Aguarde...

Colunistas

Ninguém tem o direito de se espantar com a política

Depois que Bolsonaro mandou as vítimas da gripezinha deixarem de ser maricas, o que há de estranho em traficantes tentarem ser vereador em Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

 

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

 Todos sabem e fingem não saber

Ninguém tem o direito de se espantar com a política brasileira. Depois que Bolsonaro ameaçou os Estados Unidos com pólvora e mandou as vítimas da "gripezinha" deixarem de ser maricas, o que há de estranho em traficantes e bandidos tentarem ser vereador em Ribeirão Preto? 

Nenhuma novidade que um dos suspeitos, com candidatura indeferida, é advogado. Nem que o tráfico sequer disfarce e escolha para "sua" vaga na Câmara uma chefona com expressiva "capivara". O PCC controla alguns bairros, influi em vários setores, têm cúmplices nas altas esferas e já ajudou a eleição de vereadores. Agora não quer terceirizar. 

Nada surpreendente que alguns candidatos receberam auxílio emergencial do governo para enfrentar a pandemia. E os partidos? Não sabiam que davam guarida a marginais? O que aguardamos, e talvez já exista, é o surgimento de milícias que "protejam" os cidadãos e o comércio ribeirão-pretanos. Se fossemos cínicos diríamos que é o caminho natural: o Estado não cumpre sua função, faltam escolas e postos médicos, não existem centros de lazer e cultura - falhas supridas com mais ou menos intensidade em algumas "comunidades" pelo tráfico. Aliás, com "justiça": os traficantes não admitem vacilo e usam tribunais específicos - para a população comum as penas podem ir da expulsão a alguns sopapos, e para os seus "soldados", tortura, prisão e morte. A sentença é imediatamente cumprida. 

Esta é a realidade que se torna normal não o "novo normal" como dizem os descolados, pois a coisa vem de pelo menos três eleições, sem nenhuma investigação. Cidadãos beneficiados pelo crime organizado, tanto de baixo como de cima da hierarquia social, elegeram-se e devem se reeleger. Mesmo aqueles pegos em flagrante há três anos, com provas obtidas pela "busca e apreensão": são crias de bandidagens conhecidas, portanto, impunes. Alguns são intocáveis pelas ligações com a elite social, econômica e política. Outros, porque mexer com eles pode furar o tumor e o pus se espalhar. 

Ribeirão Preto tem mais de 700 mil habitantes; 10 mil famílias estão amontoadas nas suas 70 favelas (ou 100, os dados são pouco confiáveis), onde mais de 50 mil seres humanos vivem degradadamente as condições sanitárias são péssimas e eles ficariam felizes se recebessem a metade do cuidado dado aos animais criados industrialmente, já que os favelados convivem com os porcos magrelos que lhes disputam o espaço. Aos barracos das "comunidades" acrescentem-se as favelas de cimento dos conjuntos habitacionais, que confinam milhares de pessoas como se fossem formigas sem espaço sequer para abrir os braços (a sala de estar de qualquer residência da zona Sul é maior do que toda a área de um casebre). 

Mas a propaganda eleitoral mostra outro mundo e mesmo os críticos pegam leve e só prometem que vão melhorar o recheio do bolo. Não adianta, a massa está podre. A "defesa" dessa sociedade é ignorar a verdade e olhar o futuro com a viseira da hipocrisia. Por isso falam tanto em "democracia" e nunca em justiça social.
 

De favela a comunidade

Hoje é politicamente incorreto chamar favela de favela: o nome agora é comunidade, embora a meleca seja a mesma. A mania de maquiar a realidade não é nova. Na ditadura militar, entre os vários coronéis que tomaram conta de Ribeirão Preto veio um "intelectual". Macio no trato repreendeu-me por escrever favela. E me explicou que "sociologicamente", ao citar as favelas, deveria ser escrito "zonas de baixa aculturação social". Convenhamos: comunidade é menos complicado...
 

Ao pentelho

Cada um no seu quadrado,
não complique, rapaz,
nem seja mal educado
e leve a vida em paz;
deixe de ser abobado,
seja um cidadão capaz:
releve o que é errado
pois a existência é fugaz;
não fique tão abismado
com essa gente falaz:
seja bem abrasileirado
e avance, muito voraz,
no que pode ser roubado;
este é o meu conselho
ao espertíssimo poltrão:
deixe de ser pentelho
e se associe ao ladrão. 


As amargas, não

"Certas coisas só são amargas se a gente as engole." (Millôr Fernandes, 1923-2012)


Mais notícias



Mais notícias do ACidade ON