
Quando você tem 15 ou 16 anos nem imagina quando seus amigos irão morrer. Achamos que todos se darão bem na vida e esperamos que todos morram velhinhos e dormindo, de preferência. Tirando as pessoas que atravessam a adolescência de maneira turbulenta, carregando, angustiados, intensos dramas existenciais, a despedida da infância e a consolidação de um corpo adulto costuma ser um período cheio de vida, no qual é difícil caber a realidade da morte.
Semana passada, morreu um amigo muito querido da juventude, com 49 anos. Fernando Barboza Ferraz, o Barba, foi um ser humano extraordinário e marcou profundamente a vida de todos que o conheceram. Além disso, deixou um legado no campo da música popular brasileira, ao fundar o Barbatuques – grupo de percussão corporal de renome internacional – na década de 1990. Ele decidiu morrer depois de lutar por alguns anos contra as sequelas de uma cirurgia cerebral para a retirada de um tumor, que fez com que seus movimentos ficassem fortemente prejudicados. Uma ironia do destino o impossibilitou permanentemente de batucar e produzir música com seu próprio toque, e com isso, não se reconhecia mais naquele corpo.
Tudo muito triste e chocante.
Apesar da dor envolvida neste momento trágico, sua partida promoveu meu reencontro com amigos e memórias intensas e felizes do passado. Conheci o Barba no Ensino Médio do Colégio Oswald de Andrade. Com um projeto pedagógico muito peculiar e alternativo, a escola funcionava em uma casa na Vila Madalena, bairro em que eu morava, próximo de onde eu nasci, em São Paulo. Éramos poucos alunos que interagiam muito livremente em um espaço que integrava o conhecimento tradicional (Português, História, Geografia, Matemática, Física, Química etc.) com disciplinas que aprofundavam conceitos ligados à cultura, meio ambiente, política e educação (Mitologia Grega, Astronomia, Ecologia, por exemplo).
Nessa idade, os amigos são tudo para nós e a convivência é fundamental na formação da identidade. Tive a sorte de conhecer pessoas – colegas e professores – que forjaram minha base cultural e aguçaram meu interesse pela arte. Barba foi um deles. Vivia tamborilando, produzindo sons com a boca, com as mãos e com o corpo todo. Tocava vários instrumentos, além de cantar. Quando viajávamos para Barequeçaba ou numa inesquecível viagem para Arraial do Cabo, passávamos as madrugadas embalados pela música. Fomos à incontáveis e memoráveis shows de MPB, Rock, Jazz e Blues. Passamos muitas tardes na deliciosa casa de seus pais, jogando Mario Brothers e baralho ao som de Gilberto Gil, Pat Metheny, Jorge Bem Jor, Eric Clapton, Beatles, Lou Reed, Led Zeppelin, Bob Dylan e mais um monte de gente boa que eu, particularmente, tinha acabado de conhecer. Barba era um bom amigo, carinhoso, divertido e cheio de sacadas inteligentes. Apesar de tímido, era muito comunicativo e estiloso – seu tênis
Bamba era sua marca registrada.
A vida passa, cada um tomou seu rumo e as escolhas profissionais nos separaram. Fiz Psicologia na PUC e ele, Música na Unicamp. Anos depois, me mudei para Ribeirão Preto e perdi o contato com boa parte da turma do colégio. Mas a bendita rede social me manteve próxima a muitos amigos queridos. Com o Barba, eu falava de vez em quando pelo Facebook, em troca de mensagens, sempre muito gostosas. Acompanhava sua carreira e seu sucesso, repleta de orgulho. Era emocionante ver o Barbatuques na TV. Achei o máximo assisti-los na abertura da Copa do Mundo na África do Sul, em 2010 e no encerramento das Olimpíadas no Rio, em 2016. Em shows, cheguei a cutucar estranhos, dizendo: “sabe o Barba? Amigo meu”. Derramei lágrimas quando minhas filhas apresentaram músicas de seu repertório nas apresentações da escola.
A notícia de sua cirurgia, em 2017, entristeceu e mobilizou a todos, e ele segurou a barra como pôde. Em 2019, publicou a biografia “A vida começava lá: uma história de repercussão corporal”, em parceria com sua irmã, Renata Ferraz Torres. A obra conta a trajetória musical do Barba e a história do Barbatuques, revelando a pessoa por detrás da fama, seus percalços amorosos, perrengues e dilemas emocionais. Escrever uma biografia é para poucos, é preciso ter conteúdo e uma vida, no mínimo, interessante e que toque as pessoas. O Barba teve gabarito para isso. Mesmo sendo muito introspectivo, já era popular e muito amado nos tempos de escola. Fui ao lançamento do livro e me emocionei ao reencontrá-lo. Não o via há muitos anos. Por causa de sua condição física, ele era outro Barba, mas com o mesmo olhar penetrante, curioso, bem-humorado e afetivo de sempre. Os olhos do Barba também faziam barulho dentro de nós.
Do Oswald, saíram vários talentos no campo artístico e cultural, principalmente no cenário musical. Formamos, na época, uma banda de música infantil que era um sucesso nos serões da escola. As meninas eram vocalistas e os meninos transformavam canções da Turma do Balão Mágico, Xuxa e Trem da Alegria em solos refinadíssimos de guitarra, bateria e baixo. Muitos deles viraram musicistas premiados. Há também os que se destacam na educação, na saúde e na política, áreas tão fundamentais para o desenvolvimento humano. Com aqueles amigos do passado, conheci as maravilhas contidas no mundo da música, do cinema, do teatro e das artes plásticas, e se você está lendo esse texto em uma coluna de jornal é porque, naquela época, eu me apaixonei também pela literatura.
São muitas as homenagens que Barba vem recebendo, desde o dia em que se foi. Me corta o coração imaginar o quanto ele vinha sofrendo nos últimos tempos. Fiquei surpresa e feliz ao ler o texto “Concentremo-nos nisso: também a beleza é contagiosa”, de Antonio Prata (o cronista que eu quero ser quando crescer), em sua coluna na Folha de São Paulo. Não sabia que eles se conheciam e fiquei fantasiando um encontro entre nós três, regado à música, ironia, humor e papo cabeça.
Barba ter perdido sua potência motora foi uma fatalidade cruel. Ter morrido de maneira tão bruta é algo bastante difícil de digerir. A morte de uma pessoa relativamente nova não é fácil de aceitar e, um suicídio, é sempre devastador, traumático e nos leva a profundas reflexões. É preciso entender, respeitar e conservar a imagem de quem partiu e cuidar de quem ficou. Apesar do sofrimento provocado pela perda, assim como sugere Prata, devemos nos contagiar pela beleza da existência do, tão querido, amigo Barba. Podemos fazer isso em silêncio ou produzindo sons com o corpo. Sua “vida começava lá”, mas certamente não termina aqui.