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cotidiano

A orquídea e o fícus: reflexões sobre renascimento e suporte

Não me lembro de onde, exatamente, veio essa orquídea, mas ela deve ter sido um presente de alguém que me fez uma visita

| ACidadeON/Ribeirao -

Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Arquivo Pessoal)
Chegando de viagem no final do domingo de Páscoa, encontro, em meu
jardim, uma orquídea recém-nascida, enraizada no tronco de um fícus de mais
de vinte anos. É uma flor branca, delicada e está cheia de botões, indicando que
logo novas flores virão. A princípio, nada demais, somente uma flor relativamente
comum parasitando um tronco qualquer.  

Porém, como eu disse, era domingo de Páscoa e vi esta cena banal como
uma metáfora do que esse período costuma significar.  

Não me lembro de onde, exatamente, veio essa orquídea, mas ela deve
ter sido um presente de alguém que me fez uma visita ou então foi comprada
num supermercado. Depois que suas flores caíram, ela poderia ter ido parar no
lixo, por ser considerada morta, mas amarrei suas raízes ao tronco, esperando
que ela ainda pudesse ter um pouco mais de vida pela frente. E foi o que
aconteceu, ela se fixou em seu novo habitat e usufruiu dos nutrientes da árvore
para começar um novo ciclo, para renascer, para ressuscitar.  

Ver a orquídea nascer de novo, no dia da tal da Ressureição, me fez
pensar nos meus sofrimentos, nas minhas cruzes, naquilo que eu tive que deixar
morrer e nos momentos em que eu precisei me renovar. Para sobreviver, essa
flor teve de contar com a ajuda de uma árvore forte e resistente. E isso é
extremamente necessário em momentos de muito sofrimento. Tem horas em que
estamos tão aniquilados e a sensação de morte existencial é tão intensa, que
precisamos de força externa para nos transformar e recuperar a vida.  

Da história do fícus, onde a orquídea está alojada, eu me lembro muito
bem. Quando me mudei de São Paulo para Ribeirão Preto, no começo dos anos
2000, decorei a pequena varanda do meu apartamento com um arbusto. Nessa
época, o fícus não tinha nem trinta centímetros. Os anos se passaram, a família
foi crescendo e eu me mudei mais três vezes para lugares sempre um pouco
maiores. E aquela planta foi se mudando junto com a gente, sendo transferida 
para vasos também maiores. Virou uma árvore de folhagem volumosa e já
ultrapassa três metros de altura. Ela permanece em um vaso, mas está saudável
e feliz e tem seiva suficiente para doar sua energia a flores hospedeiras. É tão
forte, mas tão forte, que não se pode plantá-la diretamente no solo, pois seu
crescimento abalaria a estrutura da casa. 

Esse fícus tem um significado na minha história. Ele é testemunha de
mudanças pelas quais passei (internas e externas), além de um exemplo de que
é possível se adaptar a elas sem perder a força e mantendo a vitalidade. Assim
como a Páscoa, a transferência do fícus significou passagem de um ambiente
para o outro, de uma fase para a outra.  

A orquídea, que renasceu no tronco do fícus, ali, bem diante do meu nariz,
me fez pensar nos momentos em que fui frágil e dependente ou forte e resistente.
Me fez lembrar de situações em que precisei me apoiar numa base segura para
sobreviver ou ser eu a base para quem precisou do meu apoio.  

Li, outro dia, uma entrevista muito interessantes na "Revista Cult" (de
dezembro de 2021), com o psiquiatra Táki Cordás, professor do Instituto de
Psiquiatria da USP-SP. Entre outras questões, ele falou sobre o novo normal,
sobre os prejuízos da pandemia na saúde mental e sobre conseguir o equilíbrio
quando o mundo desaba diante de nossos olhos. Nos últimos anos, estivemos
numa situação extrema. Ninguém passou ileso, mas alguns foram mais
resilientes para lidar com a catástrofe. E os que não foram, precisaram
desenvolver novas habilidades para se proteger, se refazer e se regenerar. Nós,
profissionais da área "psi", tivemos, e ainda temos, um trabalho muito importante
de reconstrução neste cenário, muitas vezes servindo de alicerce, de base, de
árvore.  

Embora eu não seja religiosa, tenho formação cristã e escuto a história de
Jesus desde muito pequena. Nunca foi confortável pensar nas torturas pelas
quais ele passou e sempre fiquei muito aflita com as cenas de sua crucificação.
Independentemente do que cada um possa fazer com isso, penso que este seja 
um bom momento para refletir sobre a vida, sobre a morte e sobre os períodos
de calvário. Os nossos e os dos outros. 

Ninguém sabe qual será o tempo e a distância entre o nascimento e a
morte, mas sabemos que são dois extremos de uma única linha. E, durante essa
passagem, nascemos, morremos e nascemos de novo, ininterruptamente. Ora
orquídea, ora fícus.

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