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Humor com rancor ou paz e amor?

Na década de 70, Os Trapalhões, usando do talento genuíno de Didi, Mussum, Zacarias e Dedé, não economizaram em piadas hoje banidas da televisão

| ACidadeON/Ribeirao

Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Com o passar do tempo, tenho a impressão de estar ficando mais sisudo e mal-humorado, pouco afeito a risadas. Se antes as dava com mais frequência, hoje demoram para surgir e trazer mais leveza e descontração aos dias mais cinzentos. Descontando a rabugice da idade, passo a limpo, numa visão bem particular, as transformações do humor das últimas décadas para entender se ele ficou menos engraçado com a ascensão do politicamente correto, ou mudou para melhor refletindo uma sociedade antenada com mais clamor de justiça e menos tolerância com a desigualdade. Numa de suas inúmeras lives, o filósofo Mario Sergio Cortella afirmou que humor é quando rimos com os outros, não dos outros. Será? 

As crianças a partir de 1950, e por quase meio século, se divertiram na TV com "Os três patetas". E o que era esse programa senão uma monumental sequência de bullying, com os personagens centrais sempre tirando vantagem um dos outros entre tapas na orelha, dedos nos olhos, tropeções e torta na cara? Na década de 70, "Os Trapalhões", usando do talento genuíno de Didi, Mussum, Zacarias e Dedé, não economizaram em piadas hoje banidas da televisão em que reforçavam preconceito contra gays, nordestinos, negros e qualquer um que tivesse uma característica física considerada fora do padrão estético: obesos, baixinhos, narigudos e por aí vai. 

Jô Soares, em "O Planeta dos Homens", na mesma época interpretava um personagem cujo filho, Dorival, de 1m80, era claramente homossexual, mas o pai o via de maneira fictícia e orgulhosa como a mais máscula das criaturas. Quando, no entanto, conversava com um amigo, enxergava no filho deste todas as características reais de Dorival que ele se recusava a aceitar soltando o famoso bordão: "Tem pai que é cego!" Alguns anos mais tarde, no fim da ditadura militar, o humor ficou mais abusado, com menos escrúpulos e sem tréguas para o politicamente correto, expressão inexistente naqueles tempos. Com a ressaca da repressão, veio a liberdade sem limites. 

Um exemplo foi o "Planeta Diário", jornal mensal de humoristas cariocas que, depois se se juntarem aos colegas da revista "Casseta Popular", protagonizaram por duas décadas o muitas vezes hilariante "Casseta & Planeta Urgente" da TV Globo. Dois exemplos de piadas estampadas no "Planeta Diário" que certamente hoje fariam corar seus autores. Quando Tancredo Neves agonizava em 1985 no hospital após várias cirurgias antes de morrer, o jornal publicou aquele famoso "ligue os pontos" e veja qual figura vai dar. Os pontos, na realidade, eram os das diversas cirurgias no abdômen de presidente em coma. Em outra notícia, trouxeram a foto de uma menina negra obesa com a legenda: campeã do 17º concurso de robustez infantil da Etiópia, pais que atravessava grave crise humanitária com fotos de crianças esqueléticas correndo o mundo. 

Já na TV Globo e como "Casseta & Planeta", as piadas foram calibradas quando o politicamente correto surgiu a passou a ganhar força. Mas os humoristas do programa não perdiam a oportunidade de desafiar com graça discursos que questionavam sua linha de atuação. Diziam que o grupo seria o único no Brasil cujos integrantes representavam as principais minorias e que, portanto, teriam autoridade para fazer piada sobre eles mesmos. Havia na trupe o gordo (Bussunda), o negro (Helio de la Peña) e o gay... acontece que nenhum deles se assumia homossexual, então todos os demais, com ar surpreso, repetiam "eu não, eu não"... 

Essa turma, de repente, desapareceu da tela, dando espaço ao CQC de Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Marco Luque, ao "Porta dos Fundos" de Fábio Porchat e Gregorio Duvivier, e à cultura do stand-up. Uma nova fase do humor, com uma pegada mais política, já em tempos de internet e mídias sociais, que acabaram dando voz e vez para os antes excluídos, além de terem criado uma vigilância atenta, ruidosa e ágil. Mesmo com talento e criatividade, fazer graça ficou mais complicado porque, invariavelmente alguém se sente incomodado com a piada e quer repreender e revidar, quando não pretende censurar ou mesmo fazer coisa pior. 

Muitos católicos mais fervorosos, por exemplo, não se encantaram no final de 2019 com o Especial de Natal do "Portas do Fundo" que insinuou um Jesus Cristo homossexual. As reclamações acabaram num atentado terrorista nada humorístico contra a sede do grupo. Na semana passada, uma paródia do versátil Marcelo Adnet não foi recebida na esportiva pelo secretário especial da Cultura do governo federal, Mario Frias, que através de suas redes sociais xingou enfurecido o comediante. As imitações, especialidade de Adnet, de Carioca e de alguns comediantes do programa "Pânico", continuam em alta. São, de fato, engraçadas e não saem de moda, mas alguns dos imitados acabam se irritando. 

O nosso presidente propaga por aí um tal de humor saudável, ao menos na peculiar ótica bolsonarista. Sobre seu fiel seguidor Helio "Negão", contou que o mesmo demorou para nascer e por isso veio queimado. E sobre homens que se tornam pais de meninas, "fraquejam". Enfim, não configuram mensagens consideradas hoje adequadas às campanhas contra o racismo e a favor da igualdade dos gêneros. Mas calculo que, se Bolsonaro ainda conta com o apoio de mais de 30% da população, um percentual semelhante deve achar suas piadas engraçadas. 

Gostaria de finalizar este artigo com alguma anedota ou comentário satírico que fizesse o leitor dar uma gargalhada sonora. Vocês conhecem aquela do... bem, melhor não, alguém pode se enfezar. Já não sei se rio ou se choro, se sou preconceituoso ou politicamente correto, se estagnei ou evoluí. Vou economizar em ironias, sempre tão corrosivas, investir em terapia do riso, não fomentar o rancor e abraçar o humor paz e amor...rsrsrs... 

*Gustavo Junqueira é jornalista

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