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O trabalhador não é máquina, mas um ser humano

Em Ribeirão Preto, os dois candidatos pensam igual: acham que o importante é faturar para que a economia não descambe ainda mais

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
  
O economicismo "automático" dos políticos

Em entrevista no dia seguinte às eleições, Suely Vilela afirmou que sua principal meta será o desenvolvimento econômico. Agradou à face economicista do sistema.
Originalmente o economicismo designava a esquerda adepta de que os trabalhadores deveriam lutar por empregos e salários - a política ficaria com a burguesia democrática. Alguma semelhança? 

Ao contrário do que pensam os economicistas, para criar empregos e melhorar salários é necessário começar pela política. O trabalhador não é máquina, mas um ser humano que deve usufruir do seu trabalho. Porém, não há espaço para cogitar disso, porque a "classe política" quer pensar pelos demais cidadãos e a mídia se pauta pelo que os políticos põem na mesa. 

Em Ribeirão Preto os dois candidatos "pensam" igual: acham que o importante é faturar para que a economia não descambe ainda mais. A pandemia é vista como um entrave chato para Nogueira, que cede às pressões de comerciantes e, com "cautela" para Suely, que promete cuidados especiais para fazer a mesma coisa que o adversário faz - liberar geral, mas dizendo que segue os protocolos: palavrinha usada por ambos para mascarar qualquer posição dúbia. 

Ronald Reagan, que a direita considera genial, dizia: "é a economia, estúpido". E os estúpidos se convenceram do que os donos da grana diziam ao se apropriarem do trabalho da maioria pobre e empobrecida. O Brasil tem a segunda maior concentração de renda do mundo, só atrás do Catar. Aqui, os 1% mais ricos abocanham 28,3% da renda total e 10% da população ficam com 41,9% - o restante (57,1%) é dividido por 89% dos brasileiros, segundo dados do IBGE e do RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano), da ONU. Isso significa que 11% dos mais ricos ficam com 70,2% da renda nacional. É pouco ou quer mais? Se quiserem é só dar uma passada no Google. 

Quando a economia está bem o sistema quer o Estado mínimo. Se vai mal, pede socorro ao mesmo Estado que desdenha. Na atual crise brasileira, para socorrer a imprevidência do capitalismo monopolista o governo começou por desonerar, tirar direitos dos trabalhadores e nos bastidores luta para mudar ou anular a Constituição, tentando acabar com o que resta de políticas públicas. 

Voltando aos canaviais. Precisamos de política. Da economia "deles" que cuidem os seus economicistas. Necessitamos de melhor qualidade educacional e sanitária, só para citar dois entre muitos problemas crônicos. O/a prefeito/a deve se preocupar com o cidadão comum, que com seu trabalho enriquece uma minoria que corre à Prefeitura quando há alguma turbulência. Se sem-pre pedem um Estado mínimo é a hora de atendê-los.  

Por outro lado, não basta fazer viadutos e pontes sem conexão com a mobilidade urbana, como a praxe nacional seguida por Nogueira. É urgente reformular, na verdade, revolucionar o transporte coletivo e acabar com a ditadura das concessionárias. E por aí vai. Porém, nada vai em Ribeirão Preto onde a sabujice política diz amém ao poder econômico que tem seus tentáculos em todos os estratos sociais. 


A democracia entre ricos e pobres

No horário eleitoral Sueli e Nogueira aparecem sem constrangimento entre pobres e miseráveis, nas áreas periféricas onde o desemprego é cruel. É a democracia burguesa em busca de "legitimação" pelo voto popular. Os dois, ao contrário dos pobres e excluídos que eles acarinham, não têm problemas para conseguir o "leite das criancinhas". São milionários. Não escrevi ricos: milionários mesmo. Eles somam nove apartamentos e quatro propriedades rurais (por coincidência, todas em Minas). Nogueira tem o dobro do patrimônio de Sueli, mas empatam em número de casas, apartamentos e terras rurais. Detalhezinho: os valores dos bens declarados estão defasados - devem valer pelo menos o dobro. Ser rico não é crime, o diabo é que a riqueza costuma embotar a sensibilidade e distorcer a autoimagem.
 

As vozes que não se ouvem


Em artigo na Folha, dia 12, os cientistas Dalton de Souza Amorim, Adriana Santos Moreno e Domingos Alves, da USP-RP, afirmaram: "O Plano SP mostrou-se péssimo preditor da pandemia de Covid-19. Ribeirão Preto, segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, ingressou na "fase vermelha em 10 de junho, com 1004 novos casos/dia, 3,4 novos óbitos/dia e 91 leitos de UTI ocupados; e ingressou na fase amarela, em 7 de agosto, com 311,9 novos casos/dia, 8,9 óbitos/dia e 167 leitos de UTI ocupados (respectivamente, 3,1 vezes, 2,6 vezes e 1,7 vez pior)." 

Não é preciso mais para constatar a incoerência e a "omissão culposa" - para não dizer criminosa - do poder público municipal. No entanto, ninguém ficou vermelho e a mídia não repercutiu.
 

Pança vazia

Quem espera sempre alcança
e fica rico quem trabalha?
Essa lorota não enche a pança
de quem rala e come migalha. 


Tancredo, o conservador

"O economicismo irritante de um capitalismo insensato implantou o desassossego nas sociedades, acirrou o ódio entre operários e patrões e recrudesceu nestes o egoísmo." (Tancredo Neves, 1910-1985)


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