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A ciência em baixa, o comércio em alta

Em Ribeirão Preto, falam (e decidem) os comerciantes e o prefeito sobre o abre-fecha do comércio - destacam os prejuízos e minimizam os riscos à saúde pública

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritos Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

Há quinze dias os médicos, infectologistas e especialistas em vírus e epidemias desapareceram do noticiário. Agora, em Ribeirão Preto, falam (e decidem) os comerciantes e o prefeito sobre o abre-fecha do comércio - destacam os prejuízos e minimizam (ou sequer lembram) os riscos à saúde pública. 

No domingo passado um grupo de truculentos agrediu os fiscais que tentavam notificar um bar. O proprietário afirma que não os conhecia e a "situação ficou fora de controle". As imagens foram claras e dizem tudo. Mas ainda dá para algumas reflexões. Por exemplo, depois de dizer que fiscal da saúde pública é "emprego de vagabundo" e é preciso pô-los para correr, um dos marombados avisou que se for preciso, basta chamá-los que eles expulsam a fiscalização. 

Não foi preciso chamá-los, porque o prefeito relaxou o "isolamento" e, contra a determinação do governo estadual, insistiu em desobedecer as regras da fase laranja: o governo do estado recuou e concordou em "puxar" Ribeirão Preto para o amarelo. Na prática, as mortes não impressionam os políticos. Ribeirão Preto tem os piores índices de óbitos: em cada cem mil pessoas, 10,2 morreram vítimas do covid-19 nas últimas duas semanas. Os dados são do próprio governo paulista que ainda mostra um aumento de 10,1 para 10,2 mortes por cem mil habitantes nos últimos 15 dias. Apesar desses números o governo paulista "amarelou" a cidade. 

Assim, as atividades comerciais continuam no mesmo ritmo das recomendações municipais - que poucos respeitam e a maioria da população despreza, mas quase todos fingem que está funcionando. 

Voltando ao bando da truculência: o dono do bar alega não conhecê-los e que eles estavam em uma mesa dos fundos. Aparentemente, aguardando os acontecimentos. A Polícia investiga. Levará em conta a possibilidade de que eles poderiam saber antecipadamente que os fiscais visitariam o bar? Sendo desconhecidos no local, por que estavam lá justamente no dia e na hora exata? Se, por hipótese (e é bom lembrar que nesses casos as investigações partem de hipóteses para chegar aos fatos), sabiam da fiscalização, como souberam? 

E, lembrando a ameaça do valentão que prometeu ajudar quem quisesse "pôr pra correr" os fiscais, isso não sugere que há, pelo menos, um grupo organizado disposto a combater o isolamento? Em caso afirmativo, esse pessoal é só amalucado ou teria relações com bandos extremistas? 

As investigações podem responder tais perguntas. Ou não. Se depender do "espírito" do prefeito e da "firmeza" do governo estadual, fica como está para ver como é que fica. E, voltando ao início, sobre o "desaparecimento" dos especialistas em saúde pública do noticiário, o secretário da Saúde, que é médico, acredita mesmo que podemos saltar de uma fase a outra ouvindo as justas queixas dos comerciantes sobre suas perdas? 

Por fim, uma constatação já expressa pelos cientistas que sumiram do noticiário: estaríamos em melhores condições se desde o início da pandemia tivéssemos feito o isolamento social corretamente. O que comprova: quanto mais se precipita e se arrisca a saúde pública, mais prejuízos sofre a economia. 


Calote milagroso

Há pouco tempo as igrejas perdoavam os pecadores. Mudou um pouco: hoje, com a benção dos deputados, é o governo que perdoa o calote das igrejas. Apesar de isenção da maioria dos tributos que todos pagam, as igrejas sonegam o pouco que deveriam pagar. A dívida cresceu e agora chegou a R$ 1 bilhão. Piedosos, os deputados da bancada evangélica aprovaram uma lei perdoando os pecadores, quer dizer, os devedores caloteiros. Bolsonaro "naturalmente" sancionou a lei do calote milagroso. Votaram favoravelmente ao perdão da dívida os deputados de Ribeirão Preto, Baleia Rossi (MDB) e Ricardo Silva (PSB). Os dois devem estar de olho na vida eterna. Abençoados já são hereditariamente...
 

Mais de 600 mortos

Não reclama quem já morreu,
debaixo da terra não tem jeito:
sendo crente, corintiano ou ateu
de lá não dá pra xingar o prefeito. 


Assim é a vida

"Cara, desculpa, na humanidade não para de morrer gente." (Regina Duarte, namoradinha do Brasil)

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