Aguarde...

Colunistas

Gustavo Junqueira: O que mandamos pra cachola

O assunto já ficou demasiadamente recorrente, mas diante de sua avassaladora presença em nossas vidas, quando escrevemos, é ela, a pandemia

| ACidadeON/Ribeirao

Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

O assunto já ficou demasiadamente recorrente, mas diante de sua avassaladora presença em nossas vidas, quando escrevemos, é ela, a pandemia, que nos pauta o dedilhar no teclado. A vertente na coluna de hoje versa sobre o que nós, de forma consciente, consumimos e colocamos para dentro da cabeça, nas horas vagas, para manter a sanidade mental e o equilíbrio emocional enquanto convivemos com a real ameaça de acabar entubado, ou ser o causador de um óbito familiar, por não lavar as mãos adequadamente ou esquecer de vestir a bendita máscara ao sair de casa.

Como jornalista, não posso abrir mão de me atualizar com as notícias, fiquei craque em média móvel, em número de mortes diárias, em platô e em expectativa de queda da curva, que demora uma barbaridade para chegar e quando ocorre, mostra-se vagarosa. Mas, além do trabalho home office e dos afazeres domésticos, que não são poucos e tomam boa parte da rotina, resta aquele tempo em que você pode ser soberano e dono do seu próprio controle remoto, escolhendo o canal que irá ocupar a mente. Fiz um levantamento em julho do que retém minha atenção para saber se estou a caminho do hospício ou rumo a um mosteiro de monges budistas, mas creio que ocupo uma posição intermediária de saúde holística.

O resultado, longe de um modelo de virtude a ser alardeado nas mídias sociais, representa algo bastante pessoal e reforça que, antes de tudo, somos únicos. Tenho um irmão especialista em II Guerra Mundial e que me influenciou a acompanhar a evolução do conflito por uma série disponível na internet em "tempo real", ou seja, a cada semana ela traz uma análise e o que de mais importante aconteceu no mesmo período do ano durante o confronto global. "Estamos" em meados de 1941, em plena Operação Barbarossa, ou seja, a invasão alemã à União Soviética. O historiador e ator americano Indy Neidell narra os episódios com maestria e dramaticidade, ilustrados com imagens, gráficos e animações que nos levam para o sangrento palco de operações. São capítulos que duram cerca de 20 minutos e, ao final dos mesmos, agradecemos por estar hoje aqui enfrentando a pandemia e não as brutais e assassinas tropas de Hitler e Stalin.

Ainda sobre o tema de sangue, tiros e explosões, assisti aos cinco episódios de "Guerras do Brasil.doc" na Netflix, que abordam as batalhas e contendas do Descobrimento, Palmares, Paraguai, Revolução de 1930 e ainda uma contemporânea, que envolve o crime organizado. Com depoimentos de historiadores e o uso ágil de imagens e ilustrações, a série mostra nossa trajetória como país forjada em conflitos, conquistas, perseguições, escravidão, exploração e injustiças. Não à toa percebemos ao final que, se estamos enfrentando hoje a pandemia com resultados tão desastrosos em número de mortos, algumas causas importantes podem ser encontradas revisitando nosso passado, no qual bom senso e decisões sensatas das autoridades não eram exatamente a regra.

Como a História insiste em correr nas veias, não resisto e semanalmente também dou uma espiada no canal do jornalista e escritor Eduardo Bueno, no Youtube. O "Buenas Ideais" habitualmente recorre a uma narrativa bem-humorada da epopeia tupiniquim desde o século XVI. O último capítulo que vi foi a respeito de Borba Gato, aquele cuja estátua querem derrubar no Bairro Santo Amaro, em São Paulo, por ter sido um caçador de índios. Bueno nos explica então que o destemido desbravador não era propriamente um aprisionador de indígenas, mas um bandeirante em busca de metais preciosos. Seu grande legado, além de ter sido o pioneiro do ciclo do ouro de Minas Gerais no início do século XVIII, foi ter cometido um grave crime sem castigo, o assassinato do representante do rei de Portugal. Absolvido sem cumprir qualquer pena em troca da localização do vil metal, inaugurou para a elite do Brasil uma tradição que durou até a Lava Jato.

