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Rodrigo Stabeli: O diabo conseguiu chegar no céu

A covid-19 teve seu início na cidade de Wuhan na China no final de 2019 e tomou proporções mundiais em menos de 70 dias, quando a OMS decretou pandemia em 11 de março

| ACidadeON/Ribeirao

Rodrigo Stabeli, Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCARe consultor da OPAS/OMS

"Mala aria"ou "maus ares" eram os termos utilizados pelos italianos, principalmente por aqueles que moravam no Sul da Itália e Ilhas de Sardenha, para descrever a febre que vinha pelo ar. Isso pelos idos do século XVIII. O mal que vem do ar teve seu progresso científico com a descoberta do parasita que transmite a malária, um século depois, pelo médico e cientista francês Charles Louis Alphonse Laveran, que observou pela primeira vez, a presença de um parasita dentro dos glóbulos vermelhos de nosso sangue. Depois se descobriu que o mal do ar, ou seja, a malária, era transmitida por um mosquito vetor que se proliferava nas áreas pantanosas daquela região. Uma descoberta que levou mais de 100 anos. A malária chegou na América do Sul através do triste comércio de escravos feitos por navios negreiros. 

Com a globalização do século XXI e a facilidade de locomoção feita pela malha aérea mundial, que ligam os pontos mais distantes da Terra em menos de 30 horas, "o maus ares" é ressuscitado com a pandemia do novo coronavírus. A covid-19 teve seu início na cidade de Wuhan na China no final de 2019 e tomou proporções mundiais em menos de 70 dias, quando a OMS decretou pandemia no dia 11 de março de 2020. De fato, se ainda dependêssemos de caravelas para cruzar os continentes, essa doença não teria tal dinâmica avassaladora. 

A covid-19 se alastrou pelo mundo, sendo carregada pela classe mais abastada com condições de pagar transporte aéreo, e chegou assim aqui no Brasil, tendo como foco de origem as principais capitais com malha aérea internacional, São Paulo, Fortaleza, Recife e Manaus. A pandemia teve seu curso no Brasil saindo da classe abastada e tomando rumo à classe vulnerável, mesmo porque o rico não abre mão de sua empregada doméstica e do motorista, não é mesmo? O fato é que, para um país continental, a vigilância de uma doença de tamanha proporção deveria ter uma coordenação central pelo Ministério da Saúde, autoridade máxima de saúde do país. No início isso até foi praticado sob a coordenação do então ministro Mandetta. Nesse momento, se compararmos o Brasil à caravelas, sugiro que pulem para o bote porque o capitão sumiu. Mas a moda é viagem aérea então, apertem o cinto porque o piloto fugiu e, se caírem máscaras de oxigênio, pode ser que falte uma para você. Hoje, em muitas cidades do país, a lotação dos leitos de UTI ultrapassa 90%, quando existem. Em muitos locais, já temos fila de espera, como é o caso de Belo Horizonte-MG. 

Mas voltando para as companhias aéreas, as empresas do setor foram as primeiras a receberem auxílio emergencial do governo brasileiro que, por medida provisória e decretos, realizou a postergação do recolhimento das tarifas de navegação aérea (imposto para usar aeroportos) e a postergação do reembolso de quem comprou passagem e não viajou. A MP também previu créditos que devem ter girado em torno de 8 bilhões, via BNDES. É certo que o setor aeronáutico é importante para o PIB brasileiro, em 2018, chegou a representar cerca de 1,9%, segundo a ANAC. No entanto, o avião ainda se encontra sem piloto para as micro e pequenas empresas que ainda não conseguiram ter acesso ao crédito anunciado pelo governo. Vale ressaltar aqui que tais empresas representam cerca de 99% do total de empresas no Brasil, que empregam formalmente mais de 60% da população brasileira. 

Desde a implantação de emergência sanitária, em 4 de fevereiro, pelo governo brasileiro, a ANAC tem regulamentado, por meio de notas técnicas, o comportamento do setor frente a pandemia. Curiosamente, as medidas sanitárias preconizadas pelas autoridades mundiais terminam quando o passageiro bota seu pé para dentro da aeronave. Em voos internacionais, por exemplo, as aeronaves deverão operar com 2/3 de sua capacidade e respeitar os limites de distanciamento de segurança entre poltronas. Isso significa que cada passageiro deve estar sentado com no mínimo 1,5 metros de distância de outro passageiro, além de outras medidas protetivas como o uso obrigatório de máscara e etc. Assim como jabuticaba só tem no Brasil, tal recomendação de distanciamento e redução do número de ocupação da aeronave não foi considerada para os voos domésticos. Existe um motivo especial para essa não adoção? Ainda mais no Brasil, que as empresas aéreas possuem autonomia para reduzir os espaços entre poltronas, o que significa que a ANAC não estipula, em suas regras, o espaço mínimo. É como uma licença para a tortura quando se tem que viajar de avião e se sentar numa poltrona tipo "sardinha enlatada".  

Toda essa discussão ganha mais glamour quando se inicia o serviço de bordo em um avião lotado pela própria malha aérea reduzida. O festival de retirar a sua máscara em ambiente fechado e pressurizado é regra pétrea para quem quer se deliciar com o serviço de bordo. Afinal de contas, não se consegue comer através da máscara. A cena que estou descrevendo é de centenas de passageiros, em meio aos números cada vez mais crescentes da pandemia no Brasil, retirando suas máscaras, comendo, bebendo e conversando, tudo isso a uma distancia de, quando muito, 90 cm do indivíduo da poltrona da frente. Em meio aos mais de 60 mil mortos no Brasil e com a epidemia em estágios diferentes nas diversas cidades brasileiras, a ANAC não pensou na possibilidade de disseminação da doença na aglomeração feita nos voos domésticos? Considerando que a imunidade do brasileiro nestes 105 dias de doença instalada chega a aproximadamente 2%, segundo dados da pesquisa realizada pela Universidade de Pelotas, e que um a cada sete brasileiros pode não saber se está contaminado ou não, pode-se dizer que o mal está chegando pelos ares. 

Na construção da ferrovia Madeira-Mamoré, nos idos de 1907 a 1912, que cortou cerca de 366 quilômetros adentro da Floresta Amazônica, ligando Porto Velho a Guajará Mirim em Rondônia, teve sua construção fracassada por duas vezes pelo mito da morte que vinha do ar. Foram cerca de 6000 trabalhadores que morreram de malária, pelos relatos, para vencer a construção, o que deu o título dessa ferrovia de A Ferrovia do Diabo. Parece que nós brasileiros não gostamos de aprender com a nossa história. A falta de regulamentação de distanciamento mínimo entre passageiros na aviação civil brasileira fará com que ciclos epidêmicos possam ser reiniciados em diversas cidades brasileiras.
Sim, o diabo chegou aos céus. Mas ainda dá tempo de tirá-lo de lá.


*Por Rodrigo Stabeli
Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCAR e consultor da OPAS/OMS


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