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Julio Chiavenato: O Brasil em Sertãozinho

O prefeito de Sertãozinho oferece, mas não obriga o cidadão a tomar cloroquina; Ele não é médico, mas candidamente pediu licença aos infectologistas

| ACidadeON/Ribeirao


Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
CONTEÚDO ATUALIZADO ÀS 16H45 DO DIA 30 DE JULHO DE 2020 

O prefeito de Sertãozinho, José Alberto Gimenez, oferece, mas não obriga o cidadão a tomar cloroquina contra o covid-19 - é o popular "cê que sabe". Ele não é médico, mas candidamente pediu licença aos infectologistas para atender ao desejo do povo - segundo ele todos querem o santo remédio proclamado por Bolsonaro para vencer a pandemia. Teria o esculápio sertanezino uma poção contra o chulé e uma mezinha para espinhela caída? 

Se tal besteira não acontecesse em meio ao dramático momento que vivemos, poderíamos parar na piada. Mas há consequências. Tanta ignorância revelada com veludo na língua, na tentativa de parecer bonzinho e fugir à responsabilidade, mais do que burrice é oportunismo político. 

O Brasil é estranho. O povo aceita tudo, do presidente ao vereador a cota de bobagem é inesgotável. Morrem aos milhares e milhões são contaminados. Os hospitais estão à beira do colapso, mas a população dá um rolê pelas ruas e o comércio abre, escancaradamente ou de "meia porta", no escondidinho. Máscara é coisa de "viado" e os cientistas são contestados pelos charlatães. Ao se anunciar a vacina contra o vírus as redes sociais se entupiram de "informações" sobre os "perigos" da vacinação. 

Não há proteção contra o obscurantismo dos políticos e dos "influenciadores". Legalmente nada se pode ou não se quer fazer contra a estupidez que ameaça a saúde pública. Se o prefeito distribui cloroquina e a ciência já provou exaustivamente sua ineficácia e a droga pode causar sérios efeitos colaterais, por que não se impede a "medicina" do desavisado? 

Talvez pela mesma razão porque as leis não são aplicadas nos casos de crimes comprovados das pessoas "importantes". E, quando o são, parecem mais um prêmio ao criminoso: o desembargador que rasgou a multa por não usar máscara e desacatou o guarda, se for punido, será com a aposentadoria de R$ 30 mil mensais. 

Esses casos não se ligam apenas porque o prefeito de Sertãozinho e o desembargador ameaçam a saúde pública, mas por ser um modus operandi das autoridades brasileiras. O problema se agrava ao sabermos das possibilidades de defesa dos infratores, se acaso forem processados. Poderão alegar tantas leis, alíneas e parágrafos e, se necessário, protelar o julgamento por anos esperando a prescrição. Já para os negros e pobres a coisa muda: a "lei" é na hora com um pisão no pescoço, filmado e espalhado pela internet sem que nada mude.
Até quando o Brasil continuará sendo este Brasil? 


O que nos espera

Por muito mais tempo do que os pessimistas temem, este Brasil continuará inzoneiro, com sua luz merencória, como canta o puxa-saquismo do samba exaltação de Ary Barroso. 

Vai de cabo a rabo a decadência do que nunca foi ascendente. O presidente dispensa comentários a passear sua estupidez infetada, de motocicleta, soltando perdigotos nos garis. O general do Ministério da Educação começou sua "campanha" tentando adulterar os números da pandemia. Em seguida sequer leu os relatórios dos especialistas que, desde maio, alertaram sobre os riscos e anteciparam a situação que enfrentamos hoje. Os políticos mordem e assopram, uma hora a fingir aceitarem as normas da OMS e em seguida atendendo aos comerciantes gulosos. O povo segue a tradição nacional: do racismo ao egoísmo a ponte é a alienação e desprezo sobre os valores da dignidade humana. As exceções são sepultadas no vendaval de ignorância que se impõe pelas redes sociais. 

Não somos os únicos: é o ritmo do mundo atual. Se a maior potência elege Trump e a Europa oscila entre a direita e a esquerda - ambas sem rumo nem noção do que elas representam de fato - por que a pátria amada seria diferente? 

Se acham que isto é pessimismo esperem pelo futuro. 


Panaceia

Surgiu um esculápio
na terra sertanezina,
que colocou no cardápio
milagrosa cloroquina;
o vírus tremeu de medo
e a ciência aplaudiu,
assim, com esse bruxedo
remediou-se o Brasil. 


Radical

"A vida sem ciência é uma espécie de morte". (Sócrates, +399 AC) 
 
*A opinião do colunista nem sempre reflete a posição do ACidade ON
 

 
OBS.: O prefeito de Sertãozinho, José Alberto Gimenez, solicitou o direto de se posicionar após receber críticas da coluna. Abaixo segue o posicionamento do prefeito.

A Prefeitura Municipal de Sertãozinho manifesta sua indignação e la menta a abordagem tendenciosa, bem como a linguagem ofensiva utilizadas pelo jornalista Julio Chiavenato, para se referir à decisão da Administração Municipal quanto à disponibilização de medicamentos de tratamento precoce da Covid-19. Entendemos que : disponibilizar um medicamento não é o mesmo que obrigar a prescrição e nem a sua utilização. Trata se de oferecer à população a possibilidade de escolha para seu tratamento, com base em protocolo do Ministério da Saúde, seguindo criteriosamente as indicações clínicas, além de estudos que endossam a sua utilização. 

A postura do articulista deixa claro o quanto a polarização política em torno da Covid-19, em grande parte alimentada pela mídia, especialmente os veículos de comunicação aliados contra o Governo Federal , tem prejudicado a definição de condutas para o combate à pandemia, inclusive, alijando o Ministério da Saúde (órgão maior nas estratégias nacionais para a área) de sua competência de implantar e ter um plano de ação unificado para todo o território nacional. 

É inconcebível uma manifestação jornalística tão ofensiva , que ataca toda uma cidade e sua população, colocando seus moradores como pessoas ignorantes, e denigre a história de um prefeito que por 16 anos tem se dedicado ao desenvolvimento de Sertãozinho e ao bem e star de todos os seus moradores, atribuindo à sua pessoa características como "ignorância" e "burrice", e insinuando práticas de bruxaria, crime e oportunismo político. 

Sertãozinho tem, reconhecidamente, os melhores índices da educação básica na região e está entre as melhores do Estado. Situação que se repete na segurança pública, na saúde, no desenvolvimento econômico, n o meio ambiente, na infraestrutura, na limpeza e conservação, e em outras áreas. Tudo isso não foi construído aleatoriamente ou a poder de "bruxaria", como o articulista apontou de maneira até jocosa.  

Diferente de outros municípios não tão distantes, Sertãozinho não coleciona histórico de mazelas com a coisa pública e com seu povo. É uma cidade que se destaca por ter um governo sério, transparente e que, dentro da legalidade e da responsabilidade de seus gestores, trabalha de forma a fazer o bem para o seu povo.  

É fato: os homens não são iguais. Existem os maus políticos, mas, felizmente, também existem os bons políticos . Da mesma maneira , existem bons jornalistas, mas há aqueles jornalistas não tão bons , que se deixam influenciar por tendências políticas e extravasam os
limites da ética profissional.
 

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