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Julio Chiavenato: Ribeirão Preto pode ter 3.500 mortes?

A OMS deu as diretrizes e os médicos e cientistas explicam; A população não acredita; Comerciantes querem vender; Políticos preferem votos; A vida que se dane

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Os lemingues, pequenos roedores dos países escandinavos, reúnem-se em bandos e disparam para o precipício. Caem no mar e morrem. Pensava-se que eles eram suicidas. Descobriu-se que o problema é a falta de alimento: para procurar o que comer desorientam-se e despencam dos penhascos. Ao desprezar os cuidados na prevenção do covid-19 a maior parte da população de Ribeirão Preto debocha da morte e caminha para o cemitério. Talvez acreditem que vão para o céu. Nós, provavelmente cairemos no inferno pela irresponsabilidade dessa gente. Os ribeirão-pretanos seriam lemingues sem motivação a não ser saciar suas ilusões?  

O covid-19 mata santos e pecadores. O que fazer? 

Pra começar, ouvir quem sabe salvar vidas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) deu as diretrizes e os médicos e cientistas explicam claramente como a pandemia funciona. A população não acredita. Os comerciantes querem vender. Os políticos preferem votos. A vida que se dane. 

O doutor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência e Saúde da USP, na quinta-feira, no Jornal da EPTV, tratou da probabilidade da expansão do vírus em Ribeirão Preto, se as coisas continuarem como nos últimos dias. Como 50% dos testes deram positivo e o aumento da doença só se estabilizaria quando baixarem para 5%, previu que em dez semanas chegaremos a 300 ou 400 mortes por dia. Nos meados de setembro teremos quase 3.500 mortos. 

É terrível. 

Uma previsão dessas deveria preocupar as autoridades com poder para impor medidas que evitassem a calamidade. Além de ser examinada em todos os aspectos, na esperança que talvez não seja tão trágica a expectativa do professor, que é reconhecido internacionalmente.
Mas, a pandemia mostrou a incompetência política para defender a saúde pública. Enquanto os profissionais sabem o que fazer, e fazem, mesmo enfrentando dificuldades oriundas das omissões dos políticos, os prefeitos, por exemplo, aplicam e cancelam "regras" sem a menor convicção e atendem quem nada vê além dos seus interesses duvidosos. 

É o defeito do sistema: estão acostumados a paparicar quem vota e entendem como empecilhos aqueles que por postura profissional e científica contestam a irracionalidade política. 

Volta a pergunta: o que fazer? 

Para médicos, profissionais da saúde, enfim, todos os envolvidos cientificamente no exercício de salvar vidas, a resposta é isolamento social rigoroso e seguir as orientações da OMS. Porém, do presidente da república aos vereadores, passando por governadores, deputados e prefeitos, que poderiam fazer a diferença, a história é outra. Eles esticam o ouvido para os insensatos que, afinal, votam. 


Da emergência à desgraça: nada

Essa pandemia mostrou a cara do Brasil: nas emergências não sabe o que fazer e na desgraça nada faz. Quando tudo passar (passará?) teremos uma economia reduzida a migalhas, para as médias e pequenas empresas. Qual o plano para socorrer os micros e médios empresários e desempregados? Nenhum, limitando-se o Posto Ipiranga a prometer grandes privatizações. 

Como diria o messias, e daí? Daí que o governo se conseguir vender o que resta do patrimônio nacional, encherá as burras e terá mais grana para comprar o centrão. Desde a privataria de Fernando Henrique ao desmazelos lulistas, estamos como sempre: os pobres com uma mão na frente e outra atrás. E os milhões de desempregados continuarão a correr atrás de um "app", com os papagaios do sistema financeiro convencendo-os de que agora, sem direitos trabalhistas e com salários rebaixados, foram promovidos a "empreendedores". A farsa se repete. 


Sim, senhor!

Nunca perca a esperança
pois o mundo é tão bom;
quem espera sempre alcança,
obedeça e não mude o tom,
diga sim, muito obrigado,
curve-se até ficar corcunda
que será recompensado
com um pontapé na bunda.
 

A última que morre

"Eu pretendo viver para sempre, ou morrer tentando". (Groucho Marx, 1890-1977)

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