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Quando o cenário político mexe com nossas emoções

Muitos já disseram que o Brasil não é para amadores. Concordo! E em matéria de política, haja coração!

| ACidadeON/Ribeirao

Fabiana Guerrelhas (Foto: Arquivo Pessoal)
  
No domingo passado, saindo para votar, olhei para uma placa que fica bem na minha porta, em que se lê: "No place for: homophobia, fascism, sexism, racism, hate". Significa que em casa não há lugar para homofobia, fascismo, sexismo, racismo e ódio. Escolhi, portanto, candidatos que estão, pelo menos em tese, de acordo com esses meus princípios.  

Durante o caminho até a zona eleitoral, rodou um filminho em minha cabeça com lembranças do passado e vivências atuais referentes ao mundo político. Em todas as eleições eu resgato essas memórias, mas dessa vez foi diferente, junto aos pensamentos vieram algumas emoções. Boas e ruins. 

Muitos já disseram que o Brasil não é para amadores. Concordo! E em matéria de política, haja coração! Precisamos ser fortes para lidar com acontecimentos que embrulham nosso estômago. É muita emoção! 

Tenho boas lembranças relacionadas à política. Quando votei pela primeira vez (governador em 1990), me senti adulta e orgulhosa. Fui até meu local de votação, na cidade de São Paulo, de bicicleta, vestindo uma camiseta com os dizeres: a primeira vez tem que ser por amor. Eu era ainda uma menina, não tinha nem dezoito anos. Lindo, não? 

Participar da passeata pelo impeachment do Collor, em 1992, foi sensacional. Estava no primeiro ano da faculdade, no auge da juventude e cheia de ideias para mudar o mundo. Eu era mais uma entre aqueles milhares de estudantes caras pintadas que protestaram da Avenida Paulista até o Vale do Anhangabaú. Aliás, meu protesto durou dias: escrevi com tinta guache a palavra FORA, na minha testa, e peguei sol o dia todo. A marca levou uma semana para sair. 

Nesse looping de emoções, lembrei que tive muita raiva do nosso atual Presidente quando o assisti, ao vivo, na votação pelo impeachment da Dilma, em  2016. Ele era Deputado Federal na ocasião e homenageou o Coronel Brilhante Ustra, reconhecido torturador. Fiquei estarrecida! Eu acabara de ler "Ainda estou aqui", de Marcelo Rubens Paiva, livro emocionante, em que ele descreve o sumiço, a tortura e a morte de seu pai pelos militares, durante a ditadura. 

Outro engasgo sentimental, que veio à memória, foi minha decepção ao saber que alguns de meus líderes políticos, pessoas nas quais eu sempre confiei, estavam envolvidos até o pescoço em esquemas de corrupção. 

Como cidadã, reajo emocionalmente aos fatos e como psicoterapeuta, testemunho diariamente os sofrimentos decorrentes do momento histórico difícil que estamos passando. Escuto depoimentos do tipo: "a atitude do Presidente me deixou deprimido"; "briguei com minha família porque eles são todos petistas"; "me senti ofendido e odiado num grupo de WhatsApp, depois de ter dado uma opinião sobre o Governador"; "estou com medo de tomar a vacina da China"; "fico revoltada quando vejo pessoas sem máscara na manifestação que apoia o governo"; "tenho vergonha do Brasil perante o mundo"; "me desapontei muito com a maneira como tem sido conduzida a Pandemia em nosso país"; "não sei se acredito na OMS, estou confuso e inseguro". 

Psicoterapeuta é garimpeiro e joalheiro de emoções. Nosso trabalho consiste em encontrá-las, entendê-las e lapidá-las. Esses relatos contêm tristeza, raiva, ódio, vergonha, insegurança, revolta, medo, confusão e desapontamento, estados emocionais que compõem meu material de análise. Para favorecer que os pacientes aprendam a manejar esses sentimentos, muitas vezes, conto com a ajuda da literatura e do cinema. Uma boa referência é o livro "A grande obra", do querido parceiro e renomado psiquiatra, Doutor Luiz Alberto Hetem, no qual ele apresenta brilhantemente o complexo conceito de emoção, além de nos dar um ótimo panorama sobre o que fazer com sentimentos tão comuns, como orgulho, inveja, raiva e culpa. Outro exemplo é o filme de animação "Divertidamente", que de infantil não tem nada, e que também é uma excelente maneira de entender as emoções básicas (alegria, nojo, raiva, medo e tristeza) e como elas são afetadas ou produzidas pelos acontecimentos da vida. 

Como terapeuta analítico-comportamental, busco entender as emoções junto ao contexto em que elas ocorrem. Quando acontece algo importante no campo social, as queixas dos pacientes se assemelham, ou seja, alguns fatos políticos e atos dos governantes provocam reações emocionais parecidas. Outro dia, o Presidente nos chamou de maricas, comemorou a morte de um brasileiro, disse que iria resolver conflitos com pólvora ao invés de diplomacia, entre outros absurdos. Eu fiquei enojada e os sentimentos gerados por essas aberrações verbais também foram tema de muitas sessões. 

Independentemente das aspirações ideológicas individuais, existem valores universais responsáveis pela manutenção da vida humana na Terra. Integridade, igualdade, dignidade, justiça, liberdade, segurança e respeito são direitos humanos básicos que deveriam ser garantidos por qualquer governante. 

A política governamental é responsável pela organização e administração das nações e dos estados, certo? É a "diretoria" que cuida e regula a nossa coletividade, nossos direitos e deveres, certo? Qualquer regime governamental ou pessoa que se envolve nessa área deveria promover o BEM público, o BEM de todos, certo? Mas se as pessoas são diferentes, com interesses e necessidades distintas, é impossível haver consenso sobre o que seria esse BEM, certo? E é aí que começa o conflito. Acontece que, atualmente, qualquer conflito vira guerra e nossos ânimos estão exaltados. As eleições americanas também geraram sentimentos contrastantes. Por um lado, veio a esperança por um mundo mais justo, humanista e menos extremista, mas por outro, sentimos vergonha alheia do negacionismo psicótico do Presidente de lá, que é modelo para o Presidente de cá. 

Quando trabalhava com Psicologia Hospitalar, cuidando de pacientes em fase terminal, falava sempre: "se houver 1% de chance de cura, há 100% de esperança". E a otimista incorrigível que vos fala, não pretende perder a esperança. Por enquanto, me recuso a desistir e vou continuar ajudando as pessoas a buscarem caminhos dignos, saudáveis e não violentos. E continuarei usando meu voto para lutar democraticamente por um mundo melhor e mais justo.


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