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O senhor sabe com quem está falando?

Em Ribeirão Preto o prefeito não sabe. Aliás, ele e os políticos não falam com ninguém. O povo há muito tempo está mudo e quando pia só faz bobagens

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritos Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
O surdo não fala e o mudo não ouve...

O senhor sabe com quem está falando? 

Em Ribeirão Preto o prefeito não sabe. Aliás, ele e os políticos não falam com ninguém. O povo há muito tempo está mudo e quando pia só faz bobagens. Confiram os últimos eleitos e a reação irracional na pandemia. 

Seria demais pedir diálogo entre os políticos e a população. A política trata a opinião pública como algo difuso e manipulado. A "comunicação" entre os cidadãos e os eleitos é viciada pelos interesses dos poderosos e enfraquecida pela alienação dos subalternos.  

Não há organizações populares que pela vivência cotidiana entendam e defendam as necessidades da comunidade. Os conselhos de bairros, quando existiram, foram contaminados por interesses eleitorais e outros mais escusos. Não há lideranças autênticas respeitadas e acatadas. Os vereadores não representam a cidadania e os "representativos" servem a seitas e grupos religiosos. A maioria "subiu" pela mídia eletrônica, sem raízes populares, mas vazando populismo por todos os poros. Os que realmente importam controlam o Legislativo, na defesa de interesses econômicos. 

O prefeito é um administrador isolado, cercado de assessores com uma visão fria e distante do povo. Enfrenta os problemas quando e como eles surgem. O resultado é paliativo. Sem planejamento ou compreensão global das necessidades básicas, a Prefeitura limita-se ao socorro emergencial. 

A pandemia mostrou-o claramente. Ribeirão Preto não é caso isolado. Em todo o Brasil é o mesmo e nessa cidade, com sua imensa periferia social carente de quase tudo o problema se agravou. As recomendações do prefeito, seguindo as normas do governo do Estado, não são cumpridas pela maioria da população: mais de 50% ignoram o isolamento e não usam ou usam indevidamente as máscaras. O sistema de saúde, municipal e estadual, faz o que pode nas circunstâncias, sacrificando seu pessoal que trabalha no limite da exaustão - alguns profissionais morreram. 

O que fazer?
 

...mas quando o poder fala o povo murcha a orelha

Não é possível passar uma borracha e começar do zero. A herança é pesada. Os partidos são barrigas de aluguel para os candidatos originários da mesma cesta se lançarem em busca do poder. Não existe movimentos propondo mudanças no comportamento político. A próxima eleição repetirá a última. Além das perdas econômicas, sociais e humanas, a pandemia reforça o retrocesso político. 

Não temos opções. Ou elas são ilusórias ou catastróficas - Lula em um caso, Bolsonaro em outro (e no meio a meleca do "centrão" e a empáfia tucana). 

Uma das causas, talvez, é a impossibilidade de uma mudança radical. Morreu a expectativa, falsa ou real, de sequer um arremedo de socialismo. Nem mesmo de um "estado de bem-estar", como em alguns países europeus. Antes do fim da União Soviética os partidos de esquerda serviam de espantalho ao capitalismo, que cedia em determinados pontos para conter a "revolução". Hoje, com os sindicatos retraídos, não há contraponto e o governo corta na carne os trabalhadores sem que eles deem um gemido. Tradução: eliminado o "perigo socialista" o povo pode ser desprezado porque ninguém alimenta sua insatisfação. 

De certa forma, ironicamente, é preciso mudar a frase inicial dessa coluna: os políticos sabem com quem estão falando. 


Cantiga infantil Cantiga infantil 

Serra serra senador
serra o cofre da viúva
que um juiz agraciador
tira seu cavalo da chuva.

Rouba rouba roubador
que a sua bela plumagem
disfarça todo o fedor
e esconde a sacanagem.

Reze reze Alckmin
jure sempre ser honesto
que os bacanas estão afim
até de chuchu indigesto.

Minta minta Bolsonaro
e distribua a cloroquina
pois é cada vez mais claro
que a nação é bem mofina.

Lava lava lavador,
na Suíça o numerário
pois nesse Brasil impostor
bom é ser peculatário.
 

Não é que é?

"Não é preciso defender bonito, é preciso defender útil." (Evandro Lins e Silva, 1902-2002)

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