Aguarde...

Colunistas

A sofrência embriagada e a violência contra a mulher

E se o intuito é beber para lidar com as questões do amor, o álcool e a música são ingredientes que formam um drink da fossa perfeito

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Beber e se embriagar fazem parte da condição humana, desde os tempos da pré-história. Na época em que éramos caçadores e coletores, já consumíamos o líquido produzido pela fermentação de frutas e cereais. Ao longo de nossa evolução, e de acordo com cada momento histórico e cultural, este ato foi adquirindo diferentes significados e está tão arraigado em nossos hábitos cotidianos que várias nações têm sua bebida típica, como a cachaça do Brasil, o gin da Inglaterra, o saquê japonês, o whisky escocês e a tequila mexicana. 

Atualmente, são muitos os motivos que fazem uma pessoa beber. Ingerimos álcool para alimentar nosso corpo; para nos proteger do frio; para curar doenças; para alcançar o Divino; para selar pactos; para tomar coragem; para fechar negócios; para sentir euforia e relaxamento; para alterar nosso estado de consciência; para degustar; para celebrar, comemorar e confraternizar; para socializar e para afogar as mágoas resultantes das decepções amorosas. 

E se o intuito é beber para lidar com as questões do amor, o álcool e a música são ingredientes que formam um drink da fossa perfeito. Há diversas canções populares cujo enredo descreve amantes bêbados, destroçados pelo término dos relacionamentos, mas nada se compara à quantidade de letras deste tipo, na música sertaneja. Com tanta variedade, existe até um subgênero, a Sofrência. 

Eu nasci nos embalos da Disco Music dos anos 70, fui criada no Samba e curtida no Rock, no Jazz e no Blues. Confesso, portanto, que não gosto muito desse estilo. Uma moda de viola bem raiz, vá lá, mas ouvir sertanejo pop eletrônico não é bem a minha praia. No entanto, morando em Ribeirão Preto e com duas filhas adolescentes, não tive como evitar a invasão dessas músicas na minha playlist. Em várias ocasiões, como na corrida, em reuniões sociais ou no carro, quando me dou conta, lá estou eu cantando aquele sertanejão rasgado. Vejam só alguns exemplos de sofrências que estão na ponta da minha língua e que narram bebedeiras amorosas: 

"Se eu te ligar não atende, é desespero e culpa desse copo de whisky e gelo". 

"Meu orgulho caiu quando subiu o álcool (...) e prá piorar tá tocando um modão de arrastar o chifre no asfalto". 

"Cê vai virando a página, eu vou virando o litro, você de boca em boca e eu de bico em bico, já declarei falência do meu fígado e do bolso, se quiser me encontrar tô morando no fundo do poço". 

Eu não fui a primeira a atentar para o enorme volume de músicas sertanejas que enaltecem a embriaguez para sanar os problemas do coração. Há vários acadêmicos que já pesquisaram o tema, por diferentes prismas. Mariana Lioto, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, catalogou em sua Dissertação de Mestrado, em 2012, 243 letras de sertanejos que citam bebidas. Neste mesmo ano, Francismari Barbin, da Universidade Federal de São Paulo, num trabalho de Especialização em dependência química, aponta para o fato de as músicas incentivarem o uso de álcool. Essa discussão voltou a ser pauta durante a Pandemia por causa das lives sertanejas, patrocinadas pela indústria de bebidas, e que, muitas vezes, terminaram com os artistas trançando as pernas. E o público de casa, também. 

Arte e diversão à parte, não podemos esquecer que o abuso do álcool é um assunto delicado, complexo e responsável por diversos problemas na sociedade. O alcoolismo é coisa séria, um problema de saúde pública e que mantém uma relação direta com a violência, principalmente a doméstica. 

E por falar em violência doméstica, para quem tiver estômago para encarar um enredo absurdamente agressivo sobre o assunto, indico a série nacional da Netflix, "Bom dia, Verônica". É um suspense protagonizado pelos craques Eduardo Moscovis, Camila Morgado e Tainá Müller, que gira em torno do cotidiano de uma escrivã de polícia que trabalha numa delegacia de homicídios. Em busca de um abusador em série, que engana e maltrata suas vítimas com crueldade, Verônica toma conhecimento de uma história bizarra envolvendo corrupção, abuso de poder, rituais religiosos e feminicídio. 

O roteiro descreve o limite entre a racionalidade, a doença mental e a aparente ausência de humanidade e apesar de tratar-se de uma narrativa ficcional, apresenta um serviço de utilidade pública, na medida em que abre uma conversa sobre os tipos de abuso e formas de proteção. Um ponto alto da série é que ela indica caminhos reais para se buscar ajuda, como ligar para o disque denúncia ou procurar instituições que encaminham as mulheres em perigo. É assustador, mas vale a pena! 

Voltando à sofrência, mas sem mudar de assunto, algumas músicas sertanejas têm em seu conteúdo ideias bem abusivas em relação à mulher. Quando ouvi, outro dia, "bem malandramente eu vou dominar você (...) com um vinho Malbec você não me nega nada", me lembrei do alvoroço criado pela última "pedalada" do Robinho. Ele foi condenado em primeira instância, na Itália, por estupro coletivo de uma mulher de 23 anos. Repito: estupro coletivo! Ela estava bêbada, sem condições de falar ou de ficar em pé e, por isso, vulnerável. E neste estado, foi violentada sexualmente pelo jogador e mais quatro homens. Repito: Robinho e mais quatro homens! 

Uns a julgaram de imediato, dizendo: "culpa dela, quem mandou beber?". Outros falariam: "mas vocês viram como ela estava vestida? Deve ter provocado, afinal, vive disso!". Nananinanão! Nada justifica um ato hediondo como este e qualquer ato sexual não consentido é estupro. Repito: se o sexo não foi consentido, é estupro! 

Situação parecida aconteceu com a blogueira Mariana Ferrer. Ela foi estuprada por um empresário milionário, numa festa de praia em Florianópolis, fato que, na época, foi comprovado pela polícia e tudo mais. Além do estuprador ter sido absolvido, a vítima foi humilhada e psicologicamente torturada durante a audiência, por promotor, advogado e juiz. Na série "Bom dia, Verônica", há uma cena igual, em que a vítima é desrespeitada pela delegada, ou seja, é re-violentada por uma outra mulher. Impossível de aceitar e difícil de compreender! 

Que é muito difícil ser mulher num mundo tão machista, não é nenhuma novidade. Esse fato está exemplificado nos casos relatados, nas letras dos hits populares, nas conversas do Robinho com seus amigos, nas explicações que ele deu à imprensa e no discurso dos defensores da ideia de que existe "estupro culposo". É evidente que devemos (homens e mulheres) lutar por uma sociedade mais igualitária e justa, em que mulheres e homens tenham os mesmos direitos. Mas enquanto isso não acontece, mulherada, se beber, divirta-se, escute a música que quiser, onde quiser, com quem quiser, mas não dê bobeira, pois há muita injustiça por aí.


Mais notícias



Mais notícias do ACidade ON