Da Netflix e do Youtube, salto para o NOW e vejo "O lobo atrás da porta", de 2013, filme premiado do diretor ribeirãopretano Fernando Coimbra. Bom saber que aqui da terrinha temos mais um profissional hoje respeitado internacionalmente e que chegou a dirigir dois episódios da série Narcos. A atriz Leandra Leal é a protagonista da trama que se passa na periferia do Rio de Janeiro e envolve um adultério com cheiro de tragédia. O drama possui uma coloração psicológica interessante, mostrando riscos que são assumidos pelos personagens centrais e que, para mim, me fazem refletir sobre quais riscos estou disposto a correr atualmente com o coronavírus antes que uma consequência desagradável atinja alguém inocente na família.

De volta para a Netflix, mergulho em Lenox Hill, série americana de 2020 que escancara a rotina de um hospital de Nova York referência em neurocirurgia. A angústia de médicos e pacientes é retratada de forma crua, assim como procedimentos nos quais tumores são extirpados do cérebro. Em tempos de crise mundial de saúde, Lenox Hill nos leva a viver com emoção aspectos ao mesmo tempo triviais e complexos ligados à vida e à morte, à ciência e à esperança, ao amor e à solidariedade.

Da tela para as páginas, estou relendo "Memórias Póstumas de Brás Cubas", pois um pouco de Machado de Assis sempre faz bem à alma. Intercalo com uma coletânea de contos e crônicas de Nelson Rodrigues organizada por Ruy Castro e com uma publicação lançada pelo pai do meu cunhado, "Memórias de um filho de imigrantes" - aprecio quando alguém se propõe a contar e registrar a própria vida. E ainda tenho que finalizar "Sob pressão", do médico Marcio Maranhão retratando sua dura experiência em hospitais públicos do Rio de Janeiro, livro que anda estacionado na minha cabeceira. Outra obra parada ao lado da cama é a excelente biografia de Clarice Lispector, assinada por Benjamin Moser. A escritora completaria 100 anos em 2020, mas ainda não consegui tempo e coragem para adentrar com apetite em sua apaixonante e perturbadora vida.

O leitor pode perguntar se não coloco para dentro da cachola conteúdos e sensações mais amenos ou menos violentos. Sim, poderia ser uma saída para a busca da tão desejada paz de espírito. Então, uma vez por semana, procuro jogar fora tudo que povoa a massa cinzenta tentando me entregar às aulas de yoga ministradas por minha mulher. Por alguns segundos, quando os latidos na vizinhança cessam, flutuo no quase nada focado apenas na respiração. Uma verdadeira desintoxicação! Seguida de um ameno passeio pelo bairro com a Sandy, a minha cadela, que novamente atiça os inoportunos e barulhentos cães das redondezas. E assim seguimos, firmes e fortes como prego na areia.

2000 e DZ9 - Chegou da gráfica na semana que passou meu segundo filhote, "2000 e DZ9". São 37 artigos que publiquei ao longo do ano passado neste espaço de "ACidadeON" apresentando uma narrativa de 2019 com um olhar de articulista. Falo de tudo um pouco, e agora, vendo os textos impressos em livro, ganham uma nova dimensão, em ordem cronológica, retratando o que era destaque no ano que foi véspera da pandemia, o tal do velho normal. Editado com o selo da Outras Palavras, capa do artista Renato Andrade e prefácio do jornalista Luis Eblak, "2000 e DZ9" está disponível em plataformas como Amazon, Americanas e Submarino. Desejo, pois, que siga trilha similar à de "O ruído do inquieto", cuja primeira edição, lançada em abril com 200 exemplares, se esgotou em dois meses.

*Gustavo Junqueira é jornalista

Mais do ACidade ON