafo e percebam que me incluo na hipótese. Isso os acalma momentaneamente? 

Agora, que eu e vocês somos assassinos em potencial, lamento informar que sim, que, naquelas mesmas circunstâncias do experimento de Milgram, dificilmente deixaríamos de acionar o botão de choque fatal ao nosso parceiro do experimento, do outro lado da sala. 

Ficaríamos até em dúvida se acionaríamos ou não o fatídico botão, mas o olhar inquisidor e censório que o coordenador do experimento nos lançaria, obrigando-nos a continuar, colocaria por terra qualquer dúvida. Sim, provavelmente acionaríamos o botão letal. 

Voltemos ao negacionismo científico? Se, no experimento de Milgram, mataríamos em nome do avanço da ciência, os negacionistas assim agem, como se o vírus não fosse também letal, mas uma história da carochinha para enganar trouxas. 

Ao andarmos sem máscaras - e até brigarmos para não usar -, ao lotarmos os centros de compras, ao irmos para festinhas, mesmo particulares, não estamos tomando uma atitude tão perigosa quanto o do apertar o botão do experimento de Milgram?

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Puntel, pedindo ao leitores que metam o dedo no "enter" do youtube para assistir ao "experimento de Milgram".

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