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Fernando Kassab: O sorriso de Smiles

Ao morrer, em 1904, Smiles era uma lenda, com mais de 250 mil exemplares vendidos; O homem era brilhante e um trabalhador compulsivo

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab

A primeira vez que a expressão "autoajuda" foi registrada tem exatos 161 anos. Foi em 1859 que o escocês Samuel Smiles publicou o livro Self-Help, primeiramente como uma edição de autor. Mas não demorou muito para que a obra se transformasse em best-seller: ao morrer, em 1904, Smiles era uma lenda, com mais de 250 mil exemplares vendidos, somente de Self-Help, fora as outras obras do gênero (mais quatro) e outros 20 títulos, entre biografias de homens de seu tempo e sobre outras profissões quem ela admirava e exaltava. 

O homem era brilhante e um trabalhador compulsivo. Imagino Smiles um homem feliz e sorridente, embora não fosse comum, à época, demonstrações publicas de felicidade, principalmente entre homens de grande cultura e acadêmicos de todos os naipes. E imagino-o feliz por ter inventado uma fórmula de sucesso que dependeu - ora vejam! -, basicamente, dele mesmo, de suas observações e estudos sobre áreas tão distintas como a medicina e a engenharia. Enfim, um desbravador da mente humana através daquilo que costumamos dizer que "dignifica" a raça: o trabalho. 

Cento e sessenta e um anos depois a autoajuda é um negócio reluzente, de muitos milhões dólares, euros, reais e qualquer outra moeda, em todos os países do mundo, mesmo naqueles minúsculos, como São Cristóvão e Névis, que não devem ter muitas livrarias, mas que tem aeroporto. E aeroportos, todos sabem, é o lugar onde os livros de autoajuda vivem e se reproduzem. Uma viagem, principalmente uma daquelas bem longas, é ótima para o ser humano descobrir riquezas que já estavam dentro dele, mas que se recusavam a dar as caras Ao se deparar com aquela imensidão de valores adormecidos, sabe-se lá desde quando, é justo e natural soltar um animado e incontornável "viva eu!!". 

O problema, para os leitores, está na duração da animação. Às vezes não resiste nem mesmo a uma viagem entre São Cristóvão e Névis e o Japão, por exemplo. Não é um problema do autor, está mais do que certo. O norte-americano Dale Carnegie, uma espécie de papa informal da classe, escreveu a própria bíblia do gênero: "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", publicado em 1937, já vendeu 50 milhões de exemplares (e contando). 

Nos Estados Unidos, país em que a autoajuda mais prospera (!), existe até um número mágico, uma espécie de senha, entre os editores de títulos que ensinam coisas e melhoram a vida das pessoas. É o chamado "18-month rule", que garante mais ou menos o seguinte: quem compra um livro de autoajuda vai comprar outro em 18 meses. É ou não ou é um batalhão de leitores e leitoras? 

A propósito: pesquisas recentes mostram que são elas as maiores consumidoras das obras, um sinal claro, ainda um tanto injusto e desigual em vários aspectos, é verdade, da força feminina no mercado de trabalho. Se até os anos 1980 os corações e as mentes das mulheres eram, no capítulo leitura, ocupados por livros de crônicas, romances, contos, manuais de artesanato e as inacreditáveis histórias melosas capa-mole de Sabrina, Júlia e Barbara, hoje o negócio da autoajuda não vive sem elas. Se fosse viva e aderisse ao filão, Barbara Cartland ficaria sem pescoço para tantos diamantes ou orelhas para tantas esmeraldas. 

Assim como é difícil apontar um êxito ou um provável futuro sucesso de leitura, é impossível determinar sobre o motivo da animação do leitor ter a duração de um suflê fora do forno, para tristeza e desgosto de um dedicado autor, de uma destacada autora. Se o entusiasmo não fica na superfície - e, aparentemente, fica cada vez menos -, um dos motivos pode estar no inacreditável número de títulos lançados. Outro, bem provável, deve estar no fabuloso aumento de autores e autoras: todo mundo parece ter uma ideia para um livro de autoajuda; alguns trazem exercícios que, sinceramente, não valem um picolé de groselha, que mais se parecem um copia&cola de péssima extração. 

Se já estava vivendo dias de desajuste entre intenção, conteúdo e público alvo, o mercado da autoajuda - incluindo a invasão self coach - não foi exatamente ajudado pelo novo coronavirus. No desespero pandêmico, com as vidas reclusas e desânimo geral da distinta freguesia, há uma invasão de ideias e conceitos que até são parecidos com os preceitos que Smiles e Carnegie colocaram entre as duas capas de um livro. Mas o esmalte de pretensa sabedoria não resiste ao primeiro arranhão. 

Nininha, economista e amiga de muitos anos, que sempre achei dona de uma graça natural, além de divertida em tempo integral, mora em São Carlos e foi demitida. Aos 53 anos e depois de 18 anos de empresa, ela pensa em escrever um livro de autoajuda. Continua cheia de disposição, ideias e bom humor, mas está mais contida. 

Pergunto qual será o tema do livro. Ela seriíssima, responde que será um misto de conselhos espirituais e dicas práticas de como tornar o ambiente de trabalho mais positivo e, segundo ela, "iluminado". Pondero que é um bocadinho vago, que tem grande similaridade a tantos outros e que o leitor é um patrão exigente. Ela fica ainda mais grave, quase nervosa. Percebo, peço desculpas e digo o que ela bem sabe: não tenho experiência na área da autoajuda, que é melhor ela procurar um editor do segmento, que vai orientá-la e apontar caminhos. 

Ela diz que vai seguir meu conselho. E dispara: "Somos amigos há tantos anos, você não quer me ajudar?". Respondo que autoajuda não é a minha praia, que não saberia nem por onde começar. "Que pena", responde ela, "gostaria tanto de trabalhar com você", quase com o mesmo bom humor de sempre. Com ainda mais leveza, arrematou, como quem entra em um banco, se eu "não poderia emprestar 30 mil reais para eu mesma poder publicar o livro?". Não sei se Smiles aprovaria a abordagem. Mas daria uma grande gargalhada.

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