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De epidemia a pandemia, a política enche o papo...

Toda ação tem uma reação, e as reações mais temidas de toda a humanidade sempre foram as causadas pelas moléstias infecciosas que hoje chamamos de pandemia

| ACidadeON/Ribeirao

Rodrigo Stabeli, Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCARe consultor da OPAS/OMS

Sempre me pergunto, em meus momentos prozaquianos, se os seres humanos nômades conviveram com epidemias. Para o leitor se posicionar, estou falando da pré-história, período paleolítico e parte do neolítico (entre 10 milhões a 10 mil anos antes de Cristo), início do aparecimento do homem bípede na face da Terra. Porque, de fato, a história das epidemias está relacionada com a mudança do hábito de vida do ser humano que passou do nomadismo para a vida em sociedade organizada. No nomadismo, se explorava o território usufruindo de água e alimentos de uma certa região, respeitando os limites de oferta da própria natureza. Na falta de alimentos, os hominídeos se mudavam para outra área, iniciando-se assim um novo ciclo. 

A vida em sociedade, a partir do aprendizado do cultivar e do criar animais, resultou em estabilidade, garantia de mais alimento e, sobretudo, segurança necessária para se preservarem de outros predadores, como o tigre dente-de-sabre, por exemplo. Outra garantia importante foi a estabilidade na procriação que, como resultado após várias e várias gerações, alcançou-se nesse ano de 2020, o índice de mais de 7,8 bilhões de seres humanos. 

Toda ação tem uma reação, e a reações mais temidas de toda a humanidade sempre foram as causadas pelas moléstias infecciosas que hoje chamamos de epidemia, pandemia; em priscas eras já foram narradas como pestes. "A mão do Senhor veio contra aquela cidade, com uma grande vexação, pois feriu aos homens daquela cidade, desde o pequeno até ao grande, tinham hemorroidas nas partes secretas" (Samuel 1:6.9). Essa passagem bíblica faz menção ao povo filisteu que roubou dos hebreus a arca do Senhor e que foi castigado. Para sanar a praga do Senhor, os filisteus resolveram devolver a arca com cinco imagens de rato de ouro e também cinco hemorroidas, de ouro (coisas da bíblia). A peste de Atenas, que deve ter acontecido por volta de 432 a.C., foi narrada por Tucídides em seu livro História da Guerra do Peloponeso com tanto detalhe que, para o leitor mais curioso, vale a pena a leitura. Na Grécia antiga também conhecemos a política, a forma de organização em sociedades que observamos hoje. Formas de governo, legislação, moeda, calendário e tudo mais. Se você dar um Google aí, vai perceber que a história da colonização do mundo está recheada de grandes pestes que dizimaram muita gente. 

Mas o que tem a ver epidemia, pandemia e política? Muito se falou na gripe espanhola com a chegada da Covid-19. A pandemia causada pela gripe espanhola foi a que mais matou no mundo contemporâneo. Pelos relatos, ela deve ter dizimado cerca de 1/3 da população mundial. O problema é que a gripe espanhola não é espanhola. Na verdade, não se sabe ao certo a origem da gripe espanhola. A hipótese mais provável é que ela tenha se originado em quartéis de treinamento militar nos Estados Unidos e se espalhado a partir da movimentação militar dos mesmos na Primeira Guerra Mundial. Sim, a gripe espanhola, que não é espanhola, coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, onde as grandes potências mundiais como França, Estados Unidos e Inglaterra censuraram informação para não deixar que os rivais pudessem descobrir que seus exércitos estavam doentes. Como a Espanha estava neutra na guerra, pagou o pato, a informação de uma grande pandemia partiu do relato de muitas mortes causadas por um agente infeccioso em solo espanhol. Inclusive de soldados norte americanos. 

A pandemia causada pelo novo coronavírus, talvez a maior crise da humanidade contemporânea, veio junto com uma "desinfodemia", cujo desastroso resultado será contado muito em breve, principalmente em solo brasileiro. Em fevereiro os profissionais da Saúde e da Ciência eram aclamados pela população e pelo presidente da república, que inclusive ganhou as eleições negando a Ciência. Com mais de 120 dias de pandemia no país, os cientistas e profissionais de saúde passaram de heróis à vilões. Vilão pela completa ausência de uma Política Pública, como se a pandemia não existisse. Nenhum governo brasileiro, seja ele o central, governadores e prefeitos, fizeram uma Política Pública de contenção da pandemia. O resultado é notório; hoje, o Brasil possui quase três milhões de infectados e mais de 98 mil mortes, e nada desse número começar a cair. 

Mas a conta política de todos os nossos governantes estão cada vez mais gordas. Primeiro o presidente da república diz que é uma gripezinha. Depois, vem a público dizer que o problema é sério, mas que a população não precisa se preocupar. O governo do Estado adota isolamento social como tática, que sumiu do dia para a noite em seu plano de relaxamento. É a primeira vez na história desse país que presidente, governadores, prefeitos, pastores, a dona maria da esquina e minha tia velha fazem receitas complexas para a prevenção da pandemia. Se você está estranhando o termo prevenção da pandemia, não se espante, é isso mesmo. O erro é literal. Primeiro foi a cloroquina com Azitromicina; depois veio a Vitamina D com corticoide, recheada de Ivermectina. Os estados e municípios que usaram as tais receitas milagrosas não mostraram nenhuma melhora nos índices quando comparado com outros lugares. Mas o palanque político encheu o papo. Não teve um político sequer que, hora ou outra, antecipou uma coletiva de imprensa furando o olho do coleguinha. Faz tempo que a Covid-19 passou de ser um problema grave de saúde pública, para ser uma rica moeda de troca política, ainda mais nas eleições que se avizinham. Relaxa plano, regride plano; inventa-se decreto, barra-se decreto. A culpa é do presidente; não, a culpa é dos governadores, STF, prefeito, do pastor, da dona maria da esquina. Mas a conta política só engorda, não é mesmo?

Agora até ozônio no fiofó dos outros está valendo a pena para a cura da Covid-19. E sabe o que é pior? Vai ter fila, porque o que se vê nesse país é a preocupação com a política, e não com a nação. 

Devolvam a arca do Senhor com os ratos de ouro. A nós, restou as hemorroidas e o Prozac.

 
*Por Rodrigo Stabeli
Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCAR e consultor da OPAS/OMS
 

  
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