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Fabiana Guerrelhas: Roda de Samba

Faço muito esse exercício nas sessões de terapia quando o assunto envolve avaliar como são as relações de amizade do paciente

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Imagine uma folha em branco. Agora coloque um ponto bem no meio, depois faça um círculo em volta, e outro círculo em volta desse, e mais alguns. Esse pontinho no centro da folha é você. No espaço entre cada círculo coloque outros pontos, que são os amigos importantes que você colecionou ao longo da vida. 

Faço muito esse exercício nas sessões de terapia quando o assunto envolve avaliar como são as relações de amizade do paciente. No primeiro círculo, estão aqueles amigos mais próximos, cuja convivência é frequente e a conexão é intensa. Em algumas épocas eles mudam de posição e vão para o círculo mais distante. Outros, que estavam longe, às vezes chegam mais perto. E há pontos que acabam ficando tão longe, mas tão longe, que desaparecem ou saem da roda. E tem aqueles que permanecem a vida toda no mesmo lugar. 

Há pacientes que fazem tantos pontinhos, que o papel fica parecendo um céu estrelado. Outros desenham meia dúzia. Não importa quantos são, mas sim, se existem vínculos e relações significativas e duradouras. O meu desenho é cheio de pontos, parece até que eu derrubei pimenta do reino no papel. Além disso, o número de amigos que estão no círculo mais próximo a mim é grande. Mas em tempos de isolamento, por causa da falta de convivência, os pontinhos se mudaram para o círculo mais distante. E isso, realmente, me faz sofrer. Ficar longe dos amigos é, para mim, um dos principais prejuízos da Pandemia. Eu sinto a saudade no corpo através de sinais clássicos de angústia: aperto no meio do peito, garganta travada, enjoo e olhos embargados. 

Falar pelo celular ou computador até aproxima, mas não é a mesma coisa, não é mesmo? Para "quebrar um galho", abuso das postagens no Instagram e Facebook, pois curtidas e comentários me dão uma certa impressão de estar conversando com meus amigos. Mas aquele papo "olho no olho", sentar junto num sofá, frente à frente em uma mesa a bem menos de dois metros, abraçar apertado, fazer "tim-tim", dançar junto, cantar junto, comer junto, ai que saudade! 

Amizade é algo que considero uma das coisas mais importantes da vida, não meço esforços para cultivar meus relacionamentos e costumo ser bem disponível quando me solicitam. Não estou me gabando, pois aprendi isso bem cedo com meus pais e faço com muita naturalidade. Sofro pelas ausências e todas as despedidas são sempre muito dolorosas, mesmo que temporárias. E quando me sinto preterida ou desprezada, fico bem chateada. Romântica inveterada, fazer o que? 

Embora isso seja uma característica bastante individual, relativa ao meu jeito dramático, apegado e sensível de ser, não estou sozinha na valorização de boas amizades. A conexão social tem sido vista por estudiosos das Ciências Sociais e Biológicas como uma questão de saúde coletiva, com implicações sobre o equilíbrio do organismo como um todo. Mavis Tsai e Robert Kohlenberg, psicoterapeutas nos Estados Unidos e referências na Análise do Comportamento, pesquisam há tempos a importância de relacionamentos fortes e os efeitos da solidão. Eles encontraram dezenas de estudos afirmando que pessoas solitárias têm um sistema imunológico mais frágil e possuem um risco até maior de morte que fumantes, obesos, hipertensos e portadores de diversas doenças. Ao constatar que as relações fortes e intensas fazem bem à saúde, e que nosso corpo reage às nossas experiências, penso que o distanciamento social pode estar contribuindo para o aparecimento atual de tantas queixas somáticas como problemas cardíacos, de pressão, de glicemia, labirintite e todo tipo de dor.  

Há algum tempo, ouvi o "podcast" de uma palestra do psicanalista Contardo Calligaris que, aliás, em minhas mais profundas fantasias, gostaria que fosse meu amigo. Italiano, estudou na França - direto na fonte - e teve como mestres Lacan e Focault. Na palestra, o psicanalista conta que escolheu o Brasil para morar, entre outros motivos, por causa dos amigos que fez por aqui. Muito compreensível! Através da leitura de filósofos, ao longo da história, ele analisa brilhantemente o conceito de amizade, referindo-se a ela como uma virtude.  Ele listou os critérios que fazem uma relação ter essa qualificação, e além dos itens do Contardo, incluí mais alguns: amigos têm a mesma noção do "Bem", atravessam juntos situações difíceis, convivem em momentos de lazer, podem ser mais importantes que pessoas das relações conjugais e familiares, têm afinidades, compartilham a alma e segredos, experimentam sentimentos e emoções intensas, são cordiais. Não precisam ser parecidos, nem ter sempre e, exatamente, a mesma ética e opinião. Nas amizades duradouras é possível haver confronto sem ruptura. Amizade é lugar de descanso e de cansaço, lugar de troca, de aprendizagem, de parceria, de cumplicidade, de crescimento e de salvação. 

Dia 20 de julho foi dia do amigo. Mais uma dessas bobagens ótimas que fazem as redes sociais se encherem de homenagens e mensagens carinhosas. Entre canções, poemas, trechos de livros e filmes, sempre encontramos um bom escritor, músico ou cineasta que celebra a amizade em alguma de suas obras. Assisti, outro dia, no YouTube, a um show que Roberto Carlos fez com convidados. Quando ele tocou a música "Eu quero apenas", subiram tantos artistas no palco, que me deu a impressão dele ter conseguido realizar seu desejo de "ter um milhão de amigos". Ainda criança, conheci a peça "Os Saltimbancos", de Chico Buarque, e com ela aprendi que "todos juntos somos fortes" e que "ao meu lado há um amigo que é preciso proteger". 

"A morte e a morte de Quincas Berro dÁgua", romance de Jorge Amado, além de carregar forte crítica social, fala da dificuldade de aceitação da morte de um amigo. O livro, da década de 1950, e o filme, rodado em 2010, mostram uma inusitada festa de despedida organizada por amigos boêmios, que compartilhavam com o defunto, "o rei dos vagabundos da Bahia", prazeres da vida, falcatruas, mazelas da pobreza e a alegria de viver. Independentemente das questões morais envolvidas na história, o enredo enfatiza a lealdade, o respeito às diferenças e o rompimento com as tradições. Se Quincas fizesse o desenho do ponto e dos círculos, mais próximos a ele estariam os amigos que fez, já em idade avançada, com quem passou a conviver depois de abandonar sua típica e conservadora família e que estiveram com ele até o final da sua vida e no momento de "suas duas mortes". 

Durante essa reflexão, me lembrei, saudosamente, de todos os meus amigos, e enquanto escrevia esse texto, escutei, mentalmente, "A Amizade", do grupo Fundo de Quintal, uma música que considero um hino. Certamente, estará no repertório da minha próxima roda de samba, em que estarei cercada de amigos queridos, companheiros, comparsas, parceiros no crime, chapas, e que será uma das primeiras providências que irei tomar, assim que esse isolamento terminar. E que não demore!

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